A ONU alertou hoje que uma em cada três instituições criadas para promover a igualdade de género perdeu poder em apenas dois anos, num “recuo político deliberado” que está a inverter décadas de progresso.
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17/09/2026
por
Lusa
A informação consta no relatório “Panorama de Género 2026”, divulgado hoje pela ONU Mulheres e pelo Departamento de Assuntos Económicos e Sociais das Nações Unidas (UNDESA), que mostra que onde as mulheres detêm poder real, os resultados melhoram em todas as dimensões da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, desde a paz à educação e da pobreza à ação climática.
No entanto, o relatório indica que as próprias instituições construídas ao longo de décadas para promover a igualdade de género estão a ser sistematicamente enfraquecidas, paralisando ou invertendo o progresso “precisamente no momento em que o mundo não se pode dar ao luxo de retroceder”.
As conclusões revelam um retrocesso político na igualdade de género “que é transversal, mensurável e cumulativo”, sendo que um em cada três mecanismos institucionais para a igualdade de género viu o seu poder institucional corroído nos últimos dois anos.
Cerca de um em cada quatro viu os seus orçamentos operacionais cortados no mesmo período, e quase um em cada 10 perdeu o controlo total do seu orçamento.
O financiamento para a igualdade de género desceu para o nível mais baixo desde 2021, sendo o financiamento para organizações de direitos das mulheres o mais afetado, diz o documento.
“A concentração do poder político continua a ser gritante: seis em cada sete países são liderados por homens. As mulheres continuam a enfrentar barreiras sistémicas em todas as fases”, indicou a ONU num comunicado de imprensa.
“Em alguns países, até oito em cada 10 mulheres candidatas a cargos públicos enfrentam violência na vida pública. E quando as mulheres chegam ao gabinete, ainda são desproporcionalmente afastadas das pastas que detêm o maior poder em segurança e economia”, acrescenta a nota.
Como exemplo dessa desigualdade, a ONU aponta que quase nove em cada 10 ministros da Defesa e mais de oito em cada 10 ministros das Finanças são homens.
Tendo tudo isto em conta, nenhum indicador do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável para a igualdade de género (ODS 5) está a caminho de ser alcançado até 2030, sublinharam hoje as Nações Unidas.
“As evidências são claras: quando as mulheres lideram, as sociedades são mais fortes, as economias são mais resilientes e os resultados são melhores para todos”, afirmou a diretora executiva da ONU Mulheres, Sima Bahous.
No entanto, Bahous frisou que enquanto o poder se mantiver concentrado em instituições que excluem sistematicamente as mulheres, as sociedades continuarão a ficar aquém do seu pleno potencial.
“A igualdade não pode ser alcançada sem igualdade de acesso ao poder — porque a igualdade sem poder não é igualdade”, disse.
Já o subsecretário-geral da ONU para os Assuntos Económicos e Sociais, Li Junhua, garantiu que os dados atuais não deixam margem para ambiguidade: “ao ritmo atual, a igualdade de género ainda está a 171 anos de distância”.
O padrão estende-se além dos Governos.
As mulheres ocupam apenas 6% dos cargos de CEO (diretor executivo) nas empresas a nível global e lideram menos de 20% dos tribunais superiores, deixando as decisões que moldam os negócios, o direito, o emprego e a economia global predominantemente nas mãos dos homens.
A poucos dias de dezenas de chefes de Estado e de Governo se reunirem na sede da ONU, em Nova Iorque, para a Semana de Alto Nível da organização, a ONU Mulheres e o UNDESA apelam a uma reversão do retrocesso político na igualdade de género e que o poder seja partilhado de forma mais igualitária.
“Isto significa garantir que as mulheres têm uma voz igualitária nas decisões políticas e económicas, financiar adequadamente as instituições de igualdade de género, proteger as organizações de direitos das mulheres e o espaço cívico, e garantir que as mulheres têm poder igual para moldar as decisões que afetam as economias, a paz e a segurança, a tecnologia e a vida pública”, diz o comunicado da ONU.

