“Lisístrata”, de Aristófanes, marca estreia de Manuela Couto na encenação

A comédia “Lisístrata”, de Aristófanes, numa versão e com dramaturgia de Miguel Graça, estreia-se no próximo dia 10, no Teatro Mirita Casimiro, em Cascais, naquela que é a primeira encenação da atriz Manuela Couto.

© Instagram_mmanuelacoutooficial


06/07/2026
por

Lusa

A peça é a Prova de Aptidão Profissional (PAP) de 24 alunos finalistas da Escola Profissional de Teatro e Cinema de Cascais (EPTC), contando ainda com o elenco do Teatro Experimental de Cascais (TEC), nomeadamente os atores Cláudia Semedo, Rita Cabaço, José Condessa e Marco D’Almeida.

 

Em entrevista à agência Lusa, Manuela Couto afirmou que se questiona todos os dias sobre o motivo por que aceitou o convite do diretor artístico do TEC, Fernando Alvarez, para encenar.

“É a pergunta que me faço todos os dias. Porquê é que decidi? Porquê é que aceitei? Na verdade, nunca tinha encenado antes, porque também, muito honestamente, não é uma coisa que quisesse muito fazer, senão já teria feito há mais tempo”, começou por dizer Manuela Couto que reconheceu que tinha “alguma curiosidade”.

“Há uma coisa que faço com alguma frequência e gosto muito de fazer, que é a direção de atores em televisão; e fiz várias assistências [de encenação] quando estive no [Teatro] A Comuna [em Lisboa]. E gosto muito desta parte de encaminhar, dirigir, o que quer que seja, nomeadamente os atores. Mas a visão do conjunto não era uma coisa que me atraísse por aí além. Mas, de facto, quando o Fernando Alvarez me fez este convite, já no ano passado, ‘por que não?'”, disse a atriz que realçou a sua ligação à EPTC, onde lecionou, tendo feito parte dos júris de anteriores provas.

“Achei que era uma boa altura para fazer uma coisa que nunca tinha feito e aceitei, mais na base do desafio”, declarou.

“Lisístrata” foi escrita em 404 antes de Cristo, coincidindo com uma das mais acentuadas crises vividas pela Cidade-Estado de Atenas. A trama decorre durante uma guerra prolongada entre cidades gregas. Perante a incapacidade dos governantes alcançarem a paz, Lisístrata reúne mulheres de territórios rivais e propõe uma ação concertada: suspender a vida sexual até que os homens negociem o fim do conflito. As mulheres mais velhas ocupam a Acrópole e tomam controlo do tesouro público, bloqueando, assim, o financiamento militar.

“Acho que Aristófanes tinha características muito especiais, era de facto um homem e um artista extraordinário. O que ele fez nas suas comédias foi criar um mundo de fantasia, um mundo fictício”.

“Ele cria uma utopia, portanto, cria realidades que não existem como forma de resolver a realidade, digamos assim. E há uma ideia que li num dos variadíssimos textos que consultei sobre a ‘Lisístrata’, que é do João Constâncio, que tem uma tradução muito fiel ao grego, cheia de obscenidades, que é uma coisa que não temos nesta versão do Miguel Graça”.

“Há uma reflexão que Constâncio faz: quando olhamos para a ‘Lisístrata’, é como olharmos para as estátuas da Ilha da Páscoa ou para as pinturas das grutas pré-históricas. De facto, isto é um objeto arqueológico que funciona como isso mesmo, como um vestígio do tempo”.

“E é de facto muito fascinante como é que este homem, 400 anos antes de Cristo, conseguiu criar esta utopia, esta sociedade em que as mulheres usam a única arma que têm, que é a sua futilidade, a sua inutilidade do ponto de vista dos homens, e usam a sua única arma, que é o sexo”.

Na realidade, lembra Manuela Couto, “apesar de tudo, na sociedade grega havia muita homossexualidade, portanto essa questão [do sexo] nem seria assim tão premente. Os homens tinham práticas homossexuais que eram frequentes e aceites sobretudo em Esparta, mais ainda do que em Atenas, e Aristófanes cria esta realidade. E a comicidade vem precisamente desta inversão de valores”.

