Novo livro aborda história do vinho de talha no Baixo Alentejo

Novo livro aborda história do vinho de talha no Baixo Alentejo

O novo livro “O Vinho de Talha no Baixo Alentejo”, coordenado pelo historiador Manuel Baiôa, explora a história, cultura e saberes associados a esta tradição vitivinícola única do Alentejo.

© Shutterstock


17/10/2026
por

Lusa

vinho de talha

Uma ‘viagem’ pela história, cultura e saberes associados ao vinho de talha, uma das mais singulares tradições vitivinícolas que se mantém ‘viva’ no Baixo Alentejo, é a proposta do novo livro coordenado pelo historiador Manuel Baiôa.

 

A obra “O Vinho de Talha no Baixo Alentejo” constitui uma mostra “sobre o vinho, mas também sobre as comunidades que o produziram, os oleiros que fabricaram as talhas, as vinhas que moldaram a paisagem e as adegas e tabernas onde o vinho se tornou um elemento fundamental da sociabilidade alentejana”, indicou hoje Manuel Baiôa.

Em declarações à agência Lusa, o historiador e investigador explicou que o livro pretende demonstrar que “o vinho de talha tradicional alentejano não constitui uma reprodução inalterada do vinho romano, mas o resultado de uma longa construção histórica”.

Ao longo dos últimos 2.000 anos, desde os tempos romanos, esta tradição vitivinícola, que Manuel Baiôa disse existir apenas “em Portugal, Espanha, Arménia e Geórgia”, sofreu melhorias e evoluções, que fazem com que o vinho de talha moderno seja hoje “um vinho alentejano”.

“Herdou técnicas e recipientes de uma antiga tradição mediterrânica, que as comunidades alentejanas foram transformando ao longo de muitos séculos, adaptando-os às condições naturais, económicas e culturais do território”, elucidou.

A título de exemplo, o historiador e também professor do ensino secundário e da Universidade Politécnica de Beja disse à Lusa que as talhas romanas, ao contrário do que acontece no Alentejo, “eram semienterradas, mais pequenas e não tinham orifício de sangria”.

“E a curtimenta, que é a fase de contacto das peles e das grainhas com o líquido, é mais longa no vinho de talha alentejano”, acrescentou, referindo que o livro alude ainda a outras diferenças ao longo dos séculos.

A obra surge no âmbito do Baixo Alentejo – Cidade Europeia do Vinho 2026, sendo promovida pela Comunidade Intermunicipal do Baixo Alentejo (CIMBAL), associada ao projeto Patrimónios do Baixo Alentejo, cofinanciado pelo programa Alentejo2030.

A apresentação está marcada para as 18:00 do próximo dia 22, no Centro Interpretativo do Vinho de Talha, em Vila de Frades, no concelho de Vidigueira, distrito de Beja, indicou a CIMBAL.

Esta é a primeira edição, mas, ainda este mês, “vai sair uma segunda edição”, a cargo das Edições Colibri, para venda, revelou Manuel Baiôa, que é o coautor da obra, em parceria com João Pereira Santos, professor do ensino secundário, e o fotojornalista Ricardo Zambujo, do semanário Diário do Alentejo.

De acordo com o investigador, o leitor vai poder ‘folhear’ oito capítulos, ao longo de 192 páginas, que “percorrem a história da vinha e do vinho no Baixo Alentejo, desde os primeiros contactos mediterrânicos até à atualidade”, assim como “histórias de pessoas e lugares”.

“Desde os vestígios da produção vinícola romana, como os de São Cucufate, na Vidigueira, até aos últimos mestres oleiros que continuam a fabricar talhas”, ilustrou o coordenador.

Além disso, assinalou, traça a evolução desde “as antigas vinhas de sequeiro até às adegas familiares e tabernas onde, durante gerações, o vinho acompanhou o trabalho, a gastronomia, o cante e a convivência quotidiana”.

A obra resultou de “um trabalho exigente e multidisciplinar” desenvolvido “ao longo de vários anos”, assente em consultas “de bibliografia científica, fontes documentais e iconografias, estudos e relatórios arqueológicos e trabalhos especializados”.

Incorpora igualmente “entrevistas e contactos diretos com produtores de vinho de talha e oleiros, que partilharam os seus conhecimentos, experiências e saberes transmitidos ao longo de gerações”.

“Acredito que este livro pode contribuir para um melhor conhecimento e valorização do vinho de talha, mas também para uma maior consciência dos riscos que ameaçam a continuidade deste património”, realçou.

Doutorado em História Contemporânea pela Universidade de Évora, Manuel Baiôa é investigador do CIDEHUS – Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades daquela academia.

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