O ministro da Presidência, António Leitão Amaro, criticou a falta de reação do país aos resultados do PISA e defendeu um ensino mais focado em disciplinas essenciais como o português.
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08/10/2026
por
Lusa
O ministro da Presidência, António Leitão Amaro, admitiu hoje ter ficado surpreendido com a “falta de choque” relativamente aos resultados do PISA e defendeu um ensino mais focado em disciplinas essenciais como o português.
“Devo dizer que me surpreende um pouco a falta de choque no país com os resultados da literacia revelada pelo últimos exames do PISA”, afirmou o ministro, em Óbidos, sublinhando “uma descida muito significativa”, na última década, dos índices de literacia e de leitura por parte das crianças e jovens.
Numa intervenção proferida na inauguração do Folio – Festival Literário Internacional de Óbidos, António Leitão Amaro disse não ser “um negacionista da tecnologia”, mas aludiu a estes resultados para defender “uma resposta diferente, na relação das crianças com a tecnologia, a Inteligência Artificial e as redes sociais”.
Para o ministro, se ao invés de “ler devagar”, a relação dos consumidores com os livros for “à procura dos resumos gerados por aplicações de inteligência artificial”, o país ficará “mais pobre na capacidade de nos darmos enquanto povo, de aprendermos uns com os outros”.
Alertando para os perigos “da dependência da tecnologia”, Leitão Amaro defendeu medidas governamentais como a limitação ou proibição de telemóveis nas escolas e as restrições à utilização de redes sociais.
Sustentou, no entanto, que é também preciso, nas escolas, “focar mais nos conteúdos essenciais como o Português”, em detrimento do “sonho de expor a tudo, com currículos fluidos” que “faz perder a importância relativa da aprendizagem essencial da nossa língua, o nosso passaporte para a relação com os livros”.
A intervenção do governante marcava a abertura ao público da 11.ª edição do Folio, Festival Literário Internacional de Óbidos, e o arranque de 11 dias de programação com 450 autores e criadores, entre os quais o Nobel da literatura Jon Fosse.
Antes de o ministro partilhar com os leitores do Folio os livros que são a sua “compra preferida”, Joana Pinho, da Livraria Ler Devagar, admitiu existir “uma certa dificuldade” em abrir um festival de literatura, “em falar de livros, de autores, de encontros, quando, ao mesmo tempo, há pessoas a lutar pela sua casa, pela sua terra, pela sua liberdade. Há pessoas a fugir da guerra. Há pessoas que perderam tudo. E há um genocídio em curso”.
“É difícil estarmos aqui”, vincou, “mas talvez seja precisamente por isso que temos de estar”, acrescentou, estabelecendo a “linha da frente” de uma programação que vai “falar de território, de migrações, de fronteiras, de memória, de democracia, de desigualdade”.
Temas que mobilizarão autores e criadores de mais de duas dezenas de países, nesta edição do festival que contará também com o Presidente da República, António José Seguro, no lançamento do Galardão José Pinho, livreiro fundador do festival, prémio que constitui uma das novidades desta edição, anunciada hoje pelo vice-presidente da autarquia de Óbidos, Ricardo Duque.
O prémio, “destinado a distinguir personalidades ou instituições que tenham contribuído de forma particularmente relevante para a literatura, a criação artística, o pensamento e a democratização do acesso à cultura”, homenageará nesta primeira edição o editor Zeferino Coelho, da Caminho, que, além do Nobel português José Saramago, publicou obras de autores como Sophia de Mello Breyner Andresen, Alice Vieira, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, entre muito outros.
O Fólio vai decorrer até dia 18, com 13 mesas de autor em que participarão, além de Jon Fosse, a escritora brasileira Ana Maria Gonçalves e dois vencedores do Prémio Booker: o canadiano Yann Martel e a indiana Kiran Desai.
Confirmadas estão ainda Aixa de la Cruz, Catherine Millet, Vera Iaconelli, Kamel Daoud, Leila Slimani, Michael Cunningham, Mohamed El-Kurd, Michela Marzano, Anne Serre, Rachid Benzine, Martin Desrosiers e Niklas Frank.
Entre os portugueses, destacam-se Valter Hugo Mãe e o humorista Ricardo Araújo Pereira.
Organizado pelo município de Óbidos e pela empresa municipal Óbidos Criativa, o festival tem como parceiros a Fundação INATEL e a Livraria Ler Devagar.

