Ricardo Castro manifesta-se sobre luta pela habitação e mostra-se revoltado com tudo o que tem acontecido nos últimos tempos relacionado com esta crise que se vive em Portugal, destacando a história de um casal idoso.
04/11/2026
por
Notícias ao Minuto
“Portugal, envergonha-me.” Estas foram as palavras que deram início à publicação que Ricardo Castro fez na sua página de Instagram no domingo, dia 1 de novembro, onde fala abertamente sobre as manifestações pela habitação, tendo-se mostrado revoltado e destacado a história de um casal idoso.
“E não, não se trata de esquerda, de direita, de centro ou de extremos. Trata-se de humanidade. Daquela que parece estar a desaparecer no meio de discursos, promessas, estatísticas e jogos de poder.
Envergonha-me olhar à minha volta e ver pessoas a trabalhar de sol a sol, a acumular dois e três empregos, a abdicar da própria vida, e, ainda assim, a não conseguirem ganhar o suficiente para viver com dignidade”, desabafou o ator.
“Envergonha-me ver pessoas nos supermercados a olhar para as prateleiras, a fazer contas de cabeça, a retirar produtos do carrinho porque o dinheiro não chega. Pessoas que têm de escolher entre comer, pagar a eletricidade ou comprar medicamentos. E nem vou falar do preço dos combustíveis.
Envergonha-me ver famílias inteiras a serem empurradas para a rua. Pessoas a viver em automóveis, tendas e barracos. Pessoas que trabalham, que cumprem, que contribuem para este país, mas que não conseguem sequer garantir um teto sobre a cabeça”, acrescentou.
“E há uma história que me persegue. Uma história que aconteceu perto de minha casa e que não consigo esquecer. Um casal de idosos. Ele com 78 anos, ela com 81. Uma vida inteira de trabalho, de memórias, de sacrifícios, de histórias partilhadas. Tinham uma casa, tinham o seu refúgio. Mas o contrato de arrendamento foi revisto e preparava-se um aumento absurdo da renda. As reformas que recebiam não chegariam para suportar esse aumento”, começou depois por contar.
“O desespero foi tal que o homem provocou a morte da mulher através de medicação e, posteriormente, pôs termo à própria vida. Leiam outra vez. Isto aconteceu. Não é uma estatística. Não é uma projeção económica. Não é um debate televisivo. São duas vidas humanas”, destacou de seguida.
“E eu pergunto: em que sociedade estamos a transformar-nos? Como é possível que duas pessoas cheguem ao fim de uma vida inteira e sintam que já não têm lugar neste mundo porque não conseguem pagar uma casa? Uma casa, senhores, não é um investimento financeiro para quem lá vive. Não é uma oportunidade de especulação. Não é uma mercadoria qualquer. Uma casa é a fortaleza de uma família. É onde crescemos, onde criamos os nossos filhos, onde envelhecemos, onde guardamos as nossas memórias”, refletiu.
“É o lugar onde devemos poder fechar a porta e sentir que estamos seguros. E aos políticos deste país tenho uma coisa a dizer: Basta! Deixem-se de discursos piegas, de guerras partidárias, de desculpas e de olharem eternamente para o próprio umbigo. Deixem de pensar nas próximas eleições e comecem a pensar nas próximas gerações. Tenham coragem política! Criem limites razoáveis às rendas”, continuou.
“Não é aceitável que o preço de uma casa seja determinado exclusivamente pela ganância do mercado, ignorando a realidade de quem precisa de um lugar para viver. Criem critérios objetivos que tenham em conta a localização, a área, a idade do edifício, o estado de conservação, o isolamento térmico e a eficiência energética”, enumerou.
“Não é aceitável que um T1 no Feijó, com 45 metros quadrados, num prédio de 1970, sem isolamento térmico, com janelas que nem sequer são duplas e com um certificado energético medíocre, seja colocado no mercado por 1.200 euros mensais! Mas quem é que consegue viver assim? Quem é que consegue pagar isto com um salário normal?”, realçou ainda.
“E não me venham dizer que isto é um problema de Lisboa ou do Porto. Não é! Está a acontecer em todo o país. Nas cidades, nas vilas, nas periferias e em localidades onde as pessoas já não conseguem viver perto dos sítios onde nasceram, cresceram e trabalham”, salientou.
“Não peço casas de borla. Não peço que se retirem direitos a quem investiu e disponibiliza habitação. Peço equilíbrio, justiça, responsabilidade e limites. Peço políticas que coloquem as pessoas no centro das decisões. Porque um país não se mede apenas pelo crescimento económico, pelos números da bolsa ou pelos milhões anunciados em conferências de imprensa. Um país mede-se também pela forma como trata os mais frágeis, os mais velhos, os que trabalham, os que lutam e os que já não têm forças para lutar”, comentou ainda.
“E sabem o que mais me revolta? É que amanhã esta história será substituída por outra notícia, por outra polémica, por outra discussão partidária. E provavelmente voltaremos todos à nossa rotina. Mas aquelas duas pessoas não voltam. Por isso, não me peçam silêncio. Não me peçam neutralidade perante a indignidade. Não me peçam para aceitar como normal aquilo que nunca deveria ser normal”, lamentou.
“Tenham-nos no sítio! Tenham coragem para governar. Tenham coragem para contrariar interesses. Tenham coragem para fazer aquilo para que foram eleitos: servir as pessoas. Porque a habitação não pode ser um privilégio dos ricos. Trabalhar não pode significar apenas sobreviver. E envelhecer não pode significar viver com medo de perder a própria casa.
Uma casa não é um luxo. É dignidade. É segurança. É humanidade. É a fortaleza de uma família. E um país que deixa as suas pessoas perderem até isso tem, obrigatoriamente, de parar para pensar no que está a fazer. Portugal, envergonha-me”, rematou.

