Eescrita “faminta” de Ana Paula Maia põe homens no centro do confinamento

Eescrita

A escrita de Ana Paula Maia parte de uma espécie de fome pela realidade, a escritora pesquisa jornais, profissões, prisões e histórias de diferentes regiões brasileiras para construir personagens masculinos confinados em mundos onde a violência está sempre à espreita.

© Pixabay


17/08/2026
por

Lusa

Ana Paula Maia

“Eu sou ficcionista”, afirma Maia em entrevista à agência Lusa, explicando que não sabe antecipadamente para onde uma história a vai levar e que, durante a construção narrativa, vai incorporando os temas que encontra pelo caminho.

 

Essa disposição para seguir a história está no centro de “Assim na Terra como Embaixo da Terra”, romance publicado originalmente no Brasil em 2017 e agora editado em Portugal (editora Manuscrito), depois de a autora ter sido uma das seis finalistas do International Booker Prize 2026.

A obra acompanha o ex-assassino por contrato Bronco Gil, cujo apelido é índio, numa colónia penal agrícola, que sempre está a pensar fugir por temer a morte no presídio. 

Mas a ideia nasceu de outro espaço de confinamento: o matadouro de “De gados e homens”, livro anterior da escritora, onde homens e animais permanecem confinados em lados diferentes.

“Eu falei: ‘Ah, já que eu falei de confinamento de animais, agora eu vou falar de confinamento de homens'”, contou Maia à Lusa, explicando como decidiu aprofundar a história de Bronco Gil e o seu passado no sistema prisional.

O confinamento, porém, não se limita às prisões na literatura da escritora, que vê a humanidade inteira “presa em espaços de confinamento” ao identificar fronteiras, bairros e territórios como espaços delimitados por linhas que muitas vezes são apenas imaginárias.

“Quem delimita esses espaços?”, questiona, ao refletir sobre fronteiras entre países e sobre a maneira como os seres humanos estabelecem zonas de pertença, exclusão e circulação.

Essa visão nasceu também de um olhar desenvolvido desde a infância, quando percebeu que a realidade não se limitava ao lugar onde vivia, em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro. 

“Hoje, andando o mundo afora, eu vejo que o mundo é periférico”, afirmou, descrevendo cidades e freguesias onde zonas organizadas podem dar lugar, à medida que se avança, a espaços mais precários e violentos.

É também nesse olhar que entram os “rincões do país”, expressão usada pela própria escritora na entrevista para designar regiões precárias do interior do Brasil que alimentam a sua pesquisa e a sua literatura.

Para escrever “Assim na Terra como Embaixo da Terra”, Maia conta que leu jornais do interior do Pará, Mato Grosso do Sul e outras regiões, além de depoimentos de juízes, carcereiros e polícias, ensaios universitários e relatos sobre morte no sistema prisional.

A pesquisa levou-a ainda a Franz Kafka, cuja novela “Na colónia penal” releu antes de escrever, e à estética dos ‘westerns’ de Sergio Leone, uma das suas paixões cinematográficas.

“Eu gosto muito de western”, explica com brilho nos olhos a autora, que levou para o romance uma atmosfera de homens empoeirados, armas à cintura, leis próprias e personagens obrigados a resolver os conflitos dentro daquele território.

O romance também atravessa a história da violência contra pessoas escravizadas e indígenas, tema que, segundo Ana Paula Maia, surgiu durante a própria construção da narrativa, quando a pesquisa a fez esbarrar nesses acontecimentos.

A escritora não considera, contudo, que esse seja um tema de toda a sua produção, mas uma questão específica deste romance, no qual o passado e o presente acabam por se encontrar.

É justamente dessa relação que nasce o título “Assim na Terra como Embaixo da Terra”, numa referência que toca a oração do Pai-Nosso (“assim na terra, como no céu”), mas que surgiu da própria narrativa.

A autora explica que aquilo que acontece na colónia penal no presente já havia acontecido naquele mesmo lugar cerca de um século e meio ou dois séculos antes, numa repetição histórica que liga o que está “na terra” ao que está “embaixo da terra”.

A violência, aliás, é um dos elementos centrais da visão da escritora, que a considera “inerente ao ser humano” e “latente”, capaz de aparecer em diferentes lugares e estratos sociais.

