Vaticano. ArtCut reflete sobre como “permanecer humano” na era digital

Vaticano. ArtCut reflete sobre como

A primeira Trienal de Arte das Universidades Católicas (ArtCut), organizada pelo Vaticano, com curadoria-geral do português Nuno Crespo, pretende afirmar a arte como espaço de resistência à desumanização provocada pelos mecanismos digitais, na era da inteligência artificial.

© Stefano Costantino/SOPA Images/LightRocket via Getty Images


15/08/2026
por

Lusa

Sob o tema “Exercises in Empathy” (“Exercícios de Empatia”), a iniciativa do Dicastério para a Cultura e a Educação da Santa Sé, liderado pelo cardeal português José Tolentino de Mendonça, decorrerá entre 2026 e 2027 em oito cidades de sete países e três continentes, reunindo 104 artistas, 14 curadores e sete universidades católicas, culminando em 2028, ano em que se realiza a próxima edição da Bienal de Arte de Veneza.

 

Em entrevista à Lusa, Nuno Crespo, diretor da Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa e curador-chefe da trienal, sublinhou o caráter inédito do projeto, que procura aproximar arte, educação e espiritualidade.

“A Trienal de Arte das Universidades Católicas tem a sua própria agenda nesta triangulação entre arte, educação e espiritualidade, e depois tem um outro fator que me parece também muito interessante e que a maior parte das vezes está dissociado na totalidade do mundo, que é esta articulação, arte-educação”, afirmou.

“É o primeiro evento de arte contemporânea global em que a proximidade com as universidades faz parte da sua génese. Em mais nenhum isso acontece”, acrescentou, defendendo que as universidades, enquanto produtoras de conhecimento, devem ser agentes ativos nos grandes debates culturais e artísticos da atualidade.

A trienal resulta de uma ideia impulsionada pelo cardeal Tolentino de Mendonça, que a apresenta como uma resposta ao apelo lançado pelo Papa Leão XIV na encíclica “Magnifica Humanitas”, dedicada à salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial.

No texto de apresentação da iniciativa, Tolentino de Mendonça afirma que a empatia constitui uma competência essencial das universidades católicas e uma ferramenta indispensável para construir conhecimento, promover o diálogo entre disciplinas e enfrentar os desafios sociais e culturais contemporâneos.

“A empatia é uma ferramenta cada vez mais indispensável para construir e partilhar conhecimento, para tecer reciprocidades, para relançar práticas colaborativas”, escreve o cardeal português.

Embora rejeite que a ArtCut constitua uma resposta institucional do Vaticano à inteligência artificial, Nuno Crespo reconhece uma convergência entre o tema da trienal e as preocupações expressas pelo Papa.

“Há uma feliz coincidência entre o mote da trienal e aquilo que é a mensagem de fundo do Papa Leão XIV sobre como podemos permanecer humanos e proteger a humanidade nestes tempos de algoritmos e de zeros e uns”, afirmou.

Esta iniciativa também “faz parte deste enorme progresso que a Igreja Católica tem feito, nomeadamente a partir do pontificado do Papa Francisco”, defendeu, sublinhando que a trienal foi concebida como um espaço de “livre pensamento e livre discussão”, defendendo que o envolvimento do Vaticano não significa concordância institucional com as posições políticas ou artísticas dos participantes.

“O Vaticano concorda e subscreve todas as posições políticas de todos os artistas e de todos os curadores que estão envolvidos nesta trienal? Não. Mas permite que essa conversa exista. Portanto, há esse espaço de liberdade. E eu acho que isso é uma nota muito positiva”.

Segundo o curador, a digitalização trouxe ganhos inegáveis, mas também desafios relacionados com a forma como as pessoas se relacionam e constroem pensamento crítico.

“Responder a isso não é negar a eficiência e as coisas extraordinárias que a digitalização nos veio trazer, não é? Mas também nos traz um desafio, é como é que podemos permanecer humanos no meio desta avalanche que é uma avalanche, a meu ver de desumanização”.

Para Nuno Crespo, os 104 artistas reunidos na trienal não são unidos por afinidades estéticas ou geracionais, mas por uma visão comum da arte como experiência transformadora.

