Jovens agricultores de Trás-os-Montes são obrigados a ter outras fontes de rendimento devido à instabilidade do setor agrícola, que enfrenta desafios como as alterações climáticas e custos elevados, segundo afirmaram à Lusa.
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17/10/2026
por
Lusa
Jovens agricultores de Trás-os-Montes são obrigados a terem outra fonte de financiamento porque o setor agrícola não é rentável, face aos desafios dos dias de hoje, como as alterações climáticas, afirmaram à Lusa.
“São poucos os jovens que fazem da agricultura a sua única fonte de rendimento”, disse Diana Alves, jovem agricultora na aldeia de Ala, concelho de Macedo de Cavaleiros.
Cresceu na agricultura, com os pais e avós, e recentemente submeteu um projeto jovem para plantação de olival, para aumentar a exploração que já existe.
No entanto, é também professora de Filosofia, outra área que admite não ser fácil, a da docência, mas que, ainda assim, “é mais estável do que a carreira de agricultura”, que é “muito instável” e que torna “muito complicado ser-se agricultor a tempo inteiro”.
“Tenho um projeto de olival. Ora um olival para começar a dar rendimento só a partir dos cinco anos, ora eu tenho de estar cinco anos a injetar dinheiro, aliás, a investir no olival e só a partir daí consigo tirar algum furto. Imagine o que é cinco anos a investir e ter retorno zero. Portanto, é muito complicado. Mesmo assim, a partir dos cinco ou 10 anos o retorno financeiro não é assim tão elevado que seja possível manter uma casa, manter uma família, apenas com esse rendimento”, lamentou.
Para André Bragada, no concelho de Bragança, a situação não é muito diferente. Tem exploração de animais, como porcos e cabras, e ainda produção de castanha e azeite, mas também é agente imobiliário.
“Eu tenho a sorte e posso dizer que sou um agricultor ou semi-agricultor graças às terras, ao trator que me foi deixado, às alfaias que me foram deixadas”, explicou, dizendo que sem esta herança familiar nunca conseguiria ser agricultor nos dias de hoje.
Para o jovem, “hoje em dia só é agricultor ou quem já estava muito enraizado nisto ou quem é teimoso e gosta muito”.
“Eu sei que hoje em dia estou na agricultura por teimosia”, afirmou.
André Bragada já tentou viver só desta atividade, mas faltou “incentivo”, porque num “ano mau” de produção não é possível “aguentar”.
“Agora, neste momento, está muito difícil viver só disto e acho que os jovens não se vão agarrar a algo que não lhe permite ter uma vida estável”, sublinhou.
Por isso, no seu entender, os incentivos dados pelo Governo “deviam ser trabalhados de outra maneira”.
“Eu gosto muito da forma que se trabalha na Espanha. (…) Lá são pagos à produção e não como aqui, que se fala muito dos subsídios e assim. Acho que mesmo logo da base da escola devia ser outro tipo de incentivo”, vincou.
A contribuir para a baixa rentabilidade do setor está o aumento do preço dos combustíveis, que faz disparar o custo de produção, a tipologia de agricultura na região transmontana, ou seja, o minifúndio, que não permite competir com produções em grande escala, e ainda as alterações climáticas, segundo apontaram.
“Estamos em outubro e estão cerca de 30 graus. Portanto, o facto de não termos estruturas e infraestruturas para colmatar estas alterações climáticas também não ajuda (…) aqui na minha região não temos sequer acesso ao regadio (…) nós sabemos que plantações que têm regadio têm um nível de produção muito mais elevado, porque a planta nunca fica tão em stress como é puramente de sequeiro”, afirmou Diana Alves.
Estas alterações climáticas são também evidentes em pequenas plantações, por exemplo de cereal, para alimentar os animais.
“Semeio abóboras para poder dar às porcas e tive uma baixa muito grande. Fiz a sementeira, foi um ano também fraco de sementeira. Castanha foi um ano igual. Azeite, o ano passado, basicamente nem cheguei a bater as oliveiras porque não me compensava o que tinha de pagar, fosse jeira ou fosse máquina, não me compensava, ia ser literalmente trabalhar para aquecer”, contou André Bragada.
Em explorações de grandes dimensões, como a do jovem agricultor Miguel Reis, no concelho de Macedo de Cavaleiros, as alterações climáticas tentam combater-se com investimentos no regadio, mas que, segundo revelou, são muito elevados e “assustam”.
“Todo este investimento que está por trás só apenas da captação de água (…) é perto 15 mil euros por cada captação. Se estou a dizer que temos 13 furos ou 13 captações de água estamos aqui a falar de um valor muito próximo a 200 mil euros”, adiantou.
A sua família tem 70 hectares de amendoal, soutos e olival. Embora se dedique maioritariamente à agricultura é também presidente de junta da sua aldeia, Corujas, no concelho de Macedo de Cavaleiros.
O jovem agricultor, de 30 anos, reconhece que as alterações climáticas e a falta de infraestruturas de regadio são um dos grandes desafios da agricultura em Trás-os-Montes, mas também o emparcelamento de terrenos e a dificuldade de ter explorações de maiores dimensões.
“São regiões que há muitas parcelas, ou seja, os terrenos estão muito divididos e é muito difícil encontrarmos dois hectares, três hectares, quatro hectares para podermos fazer emparcelamentos. Falo nesse sentido para poder justificar investimentos. (…) Uma pessoa que se queira instalar, jovem agricultor, vai ter de começar do zero, preparar os solos, colocar novas plantações. Com a diferença do clima, cada vez mais quente, é necessário recorrer a sistemas de rega, portanto, se estamos a falar em investimentos (…) uma grande fatia de dinheiro [é para] começar do zero, mais somar a isso em cada parcela um sistema de regadio (…) torna-se um valor tão dispendioso por hectare ou por parcela que dificilmente vai ter retorno”, apontou.
Miguel Reis considera ainda que as pessoas mais idosas oferecem alguma resistência e veem como “tabu” vender ou alugar terrenos, o que cria mais um entrave.
Criticou ainda as “isenções fiscais” de que beneficiam os agricultores reformado que, além de receberem a sua pensão, têm ainda benefícios por manterem uma exploração agrícola.
“Um idoso que produz castanha pode produzir até um certo valor castanha e terá isenções fiscais de segurança social, etc., e outro tipo de impostos, enquanto um jovem terá de ser sempre sobrecarregado com esses impostos, ou seja, de certa parte um jovem agricultor já começa mais penalizado”, criticou.
Para discutir os desafios dos jovens na agricultura, na sexta-feira, em Macedo de Cavaleiros, vai acontecer o I Encontro de Jovens Agricultores de Trás-os-Montes, com empresários, investigadores e entidades gestoras.

