Macau facilita negócios hispânicos com a China por proximidade cultural

Macau facilita negócios hispânicos com a China por proximidade cultural

Empresários e representantes defendem que a proximidade cultural de Macau com os países de língua espanhola facilita a aproximação ao mercado chinês, numa altura em que a estratégia do território semiautónomo foi alargada ao mundo hispânico.

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21/10/2026
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Lusa

Empresários e representantes defendem que a proximidade cultural de Macau com os países de língua espanhola facilita a aproximação ao mercado chinês, numa altura em que a estratégia do território semiautónomo foi alargada ao mundo hispânico.

 

Há cerca de 20 anos que Borja Sanchez acompanha o que se passa em Macau. O empresário, nascido em Barcelona mas com raízes na Galiza, chegou em 2006 a Hong Kong para promover a gastronomia espanhola nas duas regiões semiautónomas chinesas e, após sete anos, cofundou a empresa Los Ibéricos, dedicada à importação e distribuição de produtos alimentares espanhóis.

Do outro lado do rio das Pérolas, o empresário foi assistindo às sucessivas políticas de diversificação económica de Macau e acredita que a decisão de servir de ponte entre a China e os países de língua espanhola “é uma evolução lógica”.

“O Governo chinês compreendeu que somos um bloco cultural distinto. Penso que compreendem muito bem, graças a Macau, o mundo dos países de língua portuguesa. E é uma consequência lógica e natural”, notou, em declarações à Lusa no primeiro dia da 31.ª edição da Feira Internacional de Macau (MIF).

A China definiu Macau como plataforma para o reforço da cooperação económica e comercial com o universo lusófono em 2003, ano em que criou o Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa. Mais de duas décadas depois, o desígnio foi alargado aos países de língua espanhola.

Se a nova visão para Macau se vai concretizar ou não, Sanchez diz que “depende da vontade”. “O que ocorre muitas vezes com as iniciativas do Governo de Macau, na minha opinião, é que são em teoria muito interessantes, mas não acabam em nada”.

“Macau tem todos os recursos para os canalizar nesse sentido. Tem infraestruturas, orçamento, tem a necessidade de diversificar a economia e acho que o pode fazer, se quiser”, reforçou, sublinhando a oferta hoteleira, de restauração e a forte presença da cultura portuguesa no território.

A ideia da proximidade cultural é partilhada pelo cônsul-geral de Espanha em Hong Kong e Macau, para quem esta estratégia representa para Madrid “uma oportunidade para ampliar tanto o comércio como o investimento em Macau e de Macau” para outras geografias.

“[Macau] é também um local próximo da história, da língua e da cultura espanhola, portuguesa e ibérica. Por isso, é sempre um lugar muito acolhedor para fazer negócios”, notou Jesús Gracia Aldaz.

O diplomata destacou ainda a “aproximação entre Espanha e China nos últimos anos”. O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, visitou a China quatro vezes nos últimos quatro anos, e os reis de Espanha deslocaram-se no final de 2025 ao país asiático.

Atualmente vivem cerca de 4.500 espanhóis na China e, de acordo com o diplomata, em Hong Kong residem dois mil e em Macau à volta de 500.

Miguel Latorre, um dos diretores da Câmara de Comércio Espanhola em Hong Kong, chegou à região em 2023 e considera que o alargamento oferece aos empresários espanhóis algo difícil de encontrar noutras cidades da região. “Os espanhóis, portugueses, somos irmãos”, afirmou, recordando que se sentiu num “terreno familiar” quando visitou Macau pela primeira vez. Essa proximidade gera confiança e tranquilidade para empresários hispanófonos, defende.

“Vemos isto como uma ponte perfeita entre a China, Hong Kong e o ecossistema que se criou na Grande Baía (…) consideramos esta expansão um sinal muito positivo”, notou.

A Grande Baía é um projeto de Pequim que tem como objetivo criar uma metrópole mundial a partir das regiões administrativas especiais chinesas de Macau e de Hong Kong e outras nove cidades da província vizinha de Guangdong onde vivem mais de 86 milhões de habitantes.

Para Victor Herrera, gestor da consultora CW CPA — firma de Hong Kong focada no apoio a empresas da América Latina interessadas em entrar na Ásia —, a inclusão dos países de língua espanhola por Macau “é muito importante”.

Ao chegar a Hong Kong, onde se fala sobretudo cantonês e inglês, falta “um músculo” para promover negócios focados especificamente na região que fala espanhol, pelo que a intenção de Macau promover estas atividades “seria perfeita”, referiu.

À Lusa, o responsável mexicano enumerou as duas maiores dificuldades da entrada dos empresários dos países de língua espanhola na China: a língua, embora amenizada agora com o desenvolvimento de novas tecnologias de tradução, e a falta de conhecimento legal.

“Essas empresas, quando vêm fazer negócios, geralmente já têm feitas operações de importação e exportação e já tiveram problemas, porque a comunicação não foi clara, porque não leram os termos e condições dos contratos, porque nem sequer havia um contrato, não havia uma base sólida para que pudessem desenvolver o negócio. Havia esperança, confiança e ‘seja o que Deus quiser”, concluiu.

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