O escritor Benjamin Moser considera que a violência israelita contra os palestinianos resulta do projeto sionista de colonização iniciado no século XIX e acusa os partidos israelitas de competirem para decidir quem será o “dono do campo de concentração”.
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08/11/2026
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Lusa
O escritor Benjamin Moser considera que a violência israelita contra os palestinianos resulta do projeto sionista de colonização iniciado no século XIX e acusa os partidos israelitas de competirem para decidir quem será o “dono do campo de concentração”.
Em entrevista à agência Lusa, a propósito da publicação em Portugal de “Antissionismo – Uma História Judaica”, editado pela Penguin, o escritor judeu norte-americano considerou que não existe uma verdadeira oposição política em Israel, acusando os principais partidos de partilharem posições favoráveis à supremacia judaica, à violência contra os palestinianos e à confrontação militar com o Irão.
“Eles estão competindo para ver quem vai levar o genocídio a cabo de maneira mais eficiente. Quem que vai ser o dono do campo de concentração”, afirmou o escritor, distinguido com o Prémio Pulitzer de Biografia em 2020.
Para Moser, as políticas do Governo de Benjamin Netanyahu, a expansão dos colonatos na Cisjordânia e a ofensiva militar na Faixa de Gaza não representam um desvio do projeto sionista, mas a continuação de uma política cujas origens remontam ao final do século XIX.
“Não é novo. Nada que vemos hoje é novo”, afirmou, considerando que a violência se tornou mais extrema porque os dirigentes israelitas estão “desesperados” e perderam a simpatia da opinião pública internacional.
O escritor estabelece uma ligação direta entre as políticas israelitas atuais e o pensamento de Theodor Herzl, autor de “O Estado dos Judeus”, publicado em 1896 e considerado uma das obras fundadoras do sionismo político moderno.
Benjamin Moser contou que o avô, quando fugiu da Alemanha nazi, levou consigo um único livro, os escritos de Herzl.
O próprio escritor só viria a ler esse “manifesto” muitos anos depois e ficou surpreendido sobretudo com a indiferença perante a população que já habitava o território onde pretendia estabelecer-se um Estado judaico.
“A indiferença dele para com os palestinos, ele quase não menciona que é um país que inteiramente, como Portugal, é um país que tem gente”, afirmou.
“O que vão fazer com essa gente? É uma indiferença”, acrescentou, considerando que essa atitude permanece presente na política israelita.
Para Benjamin Moser, a ocupação de territórios palestinianos e a apropriação de propriedades na Cisjordânia constituem exemplos de uma prática que atravessa várias gerações e não começou com o atual Governo israelita.
O escritor remeteu para o capítulo do livro dedicado à advogada israelita Felicia Langer, que documentou a ocupação de habitações palestinianas e a proteção concedida pelo exército aos colonos.
“Ela descreve exatamente o processo de colonização da Cisjordânia e como eles foram, quarto por quarto, apartamento por apartamento, casa por casa, tomando posse de bens”, afirmou, acrescentando que “isso é um processo que hoje vemos, mas é muito importante saber que esse processo tem cem anos de roubo”.
Na sua perspetiva, o agravamento da repressão israelita encontra paralelo nos últimos anos do regime de ‘apartheid’ na África do Sul, quando a violência se intensificou perante a possibilidade de perda do poder.
“O ‘apartheid’ nunca foi tão violento quanto pouco antes de perder o poder”, afirmou o autor, recordando as intervenções militares sul-africanas em países vizinhos.
Benjamin Moser considera que Israel está a seguir uma estratégia semelhante, multiplicando as operações militares numa tentativa de preservar um sistema político que está a perder apoio internacional.
“Se a violência fosse a solução, com a violência que têm empregado até hoje, já teriam resolvido o problema”, declarou.
O escritor estabeleceu também paralelos com as guerras coloniais, recordando que a superioridade militar não impediu a independência da Argélia face à França ou das antigas colónias portuguesas.
Na sua opinião, o ataque do Hamas de 07 de outubro de 2023 foi utilizado como pretexto para intensificar uma política que já existia: “Antes do 07 de outubro, havia o 06 de outubro. E antes do 06 de outubro, havia um século de ataque, de agressão, de limpeza étnica, de roubo”.
