Paris vai falar com talibãs para repatriar afegãos em situação irregular

Paris vai falar com talibãs para repatriar afegãos em situação irregular

A França iniciou conversações “técnicas” com os talibãs para facilitar o repatriamento para o Afeganistão de cidadãos afegãos em situação irregular e que representem uma “ameaça” à segurança dos franceses, segundo uma fonte diplomática e outra conhecedora do assunto.

© Riccardo Milani / Hans Lucas / AFP via Getty Images


07/10/2026
por

Lusa

Ambas as fontes são citadas pela agência de notícias francesa AFP.

 

“Tal como outros países europeus, foi iniciado um diálogo técnico com os talibãs para facilitar o afastamento direto para o Afeganistão de cidadãos afegãos em situação irregular que representem uma ameaça à ordem pública”, declarou a fonte diplomática, que pediu anonimato devido à sensibilidade do tema.

A mesma fonte sublinhou que estas discussões “não colocam em causa” a posição francesa sobre o Afeganistão.

A França não mantém relações diplomáticas com os talibãs desde o seu regresso ao poder no Afeganistão em agosto de 2021, e a sua embaixada em Cabul continua fechada.

Mas, ao lado da Alemanha, Bélgica e também da Suécia, faz parte de um grupo de cerca de vinte países da União Europeia favoráveis a uma aceleração das expulsões de afegãos em situação irregular, nomeadamente aqueles condenados pela sua participação em tráfico ou em violência contra pessoas.

As autoridades talibãs, que não são oficialmente reconhecidas como detentores do poder no Afeganistão pela União Europeia, procuram, por seu lado, reforçar a sua presença internacional.

A 31 de agosto, Berlim tinha assim anunciado ter autorizado a entrada no seu território de representantes do governo talibã para tratar exclusivamente de questões “técnicas” relacionadas com a expulsão de afegãos para o seu país de origem.

O ministério alemão dos Negócios Estrangeiros tinha então tomado o cuidado de esclarecer que esses representantes, submetidos a um controlo de segurança, não eram “diplomatas acreditados na Alemanha”.

Em resumo, esta abertura não constituía uma normalização das relações diplomáticas.

Questionado pela AFP sobre a eventual vinda de representantes talibãs a França para facilitar os procedimentos de expulsão, o Ministério francês dos Negócios Estrangeiros não respondeu.

A fonte diplomática, por sua vez, não quis precisar o número de afegãos que poderiam estar implicados neste processo. Mas, uma fonte próxima do processo, no entanto, fala de um volume significativo, “centenas” de pessoas potencialmente visadas por estas medidas.

“As modalidades concretas estão em estudo”, indicou ainda a fonte diplomática.

Em junho, uma reunião em Bruxelas entre responsáveis europeus e representantes talibãs tinha provocado duras críticas de organizações de defesa dos direitos humanos e de eleitos de esquerda no Parlamento Europeu.

Estes denunciavam qualquer contacto com um regime que, desde o seu regresso ao poder, impôs uma interpretação rigorosa da lei islâmica e privou mulheres e meninas de direitos fundamentais.

As afegãs estão excluídas de muitos empregos, bem como da maioria dos espaços públicos, e o acesso à educação também é proibido para meninas com mais de 12 anos. Segundo a UNESCO, cerca de 2,4 milhões de jovens afegãs estão atualmente privadas de ensino secundário.

Paralelamente a estas medidas que visam os afegãos sujeitos a uma ordem de saída do território francês (OQTF), Paris afirma manter o seu apoio à população afegã, em particular às mulheres.

A França continua a enviar ajuda humanitária através de ONGs e agências das Nações Unidas presentes no terreno. Também acolhe afegãs e afegãos ameaçados no seu país ao abrigo do direito de asilo.

“Desde 2015, a França tornou-se um dos principais países de acolhimento de refugiados afegãos, na sequência da crise síria, das políticas de encerramento no norte da Europa e do colapso do regime afegão”, destacava em junho de 2025 Didier Leschi, diretor-geral do Escritório francês de Imigração e Integração (Ofii).

“Com mais de 100.000 afegãos presentes em 2024, esta migração tornou-se um fenómeno massivo, recente, inesperado pela sua dimensão”, para a França, acrescentou.

A Alemanha conta por sua vez com cerca de 450.000 cidadãos afegãos no seu território, segundo a diplomacia daquele país.

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