A Cidade Velha de Jerusalém é um espelho das profundas divisões em Israel antes de uma eleição altamente incerta, entre o apoio à política de força do primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, e a mudança representada pelo opositor Gadi Eisenkot.
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24/10/2026
por
Lusa
A Cidade Velha de Jerusalém é um espelho das profundas divisões em Israel antes de uma eleição altamente incerta, entre o apoio à política de força do primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, e a mudança representada pelo opositor Gadi Eisenkot.
Quando as últimas sondagens para as legislativas de 27 de outubro continuam sem identificar um vencedor provável, os dois principais candidatos partilham o problema de não reunirem apoios suficientes, através de alianças pós-eleitorais com as forças pró-governamentais ou o chamado bloco da mudança, para controlar os 120 lugares do Knesset (parlamento).
Entre vagas de turistas e fiéis que visitam os lugares sagrados das principais religiões monoteístas, a campanha eleitoral apresenta-se discreta dentro dos muros da Cidade Velha, mas não ausente.
No bairro judeu, partidos ultraortodoxos exibem cartazes nos telhados e nas varandas, reclamando o caráter religioso do Estado como um valor fundamental, um tema que divide os israelitas laicos, tal como o fim da isenção militar para a comunidade Haredim, que representa 14% da população.
Também são visíveis cartazes a pedir que “tornem a Palestina judaica de novo”, uma adaptação sem assinatura partidária do movimento MAGA dos Estados Unidos, mas que traduz o pensamento dos partidos de extrema-direita na atual coligação governamental, em particular o Otzma Yehudit, do ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, e o Sionistmo Religioso, do seu colega das Finanças, Bezalel Smotrich.
A ‘jogar em casa’ em Jerusalém, os apoiantes ultranacionalistas exibem-se nas estações de elétrico junto da Cidade da Velha e de imagens dos seus líderes, dominadas pelas cores da bandeira nacional, mais a sua agenda radical. Um cartaz de Ben-Gvir causou grande controvérsia ao apresentar o político e a frase “Israel é forte”, mas também dois prisioneiros palestinianos ajoelhados e algemados.
Os recintos sagrados foram sacudidos pelos ecos das notícias dos territórios ocupados, quando dois soldados israelitas e dois palestinianos foram mortos na sexta-feira, durante uma grande operação em Hebron, no sul da Cisjordânia, incluindo buscas e a demolição de edifícios, justificada para “localizar e desmantelar instalações terroristas” e com a duração de vários dias.
Na contagem decrescente para as eleições decisivas, em que tenta contrariar sondagens desfavoráveis e conservar o poder, Netanyahu anunciou outra operação em grande escala na Cisjordânia, “como não se vê desde a Guerra dos Seis Dias”, em 1967, sem precisar datas mas que “está a caminho”, enquanto Smotrich pedia uma campanha militar no território “como em Gaza”.
O primeiro-ministro e líder do partido Likud, que tem baseado a sua mensagem na proteção dos israelitas e projeção da força do país no Médio Oriente desde os ataques liderados pelo Hamas em 07 de outubro de 2023, avisou também os seus cidadãos para se prepararem para sanções internacionais, reconhecendo uma pressão crescente do seu principal aliado, Estados Unidos, devido à violência na Cisjordânia.
A oposição, que critica justamente a tensão criada com Washington, dirigiu de imediato uma bateria de críticas ao líder israelita, apesar de, na generalidade, nenhum dos seus principais dirigentes defender uma rutura na política de segurança.
Na quinta-feira, Gadi Eisenkot, um ex-general que em 2025 fundou o partido Yashar! e em menos de um ano saltou para o topo das sondagens, visitou o Muro das Lamentações, sob alta proteção num terreno mais favorável ao seu adversário, e teve uma receção mista, refletindo a profunda divisão do país.
“Salve-nos, estamos à sua espera”, gritavam apoiantes na Cidade Velha, enquanto outros cantavam “Bibi, rei de Israel”, em referência à alcunha de infância do chefe do Governo e seu longo percurso no poder.
Passeando um dos seus três filhos nas ruas apertadas do bairro judaico num dia de verão tardio, um eleitor gostaria de reunir o melhor dos dois mundos.
“Preferia que houvesse uma mudança de governo e é isso que me parece mais provável. Mas gostaria que fosse o mais sionista possível, que procurasse também a igualdade entre judeus e árabes e a paz e a segurança para todos”, comenta o israelita de 37 anos, que se idêntica apenas como Benny à agência Lusa.
