Artigo de opinião a propósito do Dia Mundial da Saúde Mental, que se assinala este sábado, desenvolvido por Nora Cavaco, psicóloga clínica, pós-doutorada em Intervenção Precoce no Autismo e doutorada em Educação Infantil e Familiar, e responsável do Centro Clínico Algharb.
© Nora Cavaco
10/10/2026
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Notícias ao Minuto
“Para muitas crianças, o regresso às aulas significa reencontrar amigos, voltar às rotinas e conhecer as novidades do novo ano letivo. Para uma criança autista, porém, esse regresso pode significar muito mais do que voltar à escola. Pode significar uma nova sala, um novo professor, novos colegas, diferentes regras, horários ou até uma mudança de escola. E quando várias destas mudanças acontecem em simultâneo, aquilo que parece uma adaptação natural pode representar um esforço significativo.
A previsibilidade pode ter um papel importante na forma como algumas crianças autistas lidam com as transições. Saber o que vai acontecer, conhecer antecipadamente os espaços e as pessoas, antecipar alterações nas rotinas ou contar com adultos de referência pode ajudar a reduzir a incerteza e a criar maior segurança. Não se trata de impedir a mudança, mas de criar condições para que ela possa ser vivida com maior tranquilidade.
É também aqui que a saúde mental deve entrar na conversa. Ansiedade, isolamento, irritabilidade, alterações do sono, recusa escolar, dificuldades de autorregulação ou mudanças súbitas no comportamento e no rendimento podem ser sinais de que uma criança está a sentir dificuldades que nem sempre consegue expressar. No caso das crianças autistas, alguns destes sinais podem ser interpretados apenas como problemas de comportamento, quando podem estar a traduzir desconforto, sobrecarga ou sofrimento emocional.
O Dia Mundial da Saúde Mental é, por isso, uma oportunidade para olharmos para a prevenção desde a infância. E, nesse contexto, falar de saúde mental infantil é também falar de inclusão.
Uma escola verdadeiramente inclusiva não é apenas aquela onde a criança está fisicamente presente. É aquela onde é reconhecida, respeitada e aceite na sua singularidade; onde consegue participar, aprender, comunicar, estabelecer relações e sentir que pertence. Incluir não é pedir à criança que deixe de ser quem é para caber num determinado modelo. É criar condições para que possa ser quem é, com dignidade, segurança e respeito pela sua forma única de sentir, comunicar, aprender e estar no mundo.
Falar de inclusão é, por isso, falar também de aceitação incondicional do ser humano e do respeito pela diversidade humana e pela neurodivergência. As diferenças neurológicas não devem ser vistas apenas como algo que precisa de ser corrigido ou normalizado. Devem ser compreendidas, respeitadas e enquadradas, reconhecendo que existem diferentes formas de processar a informação, comunicar, estabelecer relações, regular emoções e responder ao ambiente.
Uma sociedade verdadeiramente inclusiva não se constrói quando todas as pessoas são obrigadas a adaptar-se ao mesmo padrão. Constrói-se quando somos capazes de derrubar as barreiras que impedem a participação, a aprendizagem, a comunicação e o sentimento de pertença. Algumas dessas barreiras são físicas; outras são comunicacionais, sociais, emocionais e atitudinais. E, muitas vezes, são precisamente estas últimas que permanecem mais invisíveis.
Não basta perguntar à criança: “Como podemos fazê-la adaptar-se?”. É necessário perguntar também: “O que podemos transformar à sua volta para que ela possa participar, sentir-se segura e pertencer?”. Esta mudança de olhar é essencial. Porque a inclusão não pode depender exclusivamente da capacidade de adaptação da pessoa à sociedade; a sociedade também tem a responsabilidade de se adaptar à diversidade das pessoas que a constituem.
Incluir é compreender que pertencer é uma necessidade humana fundamental. Nenhuma criança deveria sentir que precisa de esconder as suas características, silenciar as suas necessidades ou deixar de expressar quem é para ser aceite. A verdadeira inclusão acontece quando a diferença deixa de ser motivo de exclusão e passa a ser reconhecida como parte natural da diversidade humana.
Uma escola emocionalmente segura não é uma escola onde todas as crianças se comportam da mesma maneira. É uma escola que reconhece diferentes formas de existir, aprender e comunicar; que procura compreender antes de julgar; que adapta estratégias sem diminuir expectativas; que respeita limites e necessidades sem retirar oportunidades; e que cria condições para que cada criança possa desenvolver o seu potencial.
Derrubar barreiras é, portanto, uma responsabilidade coletiva. Das escolas, das famílias, dos profissionais, das instituições e da sociedade. Não podemos continuar a colocar sobre a criança neurodivergente todo o peso da adaptação. Precisamos de construir contextos mais acessíveis, mais flexíveis, mais humanos e verdadeiramente preparados para a diversidade.
A saúde mental e a inclusão não são duas preocupações distintas. Fazem parte da mesma responsabilidade: construir ambientes onde cada criança possa crescer, aprender, relacionar-se e desenvolver-se sem ter de renunciar àquilo que é para ser aceite.
Porque inclusão não é apenas estar presente. Inclusão é ser visto. É ser ouvido. É ser respeitado. É poder participar. É sentir que se pertence. E, acima de tudo, é poder ser, sem ter de deixar de ser quem se é para caber no mundo.”

