A pior coisa que podes dizer quando o teu filho chora à porta da escola

A pior coisa que podes dizer quando o teu filho chora à porta da escola

Vera de Melo, psicóloga, escreve sobre a importância de reconhecer as emoções das crianças e como evitar dizer “não chores” quando elas choram à porta da escola.

© Shutterstock


11/09/2026
por

Notícias ao Minuto

“Não chores.”

 

É provavelmente uma das primeiras coisas que nos sai da boca quando vemos um filho agarrado às nossas pernas, a chorar porque não quer ficar na escola. E é compreensível. A criança chora, nós sofremos e o nosso cérebro entra imediatamente em modo de emergência: “Tenho de fazer isto parar.” Então dizemos “não chores, a mãe já volta”, “não tens motivos para estar triste”, “vais ver que vais gostar”, “olha para os outros meninos, eles também ficam”, “és um menino crescido”, “não precisas de chorar”. Dizemo-lo porque queremos tranquilizar. Porque queremos que o nosso filho fique bem. Porque custa demasiado vê-lo sofrer.

Mas há uma diferença importante entre acalmar uma criança e tentar impedir que ela sinta aquilo que está a sentir.

Quando uma criança entra na escola pela primeira vez, não está apenas a entrar num edifício. Está a separar-se, durante algumas horas, de uma das suas principais figuras de segurança. Há um espaço novo, pessoas novas, regras novas, uma rotina diferente e, sobretudo, uma experiência emocionalmente exigente: a mãe vai embora e eu fico.

Para um adulto, isto pode parecer simples. Para uma criança, nem sempre é.

Por isso, quando ela se agarra às pernas da mãe, chora e diz “vou ter saudades da mãe”, talvez não precise que lhe expliquemos que não há razão para estar triste. Talvez precise que reconheçamos aquilo que está a acontecer.

“Eu sei. Vais ter saudades minhas. E eu também vou ter saudades tuas.”

Só que depois podemos acrescentar uma coisa muito importante: “E podes ter saudades e ficar na escola.” Uma das aprendizagens emocionais mais importantes que podemos oferecer a uma criança é esta: podemos sentir uma emoção difícil sem precisarmos de fugir dela.

A emoção não tem de desaparecer para conseguirmos fazer aquilo que precisamos de fazer. E isto é muito diferente de dizer “não tenhas medo” ou “não chores”. Quando dizemos repetidamente a uma criança que não deve sentir aquilo que está a sentir, mesmo com a melhor das intenções, podemos transmitir-lhe uma mensagem que não queremos transmitir: “Esta emoção é demasiado difícil e precisamos de acabar com ela.”

Mas não é.

A saudade não é perigosa.

O choro não é perigoso.

A ansiedade, dentro de determinados níveis, também não é sinal de que alguma coisa esteja necessariamente errada.

São experiências emocionais que precisam de ser reconhecidas, reguladas e atravessadas.

Por isso, talvez a resposta mais importante não seja tentar convencer a criança de que não vai ter saudades. Porque vai. Talvez seja ajudá-la a descobrir que consegue sentir saudades sem que as saudades mandem nela.

“Eu sei que estás triste. É difícil despedirmo-nos. Podes chorar. Agora vais entrar com a professora, eu vou para o meu trabalho e volto depois do lanche. Mesmo com saudades, tu consegues ficar.”

Repara na diferença.

Não estamos a dizer à criança que não deve chorar, não estamos a dizer-lhe que não há motivo para estar triste, não estamos a prometer que vai ser tudo maravilhoso, estamos a dizer-lhe: “Eu vejo que isto é difícil e continuo a acreditar que és capaz.”

E esta confiança é fundamental. Uma criança não aprende apenas com aquilo que lhe dizemos. Aprende também com a forma como nós próprios lidamos com aquilo que ela sente. Se perante o choro ficamos desesperados, voltamos atrás, prolongamos a despedida, perguntamos várias vezes se quer mesmo ficar ou transmitimos uma enorme insegurança, a criança pode interpretar essa nossa reação como uma confirmação de que existe ali alguma coisa assustadora.

Não porque a mãe esteja a fazer alguma coisa errada.

Mas porque as crianças procuram nos adultos pistas para perceber se aquilo que estão a viver é seguro.

É por isso que, muitas vezes, uma despedida previsível, carinhosa e firme pode ajudar mais do que uma despedida interminável.

Um abraço.

“Eu sei que estás triste.”

“Eu volto depois do lanche.”

“Ficas com a professora.”

“Eu amo-te.”

E vamos.

Mesmo que ela chore. E esta é provavelmente a parte mais difícil para uma mãe.

Porque quando a filha está agarrada às suas pernas a chorar, tudo dentro dela quer ficar. Quer protegê-la. Quer evitar aquela dor. Quer dizer “está bem, hoje não precisas de ficar”. Mas crescer também é aprender, aos poucos e com o apoio dos adultos, que conseguimos fazer coisas que inicialmente nos parecem demasiado difíceis.

Por isso, se amanhã a tua filha se agarrar a ti e disser, entre lágrimas, “mãe, vou ter saudades tuas”, talvez não precises de lhe dizer “não chores”.

Baixa-te.

Olha para ela.

Abraça-a.

E diz:

“Eu sei, meu amor. Vais ter saudades. E eu também vou ter saudades tuas. Mas podemos ter saudades uma da outra e, mesmo assim, ficar. A mãe vai voltar. Tu estás segura. E eu acredito em ti.”

E depois despede-te.

Porque, às vezes, a maior prova de confiança que podemos dar a uma criança não é garantir-lhe que não vai ser difícil.

É mostrar-lhe que, mesmo quando é difícil, ela consegue.”

 

logo_nacloset_285_285_4k_webp2
Privacidade

Este site usa cookies para que possamos oferecer a melhor experiência de usuário possível. As informações dos cookies são armazenadas em seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.