Protesto pela habitação ganha força e, este fim de semana, ao Porto juntou-se Lisboa. Manifestantes prometem acampadas até 31 de dezembro, caso não sejam apresentadas soluções, e já se admite a possibilidade de uma greve geral.
© Getty Images/FILIPE AMORIM / AFP
19/10/2026
por
Há cerca de uma semana, a Praça D. João I, no Porto, tornou-se num parque de campismo, onde centenas decidiram protestar contra a forma precária como vivem e veem o seu futuro.
A ação, que visava alertar para a impossibilidade de encontrar casas a preços acessíveis em Portugal, acabou por ficar marcada pelos avanços musculados da polícia contra os manifestantes, ‘incendiando’ assim os protestos, que chegaram a mais pontos do país.
Assim, este fim de semana, à manifestação do Porto, juntou-se também a cidade de Lisboa. Convocado sob o lema “Não dá mais? Então monta a tua tenda!”, o protesto pela habitação surgiu também após a manifestação organizada pela CGTP por aumentos salariais e contra a subida do custo de vida.
Milhares de pessoas participaram nas acampadas pela habitação em Lisboa e Porto e a promessa é de não ficarem por aqui. Até 31 de dezembro os manifestantes querem ver medidas concretas e prometem não ‘baixar as tendas’ até lá.
Acampadas até 31 de dezembro
O movimento pela habitação no Porto prolongou o pré-aviso de manifestação até 31 de dezembro. A porta-voz do grupo, Maria João Calisto, explicou que o objetivo não é ficar a dormir na rua até lá, mas conseguir soluções e um entendimento.
“É muito duro estar aqui, é muito duro dormir aqui, as pessoas não decidiram vir para a praça porque não têm nada que fazer na vida, é exatamente o inverso, é por estarmos tão preocupados com o que fazer da vida que nos mobilizamos e fazemos um esforço hercúleo para estar aqui”, afirmou, detalhando que fizeram um pré-aviso para ficarmos aqui de 21 de outubro [quarta-feira] a 31 de dezembro de 2026. O nosso objetivo não é ficar até 31 de dezembro é conseguir soluções e um entendimento”, disse acrescentando que “é muito mal sinal se tivermos de ficar aqui” até ao final do ano.
Manifestantes querem encontro com Pedro Duarte
Esta não foi a única decisão do grupo. Em mais uma tentativa de solucionar os problemas, ficou decidido, igualmente, convidar formalmente o presidente da câmara do Porto, Pedro Duarte, para vir falar com os manifestantes à praça.
“Vamos enviar um e-mail com o convite formal, portanto, esperamos que seja aceite e que se possa deslocar-se aqui até porque está mesmo aqui ao lado”, frisou.
Recorde-se que Pedro Duarte, na passada semana, disse que tem as portas da autarquia “sempre abertas”.
“Na quinta-feira, o meu gabinete contactou os organizadores [da manifestação] no sentido de podermos promover uma reunião para podermos dialogar sobre o problema da habitação e o convite mantém-se”, afirmou o autarca.
Lisboa também não arreda pé
Também em Lisboa, pelas 00h30 de hoje, continuavam a pernoitar na Praça do Rossio centenas de pessoas, e dali prometiam não sair, pese embora o apelo da polícia para a desmobilização.
Vamos ter de atuar, pode não ser hoje”, afirmou o oficial aos organizadores da acampada, que argumentaram no sentido de que fosse respeitado o “direito democrático” de cada manifestante a estar no espaço público.
Segundo Silva Resende, “o direito de manifestação foi assegurado” e “será sempre assegurado”, mas “a ocupação do espaço público tem regras” e “o acampamento não pode continuar”.
O movimento da acampada em Lisboa quer continuar a lutar contra a crise da habitação e fazer cair a nova lei do arrendamento, por aumentar a precarização de inquilinos e dificultar a vida dos jovens à procura de casa.
Greve Geral à vista?
Entre os manifestantes, fala-se ainda na possibilidade de uma greve geral, à semelhança das que ditaram o abandono do pacote laboral.
João Veloso, coorganizador da acampada, considerou “muito importante esse apelo às centrais sindicais para combater a crise da habitação” e “o custo de vida”.
“O que nos move é nós vermos que trabalhamos e que chegamos ao final do mês a zeros ou a negativo, não é? E isso tem coimo base, um, salários baixos, dois, custos de habitação altíssimos. Então, tudo sso é uma base já bastante sólida do nosso movimento”, explicou.
Luta contra Lei das rendas não dará descanso ao Governo
A acampada da habitação exige, entre outras, o fim da reforma da lei das rendas, aprovada na especialidade pelos partidos de Direita, mais parque habitacional público ou o fim dos despejos para quem não tem outra opção.
Entre os principais visados do protesto está o primeiro-ministro Luís Montenegro – que, recorde-se, pediu na semana passada aos manifestantes do Porto que não fossem “egoístas” – cujo nome surge inscrito em muitos dos cartazes. “Luís, egoísmo é roubarem o nosso futuro” ou “Se não há justiça para o povo, não haverá paz para o Governo” são algumas das promessas dos manifestantes que garantem: “só iremos sair se as nossas reivindicações forem atendidas”.

