Um sismo de magnitude 5,1 atingiu várias ilhas do arquipélago dos Açores na terça-feira, 20 de outubro. Foi um dos maiores tremores de terra na região “nos últimos anos”. O que é que isso representa? Uma especialista explicou tudo ao Notícias ao Minuto.
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22/10/2026
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Eram 18h07 de terça-feira, 20 de outubro, quando a terra tremeu nos Açores. São Miguel foi a ilha mais atingida, mas o sismo de magnitude 5,1 na escala de Ritcher abalou também a ilha de Santa Maria e Terceira.
Apesar de não ter provocado vítimas nem danos de maior, a intensidade do sismo e o facto de terem sido registadas perto de uma centena de réplicas tem levantado algumas preocupações.
Perante isso, o Notícias ao Minuto falou com Rita Carmo, investigadora e membro da direção do CIVISA, a entidade responsável pela informação e vigilância sismovulcânica dos Açores, para esclarecer algumas questões.
A especialista em vulcanologia começou por confirmar que este “foi um dos sismos de maior magnitude registados na região nos últimos anos e, por isso, um evento relevante do ponto de vista sismológico”.
“Uma magnitude de 5,1 corresponde a um sismo de magnitude moderada, mas com capacidade para ser fortemente sentido pela população e, dependendo da localização, da profundidade, das condições geológicas e das características dos edifícios, causar danos”, explicou, lembrando que “importa, contudo, distinguir a magnitude, que caracteriza a dimensão do sismo, da intensidade, que descreve os efeitos sentidos num determinado local”.
“Neste caso, o Centro de Informação e Vigilância Sismivulcânica dos Açores (CIVISA) estimou uma intensidade máxima de V/VI na escala de Mercalli Modificada, no concelho de Ponta Delgada”, recordou ainda.
“Os Açores encontram-se numa zona geodinamicamente complexa”
Segundo Rita Carmo, “o sismo, com epicentro a cerca de 39 km a oeste de Ginetes, na ilha de São Miguel, teve origem tectónica e o epicentro localizou-se no mar, na região da Fossa Hirondelle, a oeste de São Miguel”.
“A região dos Açores encontra-se numa zona geodinamicamente complexa, designada por Junção Tripla dos Açores, associada à interação entre placas litosféricas, através de sistemas de fraturas tectónicas. A libertação súbita de energia acumulada nestas estruturas pode provocar sismos desta natureza”, precisou.
Já a Fossa Hirondelle “corresponde a uma bacia submarina, cuja configuração é controlada por estruturas tectónicas. O sismo localizou-se na falha que delimita a bacia a sul”.
A atividade sísmica nesta região é conhecida dos investigadores e autoridades e “objeto de monitorização e estudo, nomeadamente através da rede sísmica e do trabalho desenvolvido pelas entidades científicas competentes”.
Porém, notou a também geóloga do Instituto de Investigação em Vulcanologia e Avaliação de Riscos (IVAR), “o facto de a região ser conhecida e monitorizada não significa, que seja possível prever quando ocorrerá um sismo, qual será a sua magnitude ou como evoluirá uma sequência sísmica”.
Porque sismo foi tão sentido? “Há vários fatores”
Sobre os “vários” factores que ajudam a explicar a forma como o sismo foi sentido, Rita Carmo enumerou: “em primeiro lugar, a magnitude de 5,1 indica que foi libertada uma quantidade significativa de energia. Em segundo lugar, o epicentro localizou-se relativamente perto da ilha de São Miguel, a cerca de 39 km a oeste de Ginetes”.
“Para além da magnitude e da localização do epicentro, a profundidade do sismo, as condições geológicas locais e as características dos edifícios são igualmente determinantes na forma como a vibração é sentida e nos seus eventuais efeitos à superfície“, registou a investigadora, acrescentando que “a energia sísmica propaga-se através das rochas em todas as direções, podendo ser sentida a distâncias consideráveis”.
Foi isso que aconteceu neste caso: o sismo foi sentido em São Miguel e nas ilhas Terceira e Santa Maria, embora com intensidades diferentes. A intensidade máxima de V/VI foi registada no concelho de Ponta Delgada, tendo o sismo sido sentido nos restantes concelhos de São Miguel com menor intensidade. Na Terceira, a intensidade foi de IV, enquanto que em Vila do Porto, em Santa Maria, foi de III.
“Estas diferenças de intensidade resultam, entre outros fatores, da distância ao epicentro, da propagação das ondas sísmicas e das características geológicas dos locais. À medida que as ondas sísmicas se propagam, a energia vai-se atenuando, embora as condições locais possam influenciar a intensidade dos efeitos sentidos, esclareceu Rita Carmo.
Quase uma centena de réplicas? “Redistribuição de tensões”
Quanto às cerca de uma centena de réplicas que tiveram lugar na região após o sismo de 5,1, a geóloga realçou que “após um sismo de magnitude significativa, é comum ocorrerem outros sismos de menor magnitude na mesma região”.
“O sismo principal provoca uma alteração no estado de tensão das rochas e nas condições de equilíbrio das estruturas tectónicas envolvidas. Esta redistribuição de tensões pode desencadear novos movimentos não só na estrutura onde ocorreu o sismo principal, mas também noutras falhas próximas, que procuram reajustar-se às novas condições de equilíbrio. Estes movimentos libertam energia sob a forma de novos sismos, designados por réplicas”, clarificou.
A especialista relembrou que a maioria das réplicas registadas desde a tarde de terça-feira foram “de baixa magnitude”, apesar de algumas, “com magnitudes superiores a 3, foram também sentidas pela população”.
A evolução da situação aponta, contudo, para uma “tendência de diminuição da atividade, embora a sequência ainda possa continuar e possam ocorrer novos sismos sentidos pela população”.
“Número de réplicas não significa que perigosidade esteja a aumentar”
De acordo com Rita Carmo, “o número de réplicas, por si só, não significa necessariamente que a perigosidade esteja a aumentar”. Para avaliar a evolução da situação, é necessário analisar vários parâmetros em conjunto, nomeadamente “a frequência dos eventos e a sua evolução ao longo do tempo, a magnitude das réplicas e a eventual ocorrência de sismos de maior magnitude, a distribuição espacial dos epicentros e a profundidade dos eventos, bem como eventuais alterações no padrão da atividade sísmica”.
Quanto à questão de saber se o número de réplicas está dentro do esperado, a investigadora esclareceu que “não existe um número fixo de réplicas esperado para um sismo de determinada magnitude. O número e a duração da sequência variam de caso para caso. É frequente ocorrerem muitas réplicas nas primeiras horas e dias, seguindo-se, geralmente, uma diminuição progressiva da sua frequência”.
“A tendência atual aponta para uma diminuição e estabilização da atividade, mas isso não permite garantir que não ocorram novas réplicas sentidas pela população ou, eventualmente, um sismo de maior magnitude. A mensagem deve, por isso, ser de serenidade, sem desvalorizar o fenómeno. O CIVISA continua a monitorizar a situação, sendo importante que a população se mantenha informada através dos canais oficiais e cumpra as recomendações de autoproteção“, concluiu.

