O historiador Simon Sebag Montefiore afirma que os ataques do Hamas em 07 de Outubro foram “uma das operações árabes mais bem-sucedidas em mil anos”, mas também destacou o potencial de guerra global e a oportunidade de redefinir o Médio Oriente.
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06/11/2026
por
Lusa
O 07 de Outubro foi “uma das operações árabes mais bem-sucedidas em mil anos” e um desastre com potencial de guerra global, segundo o historiador Simon Sebag Montefiore, que, em alternativa, também vê “uma oportunidade” para o Médio Oriente.
O autor britânico ‘best seller’ de 61 anos, que já escreveu sobre a dinastia Romanov, Estaline ou a biografia de Jerusalém, esteve em Lisboa esta semana para o lançamento da sua nova obra “O Caldeirão – A formação do atual Médio Oriente, 1900-2026”.
O livro (editado pela Planeta) parte do fim do império otomano e divisão do território pelas potências europeias até aos acontecimentos mais contemporâneos, incluindo os ataques liderados pelo grupo islamita palestiniano Hamas, em 07 de outubro de 2023 em Israel, que incendiaram a região.
“É uma espécie de guia de como chegámos até agora”, resume o historiador formado pela Universidade de Cambridge e traduzido em 48 línguas, em entrevista à agência Lusa, a propósito de um livro que sempre quis ler mas não encontrava, sobre um Médio Oriente alargado, “que fala tanto da Turquia como do Irão, do Sudão e de Israel, e assim por diante”.
Ao longo das quase 500 páginas da sua nova obra, Simon Sebag Montefiore fixa-se em acontecimentos bastante atuais, como os ataques do 07 de Outubro, que define como “uma das operações militares árabes mais bem-sucedidas dos últimos mil anos”.
A ação das milícias da Faixa de Gaza foi concebida “para reavivar e mobilizar a resistência palestiniana”, bem como inspirar o apoio à sua causa no Ocidente, e ainda minar os Acordos de Abraão, sobre normalização do mundo árabe com Israel – “e isso resultou”, analisa três anos depois.
Ao mesmo tempo, “revelou-se incrivelmente contraproducente e desastroso para dezenas de milhares de palestinianos”, que foram mortos na ofensiva israelita que se seguiu no território.
“Tem sido igualmente desastroso para Israel”, observa, ao assinalar um país “traumatizado e brutalizado” pelos ataques do Hamas, adicionando ainda que os acontecimentos daquela manhã de 2023 levaram iranianos e israelitas a “um conflito bélico direto e não seria isso que o Irão pretendia, porque colocou todo o regime em risco”.
Nesse sentido, foi ainda um ponto de partida para que “os Estados Unidos se envolvessem” e uma “ameaça que mina o paradigma de todos os Estados árabes do Golfo, que eram os mais bem-sucedidos da região”.
Chegado a este ponto, o “caldeirão” pode tornar-se numa “ignição para uma guerra global”, face ao “perigo real” de que todos os conflitos que atravessam a região se possam unir em algo “mais vasto e mais profundo” e que ultrapassa o próprio Médio Oriente.
O historiador aponta a existência de intervenientes menos habituais como paquistaneses e até ucranianos na Arábia, gregos, turcos e indianos, e a eclosão de “uma guerra muito violenta e multifacetada” na África Oriental. E isso significa que “estas regiões estão agora ligadas de uma forma que não estavam anteriormente ao Médio Oriente”, que, por sua vez e em resultado deste envolvimento, “ficou maior”.
Este potencial “desastroso” que emergiu do 07 de Outubro, convive em paralelo e em oposição com “a oportunidade de redefinir a região de uma forma que talvez nem sequer se consiga imaginar neste momento”, destaca.
Em concreto, elenca o sul da Europa e da Ásia e o continente africano como eventuais novos intervenientes e “outras possibilidades e combinações” que tragam “um fator de estabilização e algo construtivo”.
Montefiore considera que a guerra na Ucrânia, desencadeada pela invasão russa em fevereiro de 2022, e o 07 de Outubro no Médio Oriente são momentos redefinidores e “dois lados da mesma moeda, como tentativas de minar o que estava estabelecido após a Segunda Guerra Mundial e que durou 50 ou 60 anos”.
Como consequência dos acontecimentos recentes no Médio Oriente, “os Estados Unidos terão muita dificuldade em desengajar-se” da região, quando chegam “notícias importantes” de Washington, após as eleições intercalares para o Congresso, que deram a vitória à oposição democrata ao líder da Casa Branca, Donald Trump.
“Mas é absolutamente necessário que os Estados Unidos estejam no Médio Oriente, uns Estados Unidos moderados, o que obviamente, sob a liderança muito imprevisível de Donald Trump, não é o caso”, comenta.
As legislativas em Israel de 27 de outubro colocaram por seu lado o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, perante a possibilidade real de ser afastado, à medida que a oposição procura constituir uma alternativa de poder.
Se Trump e Netanyahu saíram da equação, desaparecem também duas personalidades “extremamente importantes” para o Médio Oriente, na medida em que se trata de uma região que funciona na base do “poder” e até de dimensões pessoais.
“Isto faz uma enorme diferença porque nos últimos dois anos tivemos o Presidente mais poderoso da história dos Estados Unidos, pelo menos em período de paz”, afirma.
As intercalares norte-americanas realizadas na terça-feira trouxeram um novo cenário, em que “a democracia voltou a afirmar-se”, e isso será também “motivo de encorajamento para toda a gente no Médio Oriente, mesmo que Trump continue “com o dedo no gatilho”.
Mas a longo prazo e na perspetiva de um historiador, que não olha “em termos de acontecimentos exatos ou minuto a minuto”, ficou-se a saber que “a democracia americana não estava tão ferida como se pensava”.
De volta ao “Caldeirão”, Simon Sebag Montefiore vê “uma região em expansão, com muitas componentes e facetas em constante mudança”, e insiste que tanto podem evoluir para um “grande perigo” ou para “uma excelente oportunidade” de reconfigurar a região.
“Obviamente, isso implica algum tipo de processo que envolva os palestinianos, implica também impedir o Irão de se tornar uma potência nuclear e travar a política neoimperialista iraniana de promoção de resistência radical em toda a região”, sustenta.
No entanto, alerta que ambas as situações “são extremamente difíceis, e seria infantil acreditar que possa haver uma solução fácil para qualquer uma delas”.
Mas a política “tem a ver com o que é possível, e os dois processos poderiam acalmar a situação no Médio Oriente”, prossegue.
O autor coloca a solução de dois Estados, com Israel e a Palestina lado a lado, como um tema central e “única resposta”, embora não use essa expressão nos seus escritos.
“Parte do problema reside no que é um Estado no século XXI e o que é uma solução, e ambos os conceitos precisam de ser reanalisados para perceber o que significam”, adverte.
Em qualquer circunstância, identifica-se como “defensor da autodeterminação para os palestinianos e da autodeterminação para os israelitas” e de uma entidade que represente ambos os povos.

