O presidente brasileiro, Lula da Silva, fez hoje um comício de campanha num reduto bolsonarista, a 30 quilómetros do Palácio do Planalto, mas apoiantes estranharam a falta de material de campanha e eleitores a falta de apelo ao voto.
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09/10/2026
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O presidente brasileiro, Lula da Silva, fez hoje um comício de campanha num reduto bolsonarista, a 30 quilómetros do Palácio do Planalto, mas apoiantes estranharam a falta de material de campanha e eleitores a falta de apelo ao voto.
O ato em Ceilândia, cidade pobre do Distrito Federal formada, na sua maioria, por pessoas com raízes no Nordeste, acolheu o primeiro comício de rua de Lula para a segunda volta das presidenciais, agendadas para 25 de outubro, depois de ter ficado em segundo lugar na votação do passado domingo.
O candidato do PT passou a semana em Brasília a recalcular a estratégia da campanha, após a frustração da primeira volta, em que ficou atrás do adversário Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), por uma diferença de 2,2 milhões de votos.
A campanha de Lula mobilizou apoiantes para procurar o voto dos 33 milhões de pessoas, cerca de 20% do eleitorado, que não foram às urnas no domingo.
“Eu pensei que tivesse alguma coisa, mas o pessoal só distribuiu adesivo [com desenho de Lula], mas só isso”, descreveu Márcia Caldeira, de 59 anos, que estava com um boné do candidato do PT.
A eleitora estranhou a falta de distribuição de panfletos com as ideias de Lula ou de pedidos de voto por parte dos apoiantes.
“Eu não parei para pedir voto e também não vi ninguém fazendo isso”, explicou, dizendo que a figura do Presidente brasileiro é tão magnética, que ela, como muitos outros, estava mais preocupada em chegar perto do automóvel em que ele desfilou a céu aberto.
Durante o comício, Lula defendeu algumas das bandeiras da sua campanha, como a redução da jornada de trabalho, com o fim da escala 6×1, atualmente discutida no Senado Federal.
A proposta é criticada pelo PL e por outros partidos da direita.
“Não dá para ouvir nada”, reclamou um eleitor mais distante sobre a qualidade do som do camião, enquanto uma mulher de meia-idade contemporizou: “Meu amor, só de você estar aqui já é importante”.
Lula subiu numa carrinha de caixa aberta ao lado do candidato do PT ao Governo do Distrito Federal, Leandro Grass, que disputa a segunda volta com a atual governadora, Celina Leão, apoiada por Flávio Bolsonaro.
A Lusa percorreu cerca de dois quilómetros, trajeto do comício de Lula, conversando com lojistas, vendedores informais, trabalhadores e pessoas em paragens de autocarro, muitas delas não eleitoras do petista ou mesmo indecisas.
Todas apontaram não terem sido abordadas por militantes de esquerda para pedir votos ou distribuir material de campanha.
Ao mesmo tempo, o camião de som tocava ‘jingles’ de campanha, como a canção gospel “Era só mais um Silva”, ou músicas rápidas a reiterar o 13, número do candidato do Partido dos Trabalhadores.
Felipe da Costa, de 27 anos, que trabalhou como vigilante no comício, classificou o ato como “diferente”, por estar cheio de apoiantes, mas sem ninguém a pedir votos ou a distribuir material de campanha ao longo da avenida.
“Como é uma época de eleição, é até estranho não ver o povo pedir voto, pedir ajuda, porque eles estão precisando, né”, contou à reportagem, enquanto fumava um cigarro, no final do comício, e admitiu ser eleitor de Flávio Bolsonaro.
“Nem sei explicar o porquê sou eleitor do Flávio. Votei no Lula na última eleição, em 2022. Eu mudei meu voto, porque… esses quatro anos eu não vi muita diferença, entendeu?”, afirmou.
“Eu não sou a favor nem de um, nem de outro. Eu quero mudança. E temos que apostar em coisas novas”, concluiu.
A faxineira Antônia de Maria Oliveira, de 51 anos, chegou às 08:00 para a concentração e, nas quase cinco horas em que permaneceu no comício, também não viu distribuição de material de campanha ou apoiantes a tentar convencer as pessoas a votar no “13”.
“Não vi nada disso. Só teve bandeirada. Ainda assim, foi tudo muito bonito”, contou, depois de beber um gole de água para se refrescar devido ao calor no centro comercial de Ceilândia.
“Eu vim aqui hoje no ato agradecer pelo meu filho, de 27 anos. Meu filho é advogado por causa dele”, contou, emocionada, referindo-se a Lula e ao ProUni, um dos principais programas sociais de acesso de jovens de baixo rendimento às universidades.
Dono de algumas bancas de revenda na cidade, Rodrigo de Souza, de 45 anos, que se considera um microempreendedor, não votou nas eleições de 2022 e ainda não está convencido a votar no próximo dia 25.
Entre um palavrão e outro, considerou todos os candidatos muito enganadores e afirmou ainda não ter decidido o voto.
“Eu ainda não sei em que vou votar. Não sei. Estou avaliando. Estou vendo as propostas. Um fala uma coisa, outro fala outra. Tenho que votar em alguém que vá fazer as coisas para o país”, descreveu.
“Então, tenho que analisar, porque saio de casa, vou lá votar e quatro anos depois não muda nada. Porque não mudou nada nesses últimos quatro anos”, reclamou.
Com uma pequena loja de reparação de relógios, Luiz Alberto, de 77 anos, classificou como “inútil” o ato diante dos seus olhos por ser uma pessoa de direita e citou como problemas o elevado índice de rejeição de Lula e a dívida pública do país.
Trabalhando na mesma loja de roupa, duas vendedoras apoiam candidatos diferentes. Enquanto uma filmava o ato, empolgada, para partilhar nas redes sociais, a outra assistia incrédula.
“Para mim não muda nada, mas tenho que respeitar”, disse a mulher, que não quis identificar-se.
Vendedor de frutas no meio da calçada, o trabalhador informal Gilberto Lobo, de 64 anos, sentiu-se contagiado pela alegria dos eleitores de Lula e, embora tenha votado em Flávio Bolsonaro no último domingo, pensa em mudar de ideia.
“Posso te dizer que mexeu mais para mais, do que para menos”, contou, em palavras tímidas, enquanto descascava um caqui, fruto típico do cerrado brasileiro.
“O povo do Lula está unido, né? Vamos ver o que vai dar! Eu posso até mudar”, afirmou, dizendo que “o povo todo alegre” o convenceu.
“Não ouvi quase nada, mas gostei da coisa”, completou, ao dizer que votou em Flávio no último domingo a pedido “do povo lá de casa”.

