Christa Pike, condenada à morte no Tennessee, sobreviveu a duas injeções letais, algo considerado “sem precedentes” pelos seus advogados. Especialistas apontam falhas na colocação de vias intravenosas ou na qualidade do fármaco como possíveis causas.
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07/10/2026
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Notícias ao Minuto
Christa Pike, a norte-americana condenada à morte que sobreviveu a duas injeções letais no estado do Tennessee, está “consciente e a falar”, uma semana após a execução falhada. Mas como é que tal é possível?
As autoridades locais estão a investigar o que poderá ter corrido mal na execução da mulher de 50 anos, cuja recuperação foi descrita como “algo sem precedentes no ponto de vista médico” pelos seus advogados.
A agência de notícias The Associated Press (AP) analisou o caso e falou com vários especialistas médicos, que apontaram algumas possibilidades que podem explicar como é que Pike conseguiu sobreviver às duas injeções letais.
Uma das primeiras hipóteses é que apenas uma pequena quantidade do fármaco possa ter entrado na corrente sanguínea.
O doutor Jonathan I. Groner, antigo cirurgião pediátrico geral da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual do Ohio, que estudou as injeções letais, explicou que a dose de 5 gramas de pentobarbital utilizada nas execuções é muitas vezes superior à quantidade necessária para colocar uma pessoa em coma médico e que “o facto de ela ter acordado, por um lado, significa que entrou realmente muito pouco fármaco no seu organismo”.
“Portanto, isso é bastante chocante”, afirmou Groner. “Mostra o quão mal executaram a execução.”
O médico explicou ainda que, em doses elevadas, o pentobarbital deveria provocar perda de consciência, paragem da respiração e, posteriormente, paragem cardíaca.
Neste sentido, Groner considerou que a via intravenosa pode ter sido colocada incorretamente, ou que as veias de Pike podem ter sido frágeis e rompido, fazendo com que o fármaco se infiltrasse nos tecidos circundantes em vez de entrar na corrente sanguínea.
Outra hipótese poderá estar relacionada com a qualidade do fármaco, segundo apontou Michaela Almgren, farmacêutica e professora da Carolina do Sul, que prestou consultoria em vários processos relacionados com injeções letais.
À AP, a profissional explicou que muitas das principais empresas farmacêuticas recusam fornecer medicamentos para injeções letais, levantando questões sobre a forma como os estados norte-americanos os obtêm.
Para Almgren, o facto de o estado do Tennessee não divulgar o nome do seu fornecedor de fármacos, nem de onde veio o medicamento usado na execução de Christa Pike, dificulta a possibilidade de determinar se o fármaco foi preparado, testado, armazenado e administrado corretamente.
Já Michael Baden, antigo médico-legista-chefe da cidade de Nova Iorque, considerou que o tratamento hospitalar após as duas injeções letais poderá ter contribuído para a eliminação do fármaco do organismo.
Quando Pike chegou ao hospital, menos de duas horas após ter sido administrada a primeira dose, os médicos terão provavelmente tentado estabilizar a sua respiração, verificar a quantidade de pentobarbital presente no organismo e trabalhar para o eliminar rapidamente.
Os médicos poderão também ter tido de lidar com lesões musculares, tanto provocadas pelos efeitos do pentobarbital como pelo facto de parte do fármaco poder ter entrado no tecido muscular junto ao local da injeção.
Christa Pike mexeu-se após administração das duas doses letais
Christa Pike era a única mulher no corredor da morte no estado norte-americano do Tennessee e sobreviveu às duas doses letais de pentobarbital administradas durante a execução, no dia 30 de setembro.
Pike permaneceu acordada, falou e cantou com o guia espiritual, após o início da administração do fármaco e, após a primeira dose, continuou a mover-se e a respirar de forma audível.
Segundo testemunhas, Pike estava viva e a fazer barulhos mesmo depois da segunda tentativa de injeção letal, tendo sido transportada de ambulância da prisão.
O Departamento de Correções do Tennessee afirmou, num comunicado, que “seguiu todas as etapas do protocolo legal e estabelecido para execuções, aprovado pelo Gabinete do Procurador-Geral”.
Este protocolo determina que um segundo conjunto de seringas com medicamentos seja administrado “se o recluso não estiver morto” após o primeiro conjunto. O protocolo não especifica o que deve acontecer se a pessoa continuar viva depois da segunda dose.
Após o incidente, o governador do estado do Tennessee (EUA), Bill Lee, anunciou uma suspensão temporária das execuções previstas para 2026.
Condenada a pena de morte por crime cometido em 1995
Pike foi condenada à pena de morte pelo homicídio de Colleen Slemmer, uma colega de 19 anos do programa de formação profissional Job Corps, em Knoxville, em 1995.
Slemmer foi esfaqueada e espancada até à morte por Pike e o namorado, colega de ambas na mesma instituição. O caso tornou-se um dos mais mediáticos da altura nos Estados Unidos, sobretudo devido ao facto de o casal ter gravado um pentagrama – um símbolo associado a Satanás – no corpo da vítima.
Segundo a acusação, Pike receava que Slemmer estaria a tentar roubar-lhe o namorado e, por isso, atraiu-a para uma zona arborizada a 12 de janeiro de 1995, onde a esfaqueou com um x-ato e a agrediu com um pedaço de asfalto. Tadaryl Shipp, o namorado de Pike, admitiu ter sido responsável por gravar o pentagrama.
A mulher foi condenada à pena de morte em março de 1996, enquanto o namorado recebeu uma pena de prisão perpétua, com possibilidade de liberdade condicional, por ser menor de idade na altura em que ocorreu o crime.

