O empresário de futebol Jorge Mendes defendeu na sexta-feira que o talento dos atletas precisa de oportunidades e deu o exemplo do médio português Bernardo Silva, revelando as desconfianças que ouviu sobre o jogador, agora no Real de Madrid.
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31/10/2026
por
Lusa
“Disseram-me várias vezes: ‘Jorge, esquece, não tens hipótese nenhuma. O Bernardo Silva nunca irá ser um jogador importante’. O máximo que poderia atingir seria jogar numa primeira ou segunda divisão, no máximo no Paços de Ferreira”, recordou.
O agente FIFA partilhou algumas histórias de atletas com quem trabalhou durante a conferência ‘Leading the Game’, realizada na Universidade Católica, no Porto, recuperando o percurso, por exemplo, de Bernardo Silva, para demonstrar como as avaliações feitas durante a formação podem falhar.
Mendes contou que, mesmo depois da transferência do Benfica para o Mónaco, teve de intervir junto da direção do clube francês para garantir a continuidade do médio.
“Não quiseram ficar com ele após o primeiro ano. Tive de falar com o presidente, tive de o convencer. Disse-lhe: ‘Está a cometer um erro, porque é um grande jogador'”, relatou, considerando que Bernardo Silva viria a demonstrar ser um dos melhores médios do mundo.
O empresário defendeu que o talento, isoladamente, não garante uma carreira de sucesso, atribuindo particular importância ao profissionalismo, à determinação e à capacidade de trabalho.
“Se compararmos um jogador com muito talento e outro com menos talento, mas que seja um grande profissional e trabalhe com muito empenho e determinação, esse jogador vai sempre chegar mais longe”, sustentou.
Outro exemplo apresentado foi o do ex-internacional português Deco, que Mendes descobriu num encontro entre Espinho e Alverca e cujo potencial considerou imediatamente superior ao nível competitivo em que se encontrava.
“Falei com o Benfica e disse que este jogador era completamente diferente de todos os outros, mas disseram-me que não estavam interessados”, recordou.
Perante a falta de interesse dos ‘encarnados’, levou o médio para o Salgueiros e procurou convencer Pinto da Costa a contratá-lo para o FC Porto, chegando a preparar vídeos com jogadas do futebolista.
Segundo Mendes, Fernando Santos, então treinador dos ‘dragões’, preferia Duda, do Boavista, mas Pinto da Costa acabou por optar por Deco, que se tornaria uma das figuras da conquista da Liga dos Campeões, em 2004.
“Para mim, foi o melhor jogador da história do FC Porto. Merecia ter ganho a Bola de Ouro em 2004”, afirmou.
O empresário mencionou ainda o caso de João Félix quando este ainda jogava no FC Porto, explicando como aconteceu a transferência para o Benfica.
“O Benfica interessou-se pelo irmão [Hugo Félix] e contratou-o. O pai mostrou preocupação por o João ter ficado no FC Porto e o irmão ter ido para o Benfica e levaram o João Félix quase por favor”, revelou.
Para Mendes, casos como estes demonstram que existem futebolistas nas camadas jovens ou nas divisões secundárias com capacidade para atingir o mais alto nível, mas sem acesso às oportunidades necessárias.
“Podemos encontrar jogadores com muito talento na terceira ou na segunda divisão. O problema é que muitas vezes não têm alguém que lhes possa dar uma oportunidade”, salientou.
Jorge Mendes considerou “que o talento é muito importante, mas que só isso não chega”, apontando outras características.
“Mais de 80% dos jogadores que transferi não eram os jogadores mais importantes dos respetivos clubes”.
O agente concluiu que, embora o acompanhamento seja importante, cabe também aos jogadores assumir responsabilidades e superar as dificuldades para concretizarem o seu potencial.

