Ana Cabecinha foi abandonada por patrocinadores durante as gravidezes, com a ex-marchadora a lamentar que as desportistas em Portugal ainda tenham de escolher entre a carreira e a maternidade, pela qual continuam a ser discriminadas.
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11/10/2026
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Lusa
Ana Cabecinha foi abandonada por patrocinadores durante as gravidezes, com a ex-marchadora a lamentar que as desportistas em Portugal ainda tenham de escolher entre a carreira e a maternidade, pela qual continuam a ser discriminadas.
Apesar de tentar manter-se afastada de “confusões”, a cinco vezes olímpica não conseguiu ficar indiferente ao caso de Cátia Azevedo, dispensada pelo Sporting meses depois de ter sido mãe.
“A mim passou-me igual, por duas vezes. A primeira foi em 2021, quando engravidei, mas infelizmente perdi o bebé ao fim de três meses. […] Assim que soube que estava grávida, comuniquei […], e claro que houve patrocinadores que disseram que, sabendo desta situação, não me iriam apoiar, porque eu iria estar parada e não iria dar visibilidade às marcas. E afastaram-se”, revelou, em entrevista à agência Lusa.
Quando souberam da sua perda, voltaram a contactá-la, com Cabecinha a aceitar o regresso dos patrocinadores, em “desacordo” com o marido e o treinador, que achavam que não deveria aceitar.
“Mas eu precisava, porque queria manter a minha carreira e precisava desses patrocínios”, justifica a porta-estandarte da Missão portuguesa na Cerimónia de Abertura de Paris2024, preferindo não revelar os nomes dos mesmos, mas indicando que são marcas desportivas.
A história repetiu-se em 2024, quando, só depois de “muitos meses”, comunicou que estava novamente grávida.
“Voltei a perdê-los. E quando se anunciou que iria ser a porta-estandarte, mandam-me um e-mail [a dizer] que teriam todo o gosto em que eu continuasse nos Jogos com a marca. E eu, por acaso, nem disse que sim, nem que não. Eles mandaram o material, mas eu não fiz a prova [olímpica] com ele. Nesse ano em que estava grávida, em que treinei o ano inteiro para poder estar nos Jogos, eles abandonaram-me”, vincou.
Felizmente, nota a três vezes diplomada olímpica, o seu clube nunca a abandonou e o “município de Olhão honrou o contrato até ao fim”, tendo contado ainda com o apoio incondicional do Comité Olímpico de Portugal, nomeadamente do então presidente José Manuel Constantino, e da Federação Portuguesa de Atletismo, que fizeram com que nada faltasse na sua preparação para Paris2024.
“O nosso trabalho é sermos atletas profissionais, porque não dá para conciliar as duas coisas. Se estamos a ser mães, atletas e depois perdemos esse apoio por trás, a gente agarra-se aonde? Porque só viver do atletismo, da bolsa de atleta, é complicado. Nós precisamos do apoio do clube, do apoio dos patrocinadores, e se nos começam a deixar, fica muito complicado, depois, exigirem resultados”, defendeu.
De acordo com a antiga marchadora, esta ‘deserção’ de apoios não acontece noutros países.
“Em Portugal, temos de escolher: ou vamos ser mães ou a nossa carreira prolonga-se mais anos. Foi o que me aconteceu a mim, que prolonguei demasiado. Perdi um bebé, quis continuar, e depois, quando fui mãe, já fui mãe tarde, já foi com uma gravidez muito complicada. E já não penso em ter mais”, contou.
Para Cabecinha, é triste que as desportistas que querem ser mães continuem a ser discriminadas, evocando os exemplos de atletas como Sara Moreira, Dulce Félix e Jéssica Augusto, as pioneiras que há uma década demonstraram que se pode “voltar muito melhor” e que não foram abandonadas nem por clubes nem por patrocinadores.
“Tinha de haver uma lei para nos salvaguardar, a nós, mulheres atletas, de todos os desportos. Porque, se não, continuamos a ter que abdicar, e continuamos a ter que adiar o nosso sonho da maternidade para cada vez mais tarde, quando não devia ser permitido. Estamos a impedir que a mulher tenha o sonho de ser mãe mais cedo, para poder continuar, porque pesa muito em manter a carreira”, lamentou.
Hoje, arrepende-se “bastante de não ter sido mãe mais cedo”, nomeadamente de não ter ouvido o marido em 2016, quando este lhe sugeriu que fizesse uma paragem na carreira para serem pais.
“Como tinha sido sexta nos Jogos [Rio2016], estava naquela euforia de querer lutar para ganhar uma medalha em Tóquio[2020], e as minhas baterias estavam para aí. Ele compreendeu, ficou do meu lado, como é óbvio, e adiámos. Foi a primeira vez em que falámos em maternidade, e eu não sabia, e o meu medo era tanto de não conseguir voltar…”, assume, lamentando que o seu pai nunca tenha concretizado o sonho de conhecer o neto.
Cabecinha congratula-se por ter ultrapassado todas as adversidades para chegar a Paris2024, onde concluiu o seu percurso olímpico com o filho Lourenço como espetador.
“Foi muito bonito. Foi a melhor forma de acabar. Podia ter continuado, porque o clube, o município diziam para eu fazer mais quatro anos, mas eu acho que não valia a pena, porque eu queria ver o meu filho crescer. Não queria adiar e ver o meu filho crescer com estágios e com viagens e, então, foi melhor assim, foi a melhor decisão”, garantiu.

