Maria João Heitor, médica psiquiatra e Professora na Faculdade de Medicina da Universidade Católica Portuguesa, analisa a relação entre férias e saúde mental.
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08/08/2026
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Notícias ao Minuto
Todos os anos repetimos o mesmo ritual: contamos os dias para as férias, imaginamos o mar e o silêncio, ou o campo e a brisa, e sonhamos com um corpo finalmente capaz de abrandar. No entanto, não é raro regressarmos mais cansados do que partimos – ou até adoecermos quando desligamos o computador. Como psiquiatra, observo por vezes este aparente paradoxo. A ciência ajuda-nos a compreendê-lo.
O corpo também precisa de aprender a descansar
Existe um fenómeno conhecido como “doença do lazer”, descrito por investigadores holandeses em 2002, que procura explicar porque algumas pessoas desenvolvem enxaquecas, infeções respiratórias ligeiras ou um mal-estar inespecífico logo no início das férias. Embora os mecanismos biológicos subjacentes permaneçam pouco esclarecidos, admite-se que a interrupção súbita de um período prolongado de elevada exigência possa alterar temporariamente a regulação do sistema nervoso, do eixo hipotálamo-hipófise-suprarrenal e da resposta imunitária.
Segundo múltiplos autores, as férias são, em geral, benéficas para a saúde mental. Não é o descanso que faz adoecer. É, provavelmente, um organismo que esteve demasiado tempo em “modo de sobrevivência” e necessita de reencontrar o equilíbrio.
Eustress e distress: duas faces do stress
Nem todo o stress é prejudicial. O eustress corresponde à energia positiva de planear uma viagem, descobrir um lugar novo ou aprender algo diferente. Pode aumentar a motivação, a criatividade e o bem-estar.
O problema surge quando predomina o distress definido como um “stress negativo” e como um estado de sofrimento psicológico, associado por exemplo a voos cancelados que comprometem as férias, conflitos familiares, excesso de atividades, culpa por “não estar a ser produtivo” ou a incapacidade de desligar das exigências profissionais ou escolares. Nestes casos, as férias transformam-se apenas numa mudança de cenário, mantendo o mesmo estado de tensão psicológica.
Férias ajudam, mas não tratam burnout
É importante desfazer um equívoco frequente: as férias podem contribuir para prevenir o burnout, mas não o tratam. A síndrome resulta de exposição prolongada a fatores organizacionais, como sobrecarga de trabalho, falta de autonomia, ausência de reconhecimento ou conflitos de valores.
Embora um período de descanso possa aliviar temporariamente os sintomas, estes tendem a reaparecer rapidamente se as condições que lhes deram origem permanecerem inalteradas. Quando o cansaço intenso regressa poucos dias após o fim das férias, poderá ser um sinal de que existe um problema que merece avaliação clínica.
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Como promover uma verdadeira recuperação
• Faça uma transição gradual. Sempre que possível, evite terminar projetos muito exigentes na véspera de partir e reserve um ou dois dias entre o regresso e o retomar da atividade profissional.
• Pratique uma desconexão psicológica do trabalho. Ative uma resposta automática, reduza as notificações profissionais ou escolares e resista à tentação de consultar o e-mail “só por um minuto”. Desligar mentalmente do trabalho ou do estudo é um dos fatores mais consistentes na recuperação da exposição ao stress.
• Escolha um lazer ativo, mas sem excessos. Caminhar, cozinhar, fotografar, ler, estar na natureza ou conviver são atividades que favorecem o bem-estar. Pelo contrário, agendas excessivamente preenchidas ou com hábitos pouco saudáveis podem limitar os benefícios das férias.
• Mantenha alguma rotina. Horários relativamente regulares de sono e refeições ajudam o organismo a adaptar-se à mudança de ritmo.
• Tenha expetativas realistas. Nem todos os dias precisam de ser memoráveis. Descansar também pode significar não fazer nada, sem culpa.
A investigação sugere que os benefícios das férias dependem menos do destino ou da duração e mais da capacidade de promover uma verdadeira recuperação: desligar das exigências habituais, recuperar sono, fortalecer relações significativas e dedicar tempo a atividades escolhidas livremente. Em última análise, descansar não é um luxo. É uma necessidade biológica, psicológica e social, essencial para preservar a saúde mental e a saúde como um todo.

