Moradores em barracas de Vila Franca de Xira criticam autarquia

Moradores em barracas de Vila Franca de Xira criticam autarquia

Moradores em barracas sem água, luz e saneamento em Vila Franca de Xira acusam a autarquia de querer “dar uma boa imagem”, enquanto aguardam realojamento.

© Lusa


11/10/2026
por

Lusa

moradores em barracas de Vila Franca de Xira

Os moradores em barracas sem água, luz e saneamento nos bairros de Clarimundo e Tardoz da Improsit, no concelho de Vila Franca de Xira, acusam a autarquia de, enquanto adia o seu realojamento, querer “dar uma boa imagem”.

 

Em causa está uma operação levada a cabo em 21 de julho nestes dois aglomerados de habitações precárias, localizados na freguesia do Sobralinho, em Vila Franca de Xira, distrito de Lisboa, e onde moram 37 pessoas.

A operação, desencadeada pela Polícia de Segurança Pública (PSP), mas que contou com a participação de várias equipas municipais (fiscalização, área ambiental e ação social), resultou na identificação de 11 habitações precárias “ocupadas de forma legal” e 11 construções devolutas e desabitadas.

“Foi feito um levantamento, um censo das famílias, […] apontaram os nomes dos agregados familiares, das crianças, dos pais, das mães, viram as condições em que nós estamos a viver”, contou à Lusa Rafael (nome fictício), de 36 anos e a viver desde bebé no Tardoz da Improsit, onde recebeu a Lusa, juntamente com mais uma dezena de moradores.

“Disseram-nos que as barracas vazias, as que estão […] devolutas, iriam ser demolidas e […] que nós íamos ser realojados, mas […] não nos deram data absolutamente nenhuma”, disse, acrescentando que posteriormente voltaram ao local dois técnicos da autarquia para “tirar fotografias às barracas vazias”, reiterando que iriam ser derrubadas, mas sem qualquer previsão.

Entretanto, em 05 de setembro, o jornal local “O Mirante” dava como efetivada a demolição de 11 construções abandonadas, constatando que as barracas no Sobralinho “deixaram de existir”.

Depois de lá ter estado em reportagem há cerca de meio ano, a Lusa regressou ao terreno na última semana de setembro, tendo confirmado que o cenário não mudou: as construções devolutas mantêm-se, bem como os esqueletos de vários carros e eletrodomésticos consumidos pelo tempo ou pelo fogo.

“Até agora nada [foi feito], continua tudo exatamente igual”, disse Rafael sobre a promessa das “autoridades” para remover o entulho.

Ao propor a demolição das barracas que não estão habitadas, a autarquia quer “lavar a cara” dos bairros, acusou Ana (nome fictício), residente no Clarimundo desde que casou.

“Disseram mesmo, na nossa cara, que isto era só para dar uma boa imagem. Nós não queremos dar uma boa imagem à câmara […]. Quando nos atribuírem casa, nós damos essa boa imagem”, afirmou.

Além disso, “as barracas estão todas juntas umas com as outras, ao demolir uma caem todas”, assinalou, recordando que os aglomerados de Clarimundo e Tardoz da Improsit estão inscritos na Estratégia Local de Habitação (ELH) de Vila Franca de Xira desde 2021.

“Queremos que nos digam uma data específica, porque o tempo do PRR [Plano de Recuperação e Resiliência, fundos europeus] já acabou”, exigiu Ana.

“Estamos a viver em condições indignas, […] sem água, sem luz”, lembrou, temendo um “inverno rigoroso novamente”.

No ano passado, os moradores tiveram que andar a pôr telhas, pneus e pedras em cima dos tetos improvisados, mas mesmo assim o temporal obrigou-os a irem dormir “para debaixo de uma varanda”.

Reivindicando a habitação municipal há muito esperada, Ana dirige-se diretamente ao autarca socialista Fernando Paulo Ferreira, que lidera a Câmara de Vila Franca de Xira: “Não há condições nenhumas, nem uma casa de banho temos para as crianças, as crianças têm que tomar banho numa bacia às sete da manhã, para irem para a escola às oito horas. É um caso que não tem explicação, o presidente não sabe realmente como é viver assim”.

Ao contrário dos outros moradores, que, por medo ou vergonha, preferem o anonimato, Maria de Fátima faz questão de dar a cara. Já perdeu a conta dos anos que ali passou e também aos concursos de casas a que concorreu. Nunca passou de suplente.

“Já […] vieram cá ver a nossa situação, dizem que vamos ser realojados, mas não dizem quando somos ou quando não somos. Ratos por todo o lado, bichos por todo o lado, vamos à água de carrinho de mão, no inverno entra água por todo o lado, quando foi a tempestade […] foi telhas, foi tudo ao chão, ninguém veio cá ver como estávamos ou como não estávamos”, relatou.

No Clarimundo desde que nasceu, “Rodrigo” (nome fictício) aponta o dedo à autarquia. “A câmara simplesmente nunca veio cá, já vivo cá há 32 anos, nunca vi cá um presidente da câmara”, lamentou.

“É só promessas”, mas “nada concretizam”, enquanto as condições de vida nos dois bairros se mantêm “indignas mesmo”, classificou.

“Chove por todo lado nas nossas casas, tenho os meus filhos à escola, não tenho casa de banho, para fazermos as necessidades vamos ao campo, tomar banho tomamos com água do chafariz, nos baldes. Em pleno século XXI, acho que isto não são condições para ninguém”, disse.

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