Há 90 milhões de deslocados em risco face a mudanças do clima

Há 90 milhões de deslocados em risco face a mudanças do clima

A ACNUR alertou para os riscos enfrentados por 90 milhões de deslocados em países com exposição elevada às alterações climáticas, num relatório divulgado antes da COP31.

© Guillaume Lambin / Hans Lucas / AFP via Getty Images


05/11/2026
por

Lusa

A agência da ONU para os Refugiados alertou hoje para os graves riscos enfrentados por 90 milhões de deslocados que vivem em países com uma exposição elevada ou extrema às alterações do clima.

 

Num relatório divulgado quatro dias antes do início da Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP31), que irá decorrer até dia 20 em Antalya, na Turquia, o Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (ACNUR) sublinha que três em cada quatro pessoas deslocadas à força no mundo vivem em países onde há secas severas, inundações mortais e calor extremo.

Segundo a organização é preciso adotar “ações urgentes para proteger milhões de refugiados e outras pessoas deslocadas até porque o recursos financeiros para iniciativas de mitigação (redução de emissões de gases com efeito de estufa) e de adaptação (resiliência face aos impactos das alterações climáticas não estão a chegar a muitas das comunidades mais vulneráveis.

“Os refugiados enfrentam uma dupla injustiça. Forçados a fugir de conflitos que não causaram, estão agora na linha da frente de uma crise climática para a qual contribuíram muito pouco”, sublinha o alto-comissário adjunto de Operações do ACNUR, Antón Leis García, citado no relatório.

“Para milhões de pessoas, as alterações climáticas não são uma ameaça distante. Estão a destruir abrigos, a prejudicar os meios de subsistência e a pôr em perigo as suas esperanças de reconstruir as suas vidas. Não podemos permitir que aqueles que já perderam tanto sejam deixados para trás na ação climática global”, defende.

O documento alerta ainda para a ameaça crescente que as alterações climáticas constituem para a perspetiva de soluções duradouras das pessoas deslocadas.

“Mais de dois terços dos refugiados que voltaram a casa durante o primeiro semestre de 2026 regressaram a países altamente vulneráveis ​​a desastres climáticos, aumentando as preocupações sobre a sustentabilidade dos seus regressos”, avança o ACNUR, dando como exemplo a Síria.

Os quase 4 milhões de deslocados que regressaram recentemente ao país depararam-se com o declínio das águas subterrâneas e com inundações ao longo do rio Eufrates que danificaram casas e deslocaram milhares de pessoas mais uma vez, recorda a agência da ONU, referindo que o calor extremo também é uma ameaça crescente.

“Até 2050, um em cada três campos de refugiados na África subsariana poderá enfrentar pelo menos 100 dias de calor perigoso por ano”, avisa.

Mais de metade de todos os locais avaliados “poderão sofrer pelo menos 50 dias adicionais de calor perigoso anualmente” e, em alguns pontos da Etiópia, essa condição pode persistir mais de 200 dias por ano, refere o relatório.

Na última década, segundo o mesmo documento, os desastres relacionados com o clima já provocaram mais de 255 milhões de deslocações internas em todo o mundo, o equivalente a cerca de 70.000 por dia, mas o financiamento continua a ser insuficiente.

“Os países frágeis e afetados por conflitos recebem apenas cerca de 10% do financiamento climático global, embora muitos abriguem grandes populações de refugiados e deslocados internos e enfrentem graves impactos climáticos”, lamenta o ACNUR, defendendo a urgência de um maior investimento na adaptação climática, incluindo em áreas de retorno.

A situação será destacada na COP31, promete o ACNUR, que adianta querer pedir a governos e instituições de financiamento climático para que incluam refugiados e deslocados internos nos planos nacionais e aprovem maiores investimentos para adaptação a longo prazo em áreas frágeis e afetadas por deslocações.

“Uma vez que a Turquia, um dos maiores países de acolhimento de refugiados do mundo, irá acolher a COP31, a conferência oferece uma importante oportunidade para inserir a deslocação e as necessidades das comunidades de acolhimento firmemente na ação climática global”, considera Leis García.

A conferência “deve ser um ponto de viragem”, concluiu.

Violência armada em Moçambique provocou 1,3 milhões de deslocados

Cerca de 1,3 milhões de pessoas foram deslocadas internamente em Moçambique desde 2017 devido à insurgência armada no norte, que provocou ainda mais de 26 mil novos deslocados no primeiro semestre deste ano, divulgou hoje o ACNUR.

Lusa | 10:26 – 30/10/2026

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