Além da conformidade: Confiança e soberania digital são pilares do futuro

Além da conformidade: Confiança e soberania digital são pilares do futuro

Sérgio Barbedo, CEO & Country Director da Thales em Portugal, defende que a confiança e a soberania digital são pilares essenciais para o futuro da economia digital.

© Sérgio Barbedo


23/09/2026
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Notícias ao Minuto

“Durante anos, o setor tecnológico e corporativo encarou a cibersegurança essencialmente como uma corrida de velocidade, onde o objetivo principal era detetar, responder e corrigir ameaças com a maior rapidez possível. Contudo, a complexidade do atual panorama global exige que alarguemos a nossa perspetiva, afastando-nos de uma visão puramente reativa e de uma abordagem estritamente burocrática. Num ambiente profundamente marcado pela interdependência tecnológica, pela rápida evolução da inteligência artificial e por crescentes pressões geopolíticas, a segurança digital tem de evoluir. O verdadeiro alicerce da nossa economia, e a visão que impulsionamos diariamente enquanto parceiros estratégicos, baseia-se na construção de uma confiança digital sólida, sustentada por uma governação robusta e regras claras.

 

A confiança digital é hoje testada e, simultaneamente, redefinida pela revolução da inteligência artificial, uma ferramenta que se assumiu como indispensável para a defesa ao ser capaz de automatizar tarefas e antecipar padrões de ataque. No entanto, temos de reconhecer, com pragmatismo de liderança, que esse mesmo potencial tecnológico introduz riscos sem precedentes quando aplicado na deteção automatizada de vulnerabilidades, na geração de código ou na tomada de decisões críticas. A inteligência artificial não é, por si só, uma garantia de segurança infalível. Exige, de forma imperativa, rastreabilidade, supervisão humana contínua e controlos verificáveis que garantam o alinhamento com os mais elevados padrões éticos e operacionais.

Precisamente devido à emergência destes novos riscos, estamos a caminhar de forma acelerada para um cenário em que a deteção e a exploração de ameaças podem avançar a passos gigantescos. Se, num passado recente, as organizações dispunham de semanas ou meses para reagir a um incidente adverso, hoje essa janela temporal de atuação pode reduzir-se a dias, horas, ou até meros minutos. Para infraestruturas críticas, para o tecido empresarial corporativo e para a própria administração pública, a conclusão é evidente: não bastará apenas dispor de bons equipamentos. E imperativo garantir uma automação defensiva robusta, promover a partilha ágil de informações e aplicar patches muito mais dinâmicos.

Esta profunda aceleração traz consigo uma dimensão estratégica que transcende largamente a tecnologia. Num mundo globalizado em que as capacidades vitais nas áreas da cloud, da cibersegurança e da inteligência artificial se concentram num número reduzido de jurisdições e intervenientes, a soberania digital deixou de ser apenas uma aspiração política para se tornar uma necessidade operacional absoluta. A Europa, e Portugal no seu seio, não podem limitar-se a um papel passivo de regulamentação de tecnologias concebidas e desenvolvidas fora das suas fronteiras. Temos o dever histórico e o imperativo estratégico de reforçar a nossa capacidade de conceber, certificar, operar e proteger as soluções tecnológicas de acordo com os nossos próprios valores e interesses.

É à luz desta visão de liderança soberana que devemos reavaliar a forma como encaramos a conformidade e os referenciais europeus. Cumprir quadros normativos de excelência ou o Regulamento Europeu sobre IA, não deve ser entendido como um fardo burocrático ou um travão à inovação. Pelo contrário, a conformidade e a soberania não são conceitos separados; são o alicerce comum para construir uma verdadeira resiliência organizacional. A regulamentação define as regras do jogo e a normalização fornece o método rigoroso, mas é a tecnologia de excelência que permite a execução em escala, tornando a inovação fiável.

A questão central de hoje já não é saber se a IA vai transformar a cibersegurança, mas sim garantir que somos nós a gerir essa transformação com a rapidez, a responsabilidade e a ambição que o atual momento exige. É, em grande medida, nesta resposta firme que estará em jogo a confiança sobre a qual construiremos, de forma soberana e segura, a nossa economia digital de futuro.”

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