“O elemento comum é a utilização das práticas artísticas não como um fim em si próprio, mas como uma ferramenta ou um dispositivo que faz com que possamos ter uma experiência que desperta outras coisas em nós”, explicou.

Essa dimensão encontra-se sintetizada numa obra do artista brasileiro Leonilson, integrado na trienal, e que o curador considera emblemática do projeto. Trata-se de um coração acompanhado da frase “os pensamentos do coração”.

“Como é que podemos recolocar o coração no centro do nosso pensamento acerca do mundo, do outro e de nós mesmos? Parece-me uma coisa bastante provocadora em 2026”, considerou.

A ArtCut é apresentada pelos seus promotores como uma “escola de empatia”, expressão utilizada tanto por Tolentino de Mendonça como por Nuno Crespo para descrever um projeto que pretende colocar em diálogo diferentes geografias, culturas e formas de conhecimento.

No texto curatorial, Nuno Crespo define a trienal como um “laboratório moral”, onde cada obra e cada exposição funcionam como exercícios de aproximação ao outro.

“A arte permite-nos viver mais do que uma vida”, escreve, defendendo que a experiência artística amplia a capacidade humana de imaginar, compreender e sentir realidades diferentes da própria.

Questionado sobre os atuais debates em torno da inteligência artificial e da criação artística, o curador considerou que ainda é impossível antecipar o alcance das transformações em curso, mas sustentou que existe uma dimensão essencial da arte que permanece ligada à experiência humana direta.

Citando a encíclica de Leão XIV, Crespo afirmou que a inteligência artificial poderá reorganizar a sociedade de forma comparável ao impacto da industrialização no século XIX, embora reconheça que ainda é impossível antecipar o que vai acontecer.

“Nós não sabemos qual vai ser o novo modelo de organização social que vai sair, estamos longe, são mecanismos que estão muito ainda na sua infância, estamos longe de perceber não só a sua potencialidade como as suas consequências”.

Mas “há uma coisa que é condição da experiência artística: a relação entre dois corpos sensíveis. O meu corpo e o corpo da obra”, afirmou, recorrendo à metáfora de “que a experiência da arte é como experimentar um alimento, ninguém pode dar uma dentada na maçã [por nós], temos que ser nós a morder a maçã, saborear a maçã”.

Na sua perspetiva, os artistas continuam a desempenhar um papel decisivo precisamente por desafiarem expectativas e introduzirem o inesperado, ao contrário do algoritmo, que faz “tentativas de adivinhar o que é que nós gostamos e o que é que nós queremos, baseadas naquilo que escolhemos anteriormente”.

“Com os artistas é o oposto, estão-nos sempre a desafiar, estão-nos sempre a tirar o tapete, estão-nos sempre a atirar para fora de pé, estão-nos sempre a dizer coisas que nós não gostamos, gostamos com suspeita ou a que aderimos, e esses são mesmo os bons companheiros para estes tempos difíceis”, afirmou.

A primeira edição da ArtCut começa no Rio de Janeiro, a 27 de agosto, passando depois por Santiago do Chile, Bogotá, Boston, Milão, Lisboa e Luanda, antes de culminar em Veneza.

Em Lisboa, a trienal decorrerá entre 12 de outubro e 15 de dezembro na Universidade Católica Portuguesa, reunindo obras de artistas portugueses e internacionais como Andreia Santana, Aires Mateus, Amadeo de Souza-Cardoso, Ana Vieira, Carlos Bunga, Daniel Blaufuks, Délio Jasse, Helena Almeida, Julião Sarmento, Martha Rosler, Mona Hatoum e William Eggleston.

Sobre o que espera que o público retire da visita às exposições, Nuno Crespo aponta três objetivos: reforçar o papel cultural das universidades, derrubando o estigma associado ao meio académico, do “sítio das conferências chatas”; chamar a atenção para o “que os artistas têm para nos dizer” e para o seu contributo na compreensão do presente; e que desperte “em cada um de nós a ambição de sermos mais humanos”, porque “a trienal não é nada sem os artistas”.

“Nós estamos cada vez menos humanos. Há uma espécie de mote que o Wittgenstein, que é um filósofo de que eu gosto muito, diz, quando está a pensar na filosofia dele, que é: deixem-nos ser mais humanos”, acrescentou.

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