Rússia reforça presença em África, mas estratégia não passa por Angola

Rússia reforça presença em África, mas estratégia não passa por Angola

O investigador Rui Verde afirma que a Rússia está a reforçar a sua presença em África, mas a estratégia regional já não passa por Angola, mas sim por Moçambique e a República Democrática do Congo.

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04/11/2026
por

Lusa

O investigador Rui Verde diz que a Rússia está a reforçar a presença na África Austral, mas a estratégia já não passa por Angola, e sim por outras alternativas regionais, em particular Moçambique e a República Democrática do Congo.

 

Rui Verde publicou hoje na página do CEDESA, centro de estudos e pesquisa sobre Angola, uma análise sobre o reforço russo em Moçambique e na República Democrática do Congo (RDCongo), países que são também importantes para Angola, assente em iniciativas que tiveram lugar durante a III Cimeira Rússia-África, em Moscovo, a 28 e 29 de outubro.

Para o jurista esta cimeira “foi mais que um exercício simbólico de relações públicas do Kremlin”, traduzindo-se numa aceleração significativa da diplomacia russa na África Austral, em que se evidenciou o alinhamento crescente de Angola com os Estados Unidos, a União Europeia e as instituições ocidentais, enquanto a Rússia reconstrói influência ao longo do espaço estratégico que circunda Angola.

“O que emerge é um quadro de potencial cerco relativo de Angola face a uma recomposição regional onde Moscovo volta a ser um ator relevante”, considera.

Rui Verde destaca a presença em Moscovo do Presidente moçambicano, Daniel Chapo, visita que se traduziu no aprofundamento da cooperação nos setores da energia, mineração, agricultura, transportes, educação, ciência e tecnologias de informação, mas, mais importante ainda, na formação militar e no combate ao terrorismo em Cabo Delgado.

“O principal significado político da visita não reside apenas nos acordos económicos, mas na revitalização da parceria de segurança entre Moscovo e Maputo”, escreve Rui Verde, com Moscovo a ressurgir como parceiro militar relevante neste país, num momento em que se intensifica a competição entre potências externas pela influência no país.

Igualmente relevante é a convergência no setor energético, já que Moçambique se tornou um dos principais polos mundiais de gás natural e as autoridades moçambicanas têm vindo a manifestar interesse em aprofundar contactos com gigantes russos como a Gazprom, a Rosneft e a Novatek, assinala Rui Verde.

Moscovo recupera assim espaço num país que controla importantes corredores marítimos do Índico, possui enormes reservas de gás e constitui uma plataforma de projeção para toda a África Austral, diz o investigador.

Por outro lado, afirma, a RDCongo constitui um desenvolvimento mais significativo do ponto de vista angolano.

Durante a visita do Presidente Félix Tshisekedi a Moscovo, lê-se na análise, foram assinados três instrumentos de cooperação entre a RDCongo e a Rússia, na área da cooperação económica, comercial, científica e tecnológica e na área da saúde e educação, que institucionalizam uma parceria estratégica entre Moscovo e Kinshasa, onde a Rússia tinha uma presença relativamente limitada quando comparada com a China, os Estados Unidos ou a União Europeia.

Rui Verde afirma que a Presidência congolesa apresentou a visita como parte de uma estratégia deliberada de diversificação de alianças internacionais, mas apelou também explicitamente à Rússia para desempenhar um papel mais ativo na estabilização do leste do país.

“Isto representa uma mudança importante. Durante décadas, os principais interlocutores internacionais da RDC em matéria de segurança foram Angola, os Estados Unidos, a França, a Bélgica e as Nações Unidas”, refere o analista.

Já Angola, desde o início da guerra da Ucrânia procurou gradualmente distanciar-se da Rússia, enquanto aprofundava significativamente a cooperação com os Estados Unidos e a União Europeia, e o Corredor do Lobito tornou-se o símbolo máximo desta reorientação estratégica.

“A resposta russa parece agora passar pela construção de uma rede de relações em torno de Angola”, nota Rui Verde, frisando que Angola deixou de beneficiar da posição privilegiada que manteve durante décadas junto da Rússia, sobretudo durante a Guerra Fria, quando Angola foi talvez o principal aliado soviético em África.

Isto não significa que Angola esteja confrontada com uma ameaça direta ou com um isolamento diplomático imediato, mas, refere o académico, “a evolução da última semana demonstra que Moscovo está a desenvolver alternativas regionais”, em vez de depender de Angola como principal parceiro na África Austral.

A Rússia parece apostar numa estratégia de múltiplos pontos de apoio, em que Moçambique oferece gás, acesso ao Índico e cooperação militar, enquanto a RDCongo oferece minerais críticos, dimensão continental e centralidade geográfica.

Rui Verde conclui que a Rússia está a regressar à África Austral através de uma estratégia regional que já não passa por Angola.

“Até às eleições gerais de 2027, Angola já pouco mais fará em termos de política externa. A partir daí, terá que avaliar os seus caminhos internacionais e as suas alianças num mundo em rápido movimento”, sintetiza.

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Lusa | 16:11 – 04/11/2026

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