Yusra Mardini: Imigrantes usados para “desviar a atenção” de problemas

Yusra Mardini: Imigrantes usados para

A embaixadora da Boa Vontade do ACNUR, a atleta olímpica Yusra Mardini, afirmou hoje que os refugiados são usados pelos governos europeus para “desviar a atenção de outras decisões” e defendeu uma maior liberdade de circulação.

© Andreas Rentz/Getty Images for GLAMOUR Germany


29/10/2026
por

Lusa

Yusra Mardini

A embaixadora da Boa Vontade do ACNUR, a atleta olímpica Yusra Mardini, afirmou hoje que os refugiados são usados pelos governos europeus para “desviar a atenção de outras decisões” e defendeu uma maior liberdade de circulação.

 

“São sempre os refugiados”, disse à Lusa a embaixadora da Boa Vontade do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), Yusra Mardini, natural da Síria e que também foi refugiada, defendendo que estas pessoas são as primeiras a ser culpadas pelos problemas internos dos países que as acolhem.

“Eles [refugiados] não vêm para roubar o vosso emprego, não vêm para roubar nada: só querem uma oportunidade para melhorar as suas vidas e querem ter uma vida simples e tranquila. Acho que temos de exigir mais responsabilidade aos nossos governos em relação a muitas coisas, e talvez [os refugiados] sejam uma forma de eles desviarem a atenção de outras decisões”, prosseguiu, em declarações à margem da 10.ª edição das Conferências do Estoril, evento que hoje começou no campus de Carcavelos da Nova SBE (Universidade NOVA de Lisboa).

A ativista e nadadora olímpica recomendou aos executivos europeus para concentrarem-se, sim, na integração e em “abordar os verdadeiros problemas das sociedades”.

Durante a sua intervenção no evento, Yusra Mardini recordou o seu surpreendente trajeto desde adolescente em Damasco, na Síria, de onde fugiu de uma devastadora guerra civil (2011-2024), até à Alemanha, onde cumpriu o seu sonho de competir nos Jogos Olímpicos.

Yusra Mardini ficou célebre quando, juntamente com a irmã, a também ativista Sarah Mardini, ajudou a salvar os 18 refugiados que tentavam atravessar o Mediterrâneo consigo, numa embarcação precária.

Ao atravessarem o mar Egeu, da Turquia para a Grécia, o motor da lancha superlotada avariou e Yusra, Sara e outros dois passageiros que sabiam nadar saltaram para a água e empurraram e puxaram o barco durante mais de três horas até chegarem à ilha grega de Lesbos, salvando todos os que estavam a bordo.

A viagem que Sarah e Yusra fizeram foi igual à de milhões de outros sírios que quiserem escapar à guerra civil e a história de ambas foi adaptada ao cinema em 2022, com o filme “The Swimmers”.

Na Síria, segundo a ONU, cerca de 1,7 milhões de refugiados e 1,9 milhões de deslocados internos regressaram às suas comunidades desde o fim da guerra em 2024.

No entanto, 5,5 milhões de pessoas permanecem deslocadas dentro da Síria e mais de seis milhões de refugiados sírios continuam no exterior.

Após dois Jogos Olímpicos, no Rio de Janeiro (2016) e em Tóquio (2020), Yusra procura agora integrar outros como ela, através da fundação que criou e de outras iniciativas humanitárias.

A ativista sublinhou que o seu trabalho, agora, passa sobretudo por demonstrar que refugiados são também pessoas e para informar sobre as razões pelas quais deixaram os seus países.

“Olhem para esta escola incrível onde estamos sentados neste momento. O que tem de especial? Há alunos de todo o mundo”, argumentou Yusra, que se tornou embaixadora da Boa Vontade do ACNUR quando tinha apenas 19 anos.

Yusra defendeu ainda que os refugiados deviam ter mais liberdade para circular.

“Agora que tenho o passaporte alemão, posso viver praticamente em qualquer lugar do mundo que quiser. Tenho liberdade para me deslocar, certo? Então, porque não damos essa liberdade aos refugiados que, na verdade, precisam de se deslocar por causa da guerra?”, questionou.

“Não acredito que a vida seja a preto e branco. Não acredito que sejamos todos bons ou todos maus”, continuou.

A atleta olímpica reiterou que o crucial é integrar as pessoas e defendeu que os Estados europeus devem encontrar mais maneiras de fazer os refugiados sentirem-se parte da sociedade.

“Para mim, a minha forma foi o desporto”, recordou.

O desporto “promove a união e acho que é essa a sua beleza: podemos integrar isso e pôr isso em prática. É isso que fazemos enquanto fundação na Alemanha. Temos projetos, e todos eles se unem, todos jogam juntos, e é incrível. Nunca tivemos qualquer problema”, disse, referindo-se à fundação que criou na Alemanha.

A Alemanha foi o país que mais recebeu refugiados que fugiam da guerra civil na Síria, sobretudo durante o Governo liderado pela chanceler Angela Merkel, que deixou o poder em 2021.

O atual chanceler, Friedrich Merz, tem endurecido a política de imigração da Alemanha, muito por pressão da AfD, o partido de extrema-direita que se tornou a principal força da oposição alemã e disputa a liderança política do país com a União Democrata-Cristã (CDU, centro-direita) do chanceler.