A Hungria abriu acesso aos arquivos da polícia política da era comunista, revelando nomes de 50 mil informadores e permitindo análise do passado repressivo do país.
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04/11/2026
por
Lusa
A Hungria abriu hoje o acesso aos arquivos da polícia política da era comunista, contendo nomes de dezenas de milhares de informadores, permitindo analisar o passado repressivo deste país do Pacto de Varsóvia controlado pela União Soviética.
“Ao fim de 36 anos, cumprimos finalmente uma das promessas fundamentais da mudança de regime de 1990, uma promessa que foi posteriormente renegada”, declarou o primeiro-ministro húngaro, Peter Magyar, de 45 anos, que derrotou o nacionalista Viktor Orbán nas eleições legislativas de abril.
Uma base de dados digitalizada, que contém os nomes e processos de entre 50 mil e 60 mil antigos informadores, foi disponibilizada ‘online’ num ‘site’ da Internet criado para o efeito, às 10:00 locais (09:00 de Lisboa).
“Mais vale tarde do que nunca. Temos agora acesso a muito mais informação do que antes sobre aqueles que as autoridades recrutaram”, disse o historiador Laszlo Eorsi, da fundação Instituto 1956, citado pela agência de notícias francesa AFP.
Uma segunda série de ficheiros, que fornece mais pormenores sobre cerca de 9.000 destes informadores, estará disponível em fevereiro — o tempo necessário para a remoção de determinadas informações, como a orientação sexual.
“Uma parcela significativa dos dossiês do final da década de 1970 e da década de 1980 está incompleta, principalmente porque estas pessoas ainda estavam ativas” no momento da transição democrática, explicou Bendeguz Gergo Cseh, o diretor dos arquivos.
Algumas figuras públicas — entre as quais autoridades políticas, membros do clero e personalidades televisivas — foram identificadas no registo.
No entanto, segundo Cseh, “grande parte” dos informadores eram provavelmente “pessoas que não tinham qualquer destaque na vida pública nacional, mas que trabalhavam como condutores de tratores, donos de bares ou tecelões”.
O Governo húngaro criará linhas de atendimento para fornecer apoio psicológico às pessoas afetadas.
“Após as revelações de hoje, um grande número de famílias terá de lidar com informações difíceis de suportar”, admitiu Peter Magyar, pedindo à população que receba estas informações com “dignidade e humanidade”.
A Hungria viveu, entre 1949 e 1989, sob um regime de partido único que reprimia qualquer dissidência.
Tal como noutros países do antigo bloco comunista, as autoridades recorriam a uma ampla rede de informadores para vigiar a população.
Estes indivíduos eram, muitas vezes, recrutados sob coação e encarregados de relatar qualquer sinal de deslealdade entre colegas, amigos e até mesmo nas suas próprias famílias.
Segundo as estimativas dos arquivos nacionais, a polícia secreta utilizou 150 mil informadores ao longo de quatro décadas; no entanto, apenas restam dados sobre cerca de um terço deles.
Crê-se que muitos dossiês tenham sido destruídos durante a revolta de 1956 ou por ocasião da queda do regime.
Este tema sensível tem gerado agitação na Hungria desde a queda do comunismo.
Em 2002, poucas semanas depois de ter assumido o poder, o primeiro-ministro socialista Peter Medgyessy viu-se numa situação comprometedora após a revelação de que tinha trabalhado como agente.
O caso desencadeou novos apelos para a transparência e, em 2003, o parlamento húngaro aprovou uma lei que permitia às pessoas que foram vigiadas descobrir quem tinha fornecido informações a seu respeito.
Quanto ao restante, o acesso aos dossiês ficou limitado a investigadores, mediante autorização.
Historiadores alertaram contra a tentação de julgar as pessoas apenas com base no facto de os seus nomes constarem de listas de informadores.
“Conheço vários casos em que uma pessoa foi recrutada, mas não forneceu informações e correu um enorme risco ao virar-se contra as autoridades”, observou Eorsi.
Prevê-se que a abertura dos dossiês “crie tensões nos próximos meses” na Hungria.