“A peça começa com a Lisístrata a dizer: ‘Nós vamos utilizar esses nossos argumentos, sermos fúteis, andarmos em casa sem fazer nada, só perfumadas, só para fazer sexo, e vamos usar isso para conseguir a paz'”, lembra a encenadora.

“O público, naquela época, na Grécia Clássica, era maioritariamente masculino. Os homens começam a rir-se do ridículo das mulheres. Mas depois, no fim da peça, riem-se deles próprios, porque sucumbem ao desejo pelas mulheres”.

“A peça é uma comédia, porque tem estrutura de comédia. Os diálogos, o ritmo, os enganos, as subtilezas, é muito linguagem de comédia”, frisou Manuela Couto à Lusa.

A dramaturgia de Miguel Graça eliminou as obscenidades do texto original. “Não tem nenhuma”, garantiu, justifivando a opção por se estar “em contexto escolar”.

“É uma prova de aptidão profissional de uma escola, no final do secundário. E acho que foi muito inteligente da parte do Miguel. De facto, ele é um grande dramaturgo, e decidiu usar metáforas”.

“A peça está cheia de metáforas sexuais”, prosssegue Manuela Couto. “Referências acima, abaixo, para dentro, para fora. Está cheia de imagens sexuais, e nós exploramos isso com os miúdos. Exploramos isso – eu exploro isso na encenação -, mas não há uma única asneira. A única palavra que se refere a sexo é a palavra sexo em si. Isto é uma metanarrativa, não é? Nós utilizamos a palavra sexo quando nos queremos referir ao sexo”.

Nesta versão, “Lísistrata” decorre durante uma audição de atores para a peça “Lisístrata”. “Há uma voz, omnipresente e omnisciente, que dirige a audição. […] Há corpos que entram, que são uma metáfora para atores e atrizes. São corpos que servem uma ideia e que servem um texto. Há, assim, uma voz omnipresente [a da soprano Ana Ester Neves], gravada, que vai dando indicações para aquilo que vai acontecendo durante o espetáculo. E temos esta oscilação entre o corpo/ator e a personagem que aparece nas diversas cenas. Portanto, é uma versão muito própria que vamos ter aqui em cena”.

Os figurinos, de Fernando Alvarez, “são anacrónicos”, disse Manuela Couto. “Não são de época, não têm um tempo exato, também não há no cenário ou no espaço cénico, nenhuma referência [à Grécia Clássica]. Vai haver colunas, referindo-se à Acrópole [o centro de poder em Atenas] mas vai ser a única coisa”.

Sobre a comédia, a encenadora afirmou que se recriou uma manifestação, “quando as mulheres tomam a acrópole”. “Temos canções. A banda sonora original é do Tomás Alves e está fantástico. Gosto, porque tem assim um espírito interventivo tem aspetos de canção de intervenção”.

Quanto à conclusão da peça, Manuela Couto destaca a evidência: “A Lisístrata só quer a paz, ela não faz uma revolução, porque no final fica tudo na mesma. Os homens voltam, vão para dentro da acrópole, vão para a cama com as suas mulheres, as mulheres com os seus maridos. A vida volta a ser o que era, com uma grande diferença: a guerra acabou. A guerra não faz falta”.

“Lisístrata” estreia-se no Teatro Mirita Casimiro, em Cascais, na próxima sexta-feira. Na véspera, realiza-se um ensaio solidário a favor da Associação REFOOD, com a entrada a fazer-se através da entrega de bens alimentares.

No dia 18 de julho, há uma sessão com interpretação em Língua Gestual Portuguesa e, no dia 19, há uma conversa com o público após o espectáculo, que fica em cena até 26 de julho.

logo_nacloset_285_285_4k_webp2
Privacidade

Este site usa cookies para que possamos oferecer a melhor experiência de usuário possível. As informações dos cookies são armazenadas em seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.