A escritora franco-marroquina Leila Slimani admitiu que é difícil sentir orgulho em ser árabe num mundo marcado por pobreza, ditaduras, corrupção e a ascensão do fundamentalismo islâmico.
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17/10/2026
por
Lusa
Leila Slimani
A escritora franco-marroquina Leila Slimani admitiu hoje, no Folio, que é difícil alguém sentir orgulho em ser árabe num mundo marcado por pobreza, ditaduras, corrupção e a ascensão do fundamentalismo islâmico.
“Há 20, 30 ou 40 anos que é muito difícil sentir orgulho de ser árabe, magrebino ou qualquer outra coisa, porque vivemos num mundo marcado por ditaduras, pobreza, corrupção e a ascensão do islamismo”, afirmou Leila Slimani numa mesa do Folio – Festival Literário Internacional de Óbidos, onde debateu o tema “Real”.
“O olhar que se dirige para nós, para a nossa civilização, é, muitas vezes, um olhar cruel e muito desdenhoso, e os nossos próprios dirigentes também contribuíram para a degradação da nossa civilização”, afirmou a autora, que recebeu o Prémio Simone de Beauvoir para a Liberdade das Mulheres pelo seu ativismo em defesa dos direitos humanos e pela liderança de uma campanha para ajudar as mulheres marroquinas a reclamar os seus direitos e a manifestarem-se contra leis obsoletas no país.
A escritora, que rumou a França aos 17 anos e que desde há cinco vive em Portugal, partilhou com o público do Folio a convicção de que, quer para a sua geração, quer para as gerações mais jovens, “é difícil construir uma identidade de mulher árabe e muçulmana que seja uma identidade serena”, em que as mulheres se possam sentir bem neste mundo, ter a sensação de contribuir com algo e onde possam sentir e ser olhadas com respeito.
A autora de “Assalto à Fronteira” partilhou com a indiana Kiran Desai (residente nos Estados Unidos) uma conversa em que falaram das diferenças operadas, nas duas ultimas décadas, quer nos seus países de origem quer nos que escolheram para viver.
Pelas mesas do folio, que decorre sob o lema “Para além da pele”, passaram também reflexões sobre a disputa das presidenciais no Brasil.
Numa mesa em que tinha sido desafiada a falar de “Família”, a escritora brasileira Vera Iaconelli aludiu à família mais lata que, no Brasil, aguarda com expectativa os resultados das eleições presidenciais a que concorre o filho do antigo presidente Jair Bolsonaro.
“A gente não chama eles de família, é familícia”, afirmou a autora, entre outros, de Análise — Notas do divã (o seu único livro publicado em Portugal), considerando pai e filho [ Jair e Flávio Bolsonaro] “uma família que pensa um estado diminuto, uma família que pensa em reinado”, seguindo “o modelo de [Donald] Trump”.
No entender da escritora, Flávio Bolsonaro candidata-se a presidente mas “quer ser rei”, com os votos dos apoiantes e de uma elite que “pensa que quando a ‘milícia’ chegar ao poder vai ser agraciada com alguma benesse”.
Mas, alertou, “o rei não tem amigos, tem inimigos e aliados de ocasião” e, se Flávio Bolsonaro for eleito, no dia 25, “fica paranoico, como todo grande ditador, e vai matando todo mundo que está em volta e que discorda”.
E o problema, vincou, “não é só do Brasil, é de toda a América Latina”.
O Folio – Festival Literário de Óbidos decorre desde o dia 08 e fecha portas no domingo, encerrando um programa de 11 dias que trouxe à vila o Nobel da literatura Jon Fosse, entre 450 autores que participam em cerca de 300 iniciativas.