Benjamin Moser considera ainda que o serviço militar em Israel contribui para perpetuar a violência contra os palestinianos, ao envolver sucessivas gerações de jovens nas práticas do exército, recordando os esforços da advogada Felicia Langer para impedir que o filho fosse incorporado nas Forças Armadas Israelitas.
O escritor comparou esse processo com o funcionamento de uma organização criminosa como a máfia, em que a participação em atos violentos cria vínculos de cumplicidade entre os membros, classificando-o como uma “irmandade de crime”.
Referindo-se ao documentário “Naza”, realizado pelos jornalistas israelitas Yuval Abraham e Rachel Szor com base em testemunhos de 24 oficiais e ex-militares dos serviços de inteligência de Israel, Moser considerou que a importância deste tipo de investigação reside na possibilidade de confrontar a versão oficial israelita com testemunhos e documentos produzidos a partir do interior do próprio país.
A esse propósito, estabeleceu uma ligação com o historiador judeu Avi Shlaim, nascido no Iraque e criado em Israel, uma das figuras retratadas no seu livro.
Benjamin Moser recordou que Avi Shlaim integrou o movimento dos chamados Novos Historiadores israelitas, que, a partir da década de 1980, recorreram aos arquivos do próprio Estado para questionar interpretações dominantes sobre a criação de Israel e os conflitos com os países árabes.
“Eles desmantelaram os mitos que todos absorvemos”, afirmou, admitindo que também ele cresceu com uma visão de Israel como um pequeno país permanentemente ameaçado pelos seus vizinhos.
Para o escritor, investigações como a de Yuval Abraham e Rachel Szor inscrevem-se nessa tradição de contestação interna, mas revelam também uma desigualdade na atenção concedida aos testemunhos sobre a violência contra os palestinianos.
“Se esse filme fosse feito por palestinianos, e há dezenas e centenas e centenas de filmes e livros e documentos feitos por palestinianos, não teria o mesmo público, porque eles não têm o mesmo alcance”, lamentou.
“É um pouco triste que a gente, por racismo, não escute as pessoas que estão gritando isso há um século, mais de um século”, acrescentou.
Quanto ao futuro político de Israel e da Palestina, Benjamin Moser apontou a transição democrática da África do Sul como exemplo de uma alternativa assente na igualdade de direitos, independentemente da origem étnica ou religiosa.
O escritor recordou uma conversa com o ativista sul-africano Ronnie Kasrils, também retratado no livro, sobre o fim do ‘apartheid’ e a possibilidade de substituir um sistema de segregação por uma democracia sem expulsar a população branca.
“A África do Sul mostra que os brancos não iam ser massacrados se houvesse direitos iguais para todos os cidadãos”, afirmou.
Benjamin Moser defendeu que uma solução semelhante, baseada na igualdade política e civil, teria sido a sua opção preferida para israelitas e palestinianos.
“Que se acabe com a desigualdade, que se garantam direitos iguais a todos, incluindo na Cisjordânia, que se permita o regresso dos refugiados que estão há 80 anos fora do país e que todos tenham direito de voto. Igualdade para todos e pronto”, afirmou.
Contudo, Moser considera que a dimensão da violência exercida em Gaza tornou a situação incomparavelmente mais difícil do que aquela que se verificava na África do Sul no final do ‘apartheid’.
O escritor lembrou que, segundo os dados apurados pela Comissão da Verdade e Reconciliação sul-africana, morreram cerca de oito mil pessoas durante quase 50 anos de ‘apartheid’, um número que – salientou – foi atingido em Gaza em apenas algumas semanas.
“Não havia nenhuma cidade negra na África do Sul que se comparasse com Gaza. É uma situação hoje impossível. Acho que não vai haver uma solução pacífica para o Estado de Israel”, afirmou.
O escritor considera que a sua obra pode também ser lida como uma espécie de biografia do sionismo, construída a partir das vidas de quem se opôs ao movimento e das consequências concretas das suas ideias.
“Eu faço biografias, mas na verdade o que eu faço é história intelectual, disfarçada de biografia”, explicou o também autor das biografias de Susan Sontag e Clarice Lispector.
Para Benjamin Moser, o objetivo é mostrar que as ideias políticas não permanecem no domínio da abstração, mas se traduzem em acontecimentos que transformam a vida das pessoas: “As ideias são reais. Eu gosto de mostrar como as ideias afetam as vidas das pessoas na vida real”.

