A organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) denunciou hoje a continuação de práticas violentas contra migrantes e requerentes de asilo no Mar Egeu, acusando as autoridades gregas de interceções que colocam vidas em risco.
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12/06/2026
por
Lusa
Num comunicado divulgado por ocasião do terceiro aniversário da tragédia de Pilos, que causou cerca de 600 mortes, a ONG reuniu testemunhos de sobreviventes que relatam alegados espancamentos, abandono no mar, destruição de embarcações e expulsões forçadas para águas turcas por homens encapuzados que identificaram como pertencentes a forças de segurança gregas.
“Os homens que usavam balaclavas estavam a olhar para mim e a rir enquanto eu me afogava”, relatou um sobrevivente ouvido pela MSF em abril deste ano, descrevendo um episódio em que um grupo de migrantes terá sido colocado num bote insuflável sobrelotado antes de ser rebocado e abandonado em águas profundas.
Segundo a coordenadora da MSF na Grécia, Sophie Baylac, o naufrágio de Pilos “não foi uma tragédia isolada” e as mortes no mar continuam a ocorrer devido a políticas de dissuasão e à falta de responsabilização pelas alegadas violações dos direitos humanos.
“Isto está a acontecer em solo europeu, vindo de um país que adere às convenções internacionais de direitos humanos”, afirmou Baylac, citada no comunicado.
A organização sustenta que as equipas médicas destacadas nas ilhas gregas de Lesbos e Samos continuam a tratar migrantes com lesões físicas e psicológicas compatíveis com travessias marítimas perigosas e alegadas interceções violentas.
De acordo com a MSF, entre julho de 2023 e junho de 2026, mais de 16 mil pessoas receberam apoio da organização em Lesbos, de um total de cerca de 26 mil chegadas registadas à ilha durante esse período.
O comunicado inclui outros testemunhos de sobreviventes que descrevem alegadas agressões, destruição de motores de embarcações, confisco de bens pessoais e abandono em jangadas ou botes salva-vidas sem meios de navegação.
Um dos relatos refere que elementos mascarados terão perfurado o casco de uma embarcação com um objeto semelhante a uma lança, provocando o seu afundamento parcial e a morte de pelo menos uma mulher.
A MSF recorda ainda que, em janeiro de 2025, o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos confirmou a existência de práticas sistemáticas de expulsão de migrantes da Grécia para a Turquia, enquanto um relatório do gabinete de direitos fundamentais da Frontex identificou alegados padrões de manobras marítimas perigosas por parte da Guarda Costeira Helénica.
A organização critica igualmente o novo Pacto Europeu para a Migração e o Asilo, considerando que a lógica de dissuasão que o sustenta não contribui para reduzir a violência nas fronteiras externas da União Europeia.
“A violência indiscriminada e as práticas perigosas de interceção no mar têm de parar. Não acreditamos que os governos devam afundar barcos”, concluiu Sophie Baylac.

