Estados Unidos retiram Damasco da lista de apoiantes de terrorismo

Estados Unidos retiram Damasco da lista de apoiantes de terrorismo

Os Estados Unidos (EUA) vão retirar a Síria da lista de países patrocinadores do terrorismo, na qual figurava há 47 anos, marcando um novo passo no levantamento gradual das sanções a Damasco, anunciou hoje a administração norte-americana.

© Reuters


24/08/2026
por

Lusa

O executivo de Washington tinha indicado no início de julho a intenção de retirar a Síria daquela lista, que até então restringia o investimento no país e os esforços de reconstrução após a queda do regime de Bashar al-Assad, em dezembro de 2024, pondo fim a quase 14 anos de uma devastadora guerra civil.

 

A decisão é conhecida após ter expirado, na passada sexta-feira, o prazo de 45 dias de revisão pelo Congresso do pedido de remoção de Damasco, solicitada em julho pela administração republicana norte-americana liderada por Donald Trump.

A Síria figurava na lista desde 1979, ao lado de Cuba, Irão e Coreia do Norte, que se mantêm.

O Presidente norte-americano partilhou uma mensagem nas redes sociais, assinada pelo ministro dos Negócios Estrangeiros sírio, Asaad al-Shaibani, a celebrar a medida.

“Encerrámos um capítulo negro da história da Síria com o fim desta classificação imposta pelas políticas do antigo regime de 1979”, declarou al-Shaibani na mensagem.

Os países incluídos na lista estão proibidos de receber ajuda dos Estados Unidos, comprar armamento norte-americano e de importar determinados bens e tecnologias.

A diplomacia síria destacou recentemente que a remoção da designação de país patrocinador de terrorismo, associada ao levantamento de sanções, “apoiará a recuperação económica, criará condições necessárias para os esforços de reconstrução e promoverá o comércio e o investimento de uma forma que sirva os interesses do povo sírio e contribua para a segurança e estabilidade regional”.

Numa primeira reação, o governador do banco central da Síria, Safwat Raslan, recebeu na rede social X a medida como “um “passo histórico que permite ao país recuperar o seu lugar natural dentro do sistema económico global”, acrescentando que está a trabalhar para “construir um sistema financeiro moderno e fiável”.

Donald Trump tem sido um dos principais apoiantes das autoridades estabelecidas após a queda do regime de Bashar al-Assad, na sequência de uma ofensiva de jihadistas e rebeldes liderados pelo atual Presidente de transição, Ahmad al-Sharaa.

As sanções relacionadas com a designação de país patrocinador de terrorismo foram quase completamente removidas, declararam hoje os departamentos de Estado e do Tesouro, na sequência do fim do prazo de avaliação do Congresso.

“O Tesouro está a cumprir a promessa do Presidente Trump de dar ao povo sírio uma oportunidade de grandeza”, comentou o secretário do Tesouro, Scott Bessent, em comunicado, acrescentando que “a ação de hoje ajudará a fomentar investimentos adicionais na Síria para promover a estabilidade política e económica”.

Os Estados Unidos também retiraram a Organização para a Libertação do Levante (Hayat Tahrir al-Sham, HTS), anteriormente conhecida como Frente al-Nusra, o antigo grupo islamita liderado por Ahmad al-Sharaa, da lista de Organizações Terroristas Globais Especialmente Designadas.

Outrora afiliada da Al-Qaida na Síria, a Frente al-Nusra anunciou o corte dos seus laços com a organização terrorista em 2016 e mudou o seu nome para HTS, liderando a coligação rebelde que depôs o regime de al-Assad. Acabou por ser dissolvida pelas novas autoridades de Damasco, tal como todos os grupos armados não estatais.

Também hoje, o Departamento do Tesouro dos EUA removeu o HTS da sua Lista de Pessoas e Entidades Sujeitas a Sanções, de acordo com um comunicado.

Desde 2025, vários países ocidentais têm seguido o exemplo dos Estados Unidos e eliminado gradualmente as sanções impostas à Síria, incluindo o Canadá e o Reino Unido.

A União Europeia suspendeu as suas sanções logo em maio de 2025 e, em novembro do mesmo ano, o Conselho de Segurança da ONU aprovou uma resolução solicitada pela representação norte-americana a eliminar as restrições impostas a Damasco.

Na mesma altura, al-Sharaa reuniu-se com Donald Trump em Washington, tornando-se no primeiro líder sírio a visitar a Casa Branca, e assinou a adesão do seu país à Coligação Global para a Derrota do Estado Islâmico.

As medidas hoje anunciadas para a Síria e HTS surgem numa fase de tensão entre Damasco e Telavive, após um bombardeamento israelita, na passada terça-feira, contra uma base aérea síria, sob pretexto da presença de uma delegação turca no local, entretanto desmentida por Ancara.

Israel procurou também rebater declarações do enviado norte-americano para a Síria, Tom Barrack, que associou o bombardeamento da base aérea a uma postura eleitoralista do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, a dois meses das legislativas no seu país, e criticou uma “escalada desnecessária que não favorece de modo algum a estabilidade regional”.

Além disso, Barrack sugeriu que a ocupação israelita nos Montes Golã “contraria as resoluções da ONU e toda a ordem internacional”, que consideram que a região pertence à Síria, gerando mais protestos e avisos de Telavive de que as declarações do enviado norte-americano contradizem a política de Trump para a região.

Após sucessivos pronunciamentos de al-Sharaa sobre a necessidade de normalização de relações com Israel, a Síria confirmou no domingo conversações com representante de Telavive na Jordânia, com patrocínio de Washington.

Segundo vários relatos na imprensa internacional e israelita, a reunião foi protagonizada pelo chefe do serviço de informações externas de Israel (Mossad) e o chefe da diplomacia de Damasco.

A Síria e a generalidade do mundo árabe têm expressado condenação à presença militar de Israel no sul do país vizinho desde a queda al-Assad, altura em que as forças israelitas bombardearam centenas de alvos do exército de anterior regime.

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