Esquerda pede mobilização democrática no Brasil contra influência dos EUA

Esquerda pede mobilização democrática no Brasil contra influência dos EUA

Representantes de forças políticas de esquerda ouvidos pela Lusa apelaram a uma mobilização democrática para a segunda volta das presidenciais brasileiras e alertaram para os riscos da influência dos Estados Unidos na América Latina.

© Lusa


05/10/2026
por

Lusa

“Há uma espécie de hegemonia de governos de direita na América Latina”, disse à Lusa o argentino Ariel Navarro, coordenador da Red Futuro, rede latino-americana de cooperação política progressista, no domingo, enquanto acompanhava os resultados eleitorais no hotel onde Lula da Silva reuniu apoiantes, em São Paulo.

 

Navarro, um dos vários representantes de partidos políticos de esquerda convidados a acompanhar as eleições no quartel-general de Lula da Silva, associou este cenário à intenção do Governo norte-americano de recuperar influência sobre a região, destacando o papel do Presidente Donald Trump e do secretário de Estado, Marco Rubio.

Segundo os dados oficiais, Flávio Bolsonaro registou 47,05% dos votos válidos na primeira volta, enquanto Lula da Silva obteve 45,14%, quando estão contabilizadas 99,91% das secções eleitorais.

Apesar do resultado desfavorável a Lula da Silva na primeira volta, que ficou a cerca de dois pontos percentuais de Flávio Bolsonaro, considerou que permanece “uma esperança para o dia 25 de outubro”, quando se realiza a segunda volta.

Também presente no hotel onde Lula da Silva acompanhou os resultados eleitorais, em São Paulo, para acompanhar as eleições brasileiras, Joana Mortágua, do Bloco de Esquerda, defendeu a necessidade de uma “mobilização democrática” para a segunda volta, alertando para os riscos de uma vitória de Flávio Bolsonaro.

“No caso do Bolsonaro, terá também uma agenda de vingança contra a democracia e isso é, obviamente, assustador”, afirmou à Lusa.

Joana Mortágua acusou Donald Trump de procurar impor o poder dos Estados Unidos sobre a América Latina, apoiando candidatos alinhados, exercendo pressão económica e admitindo intervenções militares para controlar recursos naturais.

“Tudo com o objetivo de tomar conta das terras raras, dos recursos naturais, do petróleo e impor as suas regras económicas também sobre esses países”, denunciou.

No domingo, enquanto os mais de 158 milhões de brasileiros eram chamados às urnas, o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, informou que a corporação abriu uma investigação para apurar a alegada interferência dos Estados Unidos nas eleições gerais do país.

A investigação foi motivada pelo Governo brasileiro, a partir de uma reportagem do jornal britânico The Guardian, da semana passada, que afirma que a presidência de Donald Trump financiou com um milhão de dólares (895 mil euros) grupos da sociedade civil que se opõem ao Supremo Tribunal Federal (STF) no Brasil.

Por seu lado, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) do Brasil, juiz Kassio Nunes Marques, afirmou que não foi identificado qualquer incidente que possa ser caracterizado como interferência estrangeira nas eleições.

Ao fazer um balanço da primeira volta das eleições gerais brasileiras, na noite de domingo, Nunes Marques, nomeado para o STF pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, em outubro de 2020, disse à imprensa que “contra factos, não há argumentos”.

Sobre a segunda volta, que se realiza a 25 de outubro, a dirigente bloquista considerou que a campanha de Lula deverá destacar a defesa da democracia nas próximas três semanas: “Continua a ser um processo de resistência democrática e eu acho que é isso também que a campanha do Lula tentará destacar na segunda volta, porque os riscos são reais.”

Para a segunda volta, Mortágua defendeu “uma mobilização democrática que receba muita solidariedade de democratas em todo o mundo”, evocando o apoio internacional que Lula teve nas eleições de 2022, quando, na segunda volta, venceu o pai de Flávio Bolsonaro, o ex-Presidente brasileiro.

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