El Niño deverá agravar necessidades humanitárias na África Austral

El Niño deverá agravar necessidades humanitárias na África Austral

Um El Niño de grande intensidade, com início previsto este ano e a prolongar-se aos primeiros meses de 2027, deverá agravar a insegurança alimentar e outras necessidades humanitárias na África Austral, alertaram as Nações Unidas.

© Reuters


15/10/2026
por

Lusa

Um El Niño de grande intensidade, com início previsto este ano e a prolongar-se aos primeiros meses de 2027, deverá agravar a insegurança alimentar e outras necessidades humanitárias na África Austral, alertaram as Nações Unidas.

 

No mais recente panorama sobre as necessidades humanitárias na região, divulgado esta semana, o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação dos Assuntos Humanitários (OCHA) revela dados sobre surtos de doenças, insegurança alimentar e malnutrição, deslocados e outras condições nessa região de África, que inclui Angola e Moçambique, advertindo que a situação deverá agravar-se durante a época das chuvas, entre outubro de 2026 e março de 2027.

A OCHA revela que Angola concentra mais de metade dos casos de sarampo e Moçambique lidera os casos de cólera na África Austral.

Angola registou 7,4 mil casos de sarampo entre janeiro e agosto, num total regional de 13,8 mil, à frente da África do Sul, com 6,5 mil.

Seguem-se Madagáscar, com 5,7 mil casos, e Moçambique, com 1,6 mil.

Moçambique, com 8,2 mil casos, tem o valor mais elevado de cólera na região da África Austral, onde o total é de mais de 19 mil casos desde o início do ano.

Angola enfrenta também um surto ativo de cólera, com 6,1 mil casos entre janeiro e setembro, e o OCHA indica que a transmissão se manteve ativa em vários países, incluindo os dois lusófonos.

O Malaui contabilizou 3,2 mil casos, a Zâmbia, 1,2 mil casos, a Namíbia 213, a Tanzânia 113, o Zimbabué 36 e a África do Sul dois.

“Os surtos de doenças continuaram a pressionar sistemas de saúde já frágeis”, sublinha o documento, que contabiliza ainda mais de 4,1 mil casos de mpox entre janeiro e agosto, a maioria dos quais em Madagáscar, com 3,5 mil.

Angola e Moçambique estão também entre os países com crianças em situação de desnutrição aguda, a par de Madagáscar, numa região onde mais de 680 mil crianças entre os 6 e os 59 meses sofrem deste problema, segundo as estimativas do relatório.

Moçambique soma a estes problemas a crise de deslocados, com 662 mil deslocados internos, sobretudo no norte do país, num total de 843 mil pessoas deslocadas dentro dos próprios países na África Austral.

Na região, o conflito continuou a ser um dos principais motores das deslocações, bem como os choques climáticos recorrentes, incluindo secas, cheias e ciclones, segundo o OCHA.

Moçambique está também entre os três países, a par de Madagáscar e do Malaui, onde a insegurança alimentar persistiu, devido a “choques climáticos recorrentes ou insegurança localizada”, que “continuaram a destruir os meios de subsistência e a resiliência”.

Madagáscar tem o maior número de pessoas em insegurança alimentar grave, com 2,1 milhões, seguido do Malaui, com 1,9 milhões, de Moçambique, com 1,2 milhões, da Zâmbia, com 697 mil, da Tanzânia, com 507 mil, da Namíbia, com 408 mil, do Lesoto, com 234 mil, e de Essuatíni, com 222 mil.

Em toda a região, o número de pessoas em insegurança alimentar grave caiu para mais de 6,1 milhões, face a 13,3 milhões em julho, graças às colheitas sazonais e à melhoria das chuvas.

No entanto, as Nações Unidas advertem que a situação deverá agravar-se durante a época das chuvas, entre outubro de 2026 e março de 2027, com a previsão de “chuvas abaixo da média e calor extremo” a poder afetar a produção agrícola.

Na origem está um El Niño “muito forte”, com início no final de 2026 e que deverá prolongar-se até ao início de 2027, trazendo chuvas abaixo do normal e temperaturas acima da média em toda a região, bem como uma atividade ciclónica abaixo do normal.

O El Niño é um fenómeno climático associado ao aquecimento anormal das águas superficiais do oceano Pacífico central e oriental, que altera os padrões de chuva e de temperatura em várias regiões do mundo.

Estas condições “podem provocar deslocações, reduzir a produção agrícola e aumentar o risco de surtos de doenças”, alerta o OCHA.

Quatro países da África Austral têm já ações de antecipação ativadas para enfrentar os impactos do fenómeno e outros três estão prontos para as ativar.

Madagáscar, o Malaui e a Tanzânia estão entre os países com planos de preparação para o El Niño, mas “lacunas significativas de financiamento ameaçam a sua aplicação atempada”, refere a OCHA.

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