O chefe do Governo de Hong Kong pediu desculpas e a ministra da Habitação demitiu-se, após relatório apontar responsabilidade das autoridades no incêndio que fez 168 mortos num complexo residencial no ano passado.
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29/10/2026
por
Lusa
O chefe do Governo de Hong Kong pediu hoje desculpa e a ministra da Habitação demitiu-se, após divulgado um relatório apontando responsabilidade das autoridades no gigantesco incêndio que fez 168 mortos num complexo residencial, no ano passado.
A 26 de novembro de 2025, sete dos oito edifícios do mesmo condomínio arderam em Tai Po, no norte de Hong Kong, tornando o incêndio o mais mortífero num complexo habitacional no mundo desde 1980.
Desde então, surgiram exigências para que o Governo deste pequeno território chinês com um estatuto especial prestasse contas, e houve, inclusive, apelos para que o chefe do executivo, John Lee, se demitisse.
Hoje, numa conferência de imprensa por ocasião da divulgação do relatório da investigação, Lee inclinou-se e declarou estar “profundamente triste”.
“Gostaria de pedir desculpa aos moradores afetados e à população”, afirmou.
A ministra da Habitação da cidade, Winnie Ho, demitiu-se do cargo.
Ela tem de “assumir a responsabilidade política”, comentou Lee.
O relatório concluiu que quatro organismos governamentais “devem admitir parte da responsabilidade pelo elevado número de mortos”, em particular, o Departamento de Habitação de Hong Kong.
O incêndio resultou de “falhas e condutas deliberadamente reprováveis de vários indivíduos do setor privado”, sublinha-se no texto.
O documento denuncia ainda “décadas de falhas” por parte do Governo e dos organismos responsáveis pela construção, pela engenharia de segurança contra incêndios e pela gestão dos edifícios.
Desde março, mais de 30 audiências foram conduzidas por uma comissão de magistrados para determinar as causas do incêndio.
As audições mostraram que quase todas as medidas de segurança destinadas a salvar vidas em caso de incêndio falharam nesse dia “devido a erros humanos”, afirmou o procurador-geral Victor Dawes perante a comissão, estimando que a catástrofe “era evitável”.
Segundo o relatório, o incêndio foi provavelmente causado por “um cigarro, que ateou fogo a papéis”, antes de as chamas se propagarem.
Mais de 4.600 pessoas habitavam no complexo residencial Wang Fuk Court, mais de 1.700 das quais com 65 ou mais anos. Das 168 pessoas que morreram no incêndio, 114 pertenciam a esta faixa etária.
Em junho, as autoridades iniciaram processos judiciais, incluindo acusações de homicídio por negligência, contra sete indivíduos e duas empresas relacionados com o incêndio e pelo menos 35 pessoas foram detidas.
Hoje, o Governo afirmou que as entidades reguladoras foram “enganadas” pelos empreiteiros, que “são os principais culpados pelo incêndio e pelo elevado número de vítimas neste trágico incidente”.
Segundo o relatório, vários empreiteiros “não realizaram qualquer trabalho efetivo, só foram contratados para ceder os seus nomes e validar formulários regulamentares em troca de pagamento”.
Os procuradores acusam também as empresas de construção de terem utilizado materiais não-resistentes ao fogo para reduzir custos.
O Governo de Hong Kong propôs “reformas sistémicas” para evitar que acidentes semelhantes se repitam, como a criação de um crime específico para a manipulação fraudulenta de concursos — uma prática que, segundo John Lee, está “na origem dos problemas” relativos aos planos de manutenção dos edifícios.

