O espaço de opinião de Sónia Soares Coelho, Psicóloga clínica, Psicoterapeuta e Psicanalista, reconhecida pela Ordem dos Psicólogos Portugueses, ao longo de mais de 30 anos de carreira.
© Rui Bandeira
12/10/2026
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Notícias ao Minuto
Em Agosto, escrevi aqui, na crónica “Estamos todos a ensaiar uma despedida“, que o país se preparava para perder o seu herói. Cristiano Ronaldo tinha dito, em Dallas, depois da eliminação frente à Espanha, que aquele seria o seu último Mundial, mas que precisava de tempo para pensar. Jorge Jesus, acabado de chegar a seleccionador, ia convocá-lo para a Liga das Nações. Escrevi que essa convocatória não seria apenas técnica, seria simbólica, e que qualquer decisão seria sentida, por alguém, como uma perda.
Seis semanas depois, a despedida pareceu chegar. Contudo, não como a tínhamos ensaiado.
A 27 de Setembro, na Noruega, Ronaldo ficou no banco. Portugal ganhou por 2-1. Dias depois, em Copenhaga, o seleccionador disse aos jornalistas que “o estatuto é uma coisa” e que “as regras são iguais para todos”. Pouco depois, Ronaldo anunciou nas redes sociais que deixava o estágio e prometeu, “a seu tempo”, dizer “a verdade a todos os portugueses”. No dia seguinte, sem ele, a selecção venceu a Dinamarca por 4-2. A 6 de Outubro, num comunicado, Ronaldo veio dizer que o seleccionador lhe tinha faltado à palavra, pediu desculpa aos adeptos, aceitou o castigo que lhe venha a ser aplicado e declarou-se disponível para voltar.
Como me é habitual, importa-me pouco saber quem tem razão sobre o que terá sido prometido. Também não sei o que Cristiano sente, nem o que pensa Jorge Jesus: como escrevi em Agosto, não podemos presumir o que se passa dentro de alguém que nunca escutámos. Todavia, os gestos públicos, uma conferência de imprensa, um estágio abandonado, um comunicado, também comunicam. Interessa-me o que eles nos dão a pensar, e sobretudo o que este momento desperta em nós, portugueses, e revela sobre a forma como nos relacionamos com os nossos heróis.
Iludir para poder desiludir
Donald Winnicott, pediatra e psicanalista inglês, descreveu uma tarefa que considerava essencial na relação entre a mãe e o bebé. No início, a mãe “suficientemente boa” adapta-se quase por completo às necessidades do filho. O seio aparece quando há fome, o colo quando há choro. O bebé vive, assim, a ilusão de que o mundo responde ao seu desejo, quase como se fosse ele a criá-lo.
Para Winnicott, é desta ilusão que nasce a nossa capacidade de nos relacionarmos com o mundo de forma criativa, e de sentir que a vida vale a pena ser vivida. Mas Winnicottacrescentava que, depois de oferecer a ilusão, a principal tarefa da mãe é, gradualmente, desiludir. Aos poucos, ela vai falhando um pouco mais: demora um minuto, depois dois, nem sempre adivinha. Inadvertidamente, claro. E a criança, que entretanto ganhou alguma capacidade para esperar, vai descobrindo que o mundo não é ela, e que existe para lá dela.
A desilusão faz crescer quando acontece ao ritmo daquilo que a criança consegue suportar. Quando é brusca, quando cai de uma vez, deixa de ser um caminho e passa a ser um choque. No consultório, vemo-lo muito: não é a desilusão que nos faz adoecer, é a desilusão sem tempo.
Um país também precisa de se desiludir
Durante mais de vinte anos, Ronaldo foi, para muitos portugueses, uma ilusão necessária: a prova de que um país pequeno podia ter o melhor do mundo. Ilusão no sentido de Winnicott, não no sentido de mentira. Ajudou gerações a sentirem-se maiores.
Ora, um país também precisa de se desiludir dos seus heróis. Não para os diminuir, mas para os poder ver como são: extraordinários e finitos, admiráveis e falíveis. É isso que permite guardá-los sem ficar preso a eles. Era esse o trabalho que, em Agosto, eu dizia que estávamos a fazer: um luto antecipatório, lento, que nos ia preparando.
Há, aliás, uma geração inteira para quem a selecção sempre existiu com Ronaldo. Crianças – portuguesas e estrangeiras – que festejaram golos a imitar o mesmo salto, com aquele nome nas costas, a proferir o mesmo grito. Para elas, o que está a acontecer não é só um episódio de uma carreira. É, muitas vezes, a primeira experiência de ver um ídolo deixar de ser perfeito. E a forma como os adultos à sua volta lidarem com isso – com raiva, com desprezo, ou com gratidão – vai ensinar-lhes alguma coisa sobre como se perde aquilo de que se gosta.
O que aconteceu em Copenhaga interrompeu esse trabalho. Até agora, não houve um último jogo, um estádio de pé, um adeus com tempo. Houve um banco, uma conferência de imprensa e uma publicação nas redes sociais. A desilusão, que estava a ser gradual, tornou-se brusca.
Quando a desilusão chega depressa demais
O que fazemos com uma desilusão que chega depressa demais? Muitas vezes, regressamos ao que descrevi na última crónica, “A culpa morre solteira”: dividimos o mundo em bons e maus. Uns estão com o capitão, maltratado por quem acabou de chegar. Outros estão com o seleccionador, que finalmente teve a coragem de impor regras. As duas posições aliviam, porque dispensam o mais difícil: aceitar que pode não haver um culpado, e que o que dói é, simplesmente, o fim que se aproxima.
O 4-2 à Dinamarca trouxe outra coisa. Para alguns, foi um alívio: afinal, a equipa sobrevive. Para outros, quase uma ofensa: como é possível ganhar sem ele? Porém, continuar sem ele não é deixar de gostar dele, não é traí-lo. Qualquer pessoa que já fez um luto conhece essa culpa de seguir em frente.
Sobreviver não é trair. É precisamente isso que a desilusão ensina: o mundo continua para lá do nosso desejo. E é isso que nos permite amar o que estamos a perder como algo real, fora de nós, e não apenas dentro da nossa ilusão.
Entre o fim e o regresso
Em Julho, ouvimos que era preciso tempo para pensar. Em Setembro, que a verdade viria “a seu tempo”. Agora, que há disponibilidade para voltar. Pela terceira vez, o fim fica suspenso. E o país oscila, como quem não sabe se deve despedir-se ou continuar à espera.
Talvez esta suspensão seja, afinal, uma oportunidade. Se Ronaldo voltar, não voltará o herói intocável de antes: Copenhaga já aconteceu, e a desilusão também. Mas pode ser-nos devolvida a despedida gradual que a pressa nos tirou. Para isso, o mais saudável não é escolher um lado. É fazer o trabalho que ficou por fazer: agradecer, recordar, e começar a imaginar a selecção que vem a seguir. Não porque o herói tenha deixado de importar, mas porque só conseguimos guardar, verdadeiramente, aquilo de que somos capazes de nos separar.

