O julgamento do extremista francês Othman Garrido, acusado de homicídios cometidos em ações do grupo terrorista Estado Islâmico (EI) no Iraque e na Síria, começou hoje num tribunal especial de Paris.
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14/09/2026
por
Lusa
De bigode e barba preta aparada, vestindo uma camisola branca, Othman Garrido, 32 anos, é acusado de ter participado na execução pública de dois iranianos na Síria, em 2015, e de ter decapitado uma terceira vítima em local e data indeterminados, podendo ser condenado a prisão perpétua.
O julgamento, previsto para durar até 21 de setembro, deverá reacender as memórias dos anos de terror impostos pelo EI na década de 2010 em vastas áreas da Síria e do Iraque.
Tal como cerca de 1.500 franceses, Othman Garrido, natural de Montpellier, viajou para as zonas controladas pelo antigo “califado” do EI.
Combateu no local antes de ser preso e expulso pela Turquia para França, em 2020. O pai, um franco-espanhol convertido ao Islão, morreu como bombista suicida em 2016, e os dois irmãos foram mortos em combate.
Garrido terá de prestar esclarecimentos sobre fotos encontradas no telemóvel, que terá pertencido à mulher, com quem casou, nas zonas controladas pelo EI, e teve dois filhos.
Principais elementos de acusação, estas imagens foram entregues num disco rígido aos investigadores franceses pelos norte-americanos, que lideravam a coligação internacional responsável por derrotar o EI em 2019.
Uma delas mostra um homem com o rosto parcialmente coberto por um lenço, diante de um cadáver decapitado e com a cabeça da vítima aos pés. O homem aponta o dedo indicador para o céu, em sinal de lealdade ao EI, e tem as mãos sujas de sangue, podendo, por isso, ser considerado o autor do homicídio, de acordo com a investigação.
Othman Garrido admitiu haver semelhança, mas sempre negou ser o suposto algoz da foto, chegando a referir a possibilidade de se tratar de um dos irmãos.
A foto não tem data nem geolocalização, a identidade da vítima permanece desconhecida e os especialistas não conseguiram identificar formalmente o homem encapuzado.
Outra parte do processo trata do homicídio de dois iranianos [durante a guerra civil síria, o Irão apoiava o regime de Bashar al-Assad], executados em praça pública em 2015 em Al-Qaryatayn, no centro da Síria, pelo EI.
Várias fotos extraídas do mesmo telefone mostram um grupo de extremistas a posar em redor dos cadáveres, com as cabeças decepadas colocadas sobre os corpos.
Othman Garrido surge sorridente nas imagens, segurando pelos ombros os dois algozes, dois extremistas franceses, Yacine Rettoun e Oumar Diaw, presumivelmente mortos.
Há também fotos de Garrido numa carrinha que levava os iranianos para o local da execução. Admitiu ter presenciado o ato.
Nascido numa família imersa na ideologia extremista, Othman Garrido teve uma infância marcada pela radicalização religiosa e deixou a escola aos 12 anos para trabalhar em feiras com o pai.
Tendo partido por vontade própria para a Síria aos 18 anos, em 2012, integrou a Frente al-Nusra, braço sírio da rede terrorista Al-Qaida, e, mais tarde, o EI, depois da rutura entre os dois grupos.
Condenado em 2017, num processo separado, a 15 anos de reclusão por ter ingressado no EI, participado em combates e incitado muçulmanos em França a cometerem atos violentos, Othman Garrido, que se encontrava na Síria na altura desse julgamento, deverá ser novamente julgado, agora com a sua presença, em relação a este caso a 22 de setembro.