Para este residente na região norte, a memória do 07 de Outubro continua bem presente, na medida em que “aconteceu algo muito grave” naquela manhã de 2023, que custou 1.200 mortos e 251 reféns, “e muitas coisas más continuam a acontecer e exigem responsabilidades”, aludindo a uma comissão de investigação independente reclamada pela oposição e até agora recusada por Netanyahu.
“Responsabilidade e culpa não são exatamente a mesma coisa. O chefe das Forças de Defesa de Israel já se demitiu. Então, esse é o papel do primeiro-ministro”, observa.
Por outro lado, Benny depara-se com o dilema que se coloca a cerca de sete milhões de eleitores, ao reconhecer que a defesa dos israelitas “é a competência principal” do Governo face às ameaças do Hamas na Faixa de Gaza e do grupo xiita Hezbollah no Líbano, ambos apoiados pelo Irão, em oposição aos anseios de paz.
“São organizações militares que juraram dedicar-se a matar a minha família e parece-me razoável continuar a atacá-los até que se desarmem. Rezo sinceramente para que o façam”, acrescenta.
Do mesmo modo, não tem “qualquer problema” em aceitar que os partidos árabes integrem um futuro governo, num momento em que as sondagens indicam um bloqueio pós-eleitoral que pode ser desempatado pelas duas forças árabes, Lista Conjunta e Ra’am, em representação de 21% da população.
No entanto, e embora não goste da ideia de partidos exclusivamente árabes ou judeus, Benny destaca “diferenças importantes” entre os dois grupos políticos, referindo que alguns partidos na Lista Conjunta defendem que “Israel não deveria existir e isso é inaceitável”, ao passo que vê no Ra’am uma moderação que “não constitui um problema”.
Como em tantos lugares do país, a porta de Jaffa da Cidade Velha mantém centenas de imagens de antigos reféns das milícias palestinianas e soldados caídos na Faixa de Gaza.
Há pouco mais de um ano, grandes manifestações preenchiam a praça dos Reféns em Telavive a exigir o resgate dos israelitas cativos no enclave palestiniano e o fim da guerra, tal como junto à residência de Netanyahu, ironicamente situada na rua de Gaza, em Jerusalém.
O cessar-fogo alcançado em 10 de outubro de 2025, que implicou a troca dos últimos reféns (20 vivos e 28 mortos) por quase dois mil prisioneiros palestinianos, não trouxe a fim do conflito e adicionou desde então cerca de 1.400 mortos, segundo as autoridades do território, aos mais de 70 mil nos últimos três anos em ataques israelitas.
A ofensiva israelo-americana contra o Irão, em 28 de fevereiro, reacendeu pelo seu lado a guerra com o Hezbollah, enquanto se acumulavam denúncias de uma vertiginosa escalada de violência na Cisjordânia ocupada e perseguições aos palestinianos em Jerusalém Oriental.
Marwan coleciona numerosos episódios de provocação na sua loja de lembranças no bairro árabe da Cidade Velha, que atingiram um pico máximo num comerciante vizinho atingido a tiro nas pernas depois de ser confrontado com um mapa a apontar a localização da Palestina. Trata-se do mesmo tipo de pessoas que invadem o complexo de al-Aqsa durante as orações islâmicas, incluindo líderes de extrema-direita.
“Isto está perigoso para toda a gente”, alerta Marwan, lembrando que “estas coisas não deviam acontecer na Terra Santa”, ao contribuir para o desaparecimento dos turistas, na soma dos efeitos da pandemia de covid-19 e o aumento da violência desde 2023.
Das duas lojas que possuía, uma já vendeu e a atual só mantém para alimentar a família de cinco filhos, à custa das poupanças reunidas durante 30 anos, porque agora “só há prejuízos”, que levaram a que pelo menos outros 12 negócios tenham fechado na mesma rua.
“Se o Governo do povo de Israel precisar de estabelecer a paz e atrair turistas, nós tratamos disso e todos ficam felizes”, apela o comerciante árabe, referindo-se às próximas eleições.
A partir de 27 de outubro, espera pelo menos algo melhor do que os danos em toda a linha dos últimos anos e tornar um pouco mais verdadeira a persuasão que usa para vender os seus camelos de peluche: “Comprem, só gastam o dinheiro uma vez: Depois, já não precisam de água nem comida”.