“Eu acho que a minha literatura é um terror social”, afirma, por considerar que o terror não está necessariamente em monstros ou acontecimentos sobrenaturais, mas na própria rotina e nas relações humanas.

Os homens ocupam um lugar privilegiado nesse universo: Maia diz que só escreve sobre personagens masculinos e que todos os seus protagonistas estão ligados a uma profissão.

São trabalhadores como polícias, bombeiros, lixeiros, coveiros, preparadores de corpos, taxidermistas e homens que recolhem animais mortos nas estradas, além de trabalhadores que abatem animais, quebram asfalto ou limpam caixas de esgoto.

“Geralmente a minha literatura está atrelada a profissões”, explica a autora, que demonstra interesse particular por trabalhos duros, insalubres e pouco visíveis.

Em “Assim na Terra como Embaixo da Terra”, um dos personagens centrais dessa temática do ofício é Melquíades, a autoridade máxima no local, que caça os presos e os trata com violência.

A autora diz que a sua literatura não procura fazer julgamentos de valor sobre os personagens ou as situações que retrata, mas colocar diferentes perspetivas dentro da mesma narrativa, permitindo que o leitor acompanhe o ponto de vista dos personagens.

“Eu acho que a minha história é mais de questionamento do que de entendimento”, afirma a escritora, que prefere reunir essas diferentes personagens no mesmo espaço e, a partir daí, construir a narrativa sem determinar ao leitor o que está certo ou errado.

A concisão também é uma marca dessa escrita, construída deliberadamente pela autora, depois dos primeiros livros, quando percebeu que a sua própria verbosidade a incomodava e passou a procurar textos mais económicos.

Apaixonada pela sétima arte, admite que o cinema pode ter contribuído para essa escolha, pela necessidade de conduzir uma narrativa diretamente ao ponto.

A oralidade familiar foi outra influência: Maia cresceu a ouvir histórias de adultos e relatos de roça, além de observar trabalhadores e vizinhos de uma realidade diferente daquela vivida dentro da sua própria casa.

“Por isso na minha casa tinha muita oralidade narrativa”, conta, relacionando essa convivência com as histórias que ouviu desde criança à sua ligação com a roça e à maneira como constrói narrativas.

O cinema e a televisão também foram fundamentais na formação da escritora, que desde cedo consumia filmes e fazia relações entre mundos próximos e distantes, alimentando o olhar que hoje leva para a ficção.

Aos cinco anos, começou a estudar ‘ballet’ e também teve aulas de piano, experiências que fizeram parte da educação recebida durante a infância e que mais tarde abandonou, embora tenha voltado ao piano já adulta.

Na adolescência, teve ainda uma banda de punk rock, na qual tocava bateria, mas rejeita a ideia de ser considerada musicista, definindo na entrevista aquela experiência como um breve “hobby do hobby do hobby”, descreveu rindo.

Foi com esse repertório de cinema, televisão, oralidade, música e observação do mundo que Ana Paula Maia construiu uma literatura que agora chega a Portugal.

“Eu acho que esse livro chega em Portugal num momento que eu acho na hora certa”, diz Ana Paula Maia, que nunca tinha publicado no país, salvo um conto numa antologia, há vários anos.

Para ela, o leitor português pode encontrar no romance “um outro braço” da literatura brasileira, diferente de caminhos já conhecidos e mais próximo dos “rincões” que alimentam a sua ficção.

Contente, a autora encara ainda com naturalidade o percurso internacional de uma obra publicada há nove anos, lembrando que “a literatura é atemporal” e que um livro pode encontrar o seu momento muito depois de ser escrito.

“Eu ainda fico feliz que eu estou conseguindo usufruir isso anos depois”, afirma a escritora multipremiada no Brasil ao lembrar que tem os seus livros publicados em vários países, incluindo Alemanha, Espanha, Estados Unidos, França e Itália.

Ana Paula Maia tem 48 anos, escreve há 23, e prepara atualmente o seu 10.º livro com vias também de ser publicado em Portugal, sem tirar de foco homens em espaços de confinamento e a concisão da escrita do horizonte da sua literatura.

“Gosto muito de um texto conciso e gosto de ler histórias concisas também. É uma coisa direta ao ponto”, observou.

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