A psicóloga Vera de Melo explica como os pais devem reagir quando o filho diz não gostar da professora.
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23/09/2026
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Notícias ao Minuto
“Eu não gosto da professora.”
Há frases que os pais ouvem e, em segundos, começam a construir uma história inteira na cabeça. Será que ela é demasiado exigente? Será que ralhou com ele? Será que não gosta dele? Será que o meu filho está a ser injustiçado? Ou, pior ainda, será que alguma coisa está a acontecer na escola e eu não estou a perceber?
Calma.
Quando uma criança diz “não gosto da professora”, a primeira coisa que precisamos de perceber é que esta frase não é necessariamente uma conclusão. É, muitas vezes, uma emoção à procura de palavras.
As crianças nem sempre conseguem dizer “sinto-me inseguro quando ela me corrige”, “fico envergonhado quando não sei responder”, “acho que ela gosta mais de outros meninos”, “tenho medo de errar à frente da turma” ou simplesmente “não gosto que me digam que tenho de fazer uma coisa que não quero fazer”. E então dizem aquilo que conseguem dizer: “não gosto dela”.
É importante não desvalorizar, mas também não dramatizar.
A resposta “tens de gostar da professora” fecha a conversa. A resposta “porquê? Ela fez-te alguma coisa?” pode transformá-la rapidamente num interrogatório. E a resposta “também não precisas de gostar dela, tens é de respeitá-la” até pode ser verdadeira, mas não nos ajuda a descobrir o que está realmente por detrás daquela frase.
Talvez valha mais perguntar: “O que é que acontece quando estás com a professora que te faz não gostar dela?”
Esta pequena mudança é enorme. Em vez de discutirmos a pessoa, começamos a explorar a experiência.
Porque uma criança pode não gostar de uma professora que lhe exige muito. Pode não gostar de uma professora que a corrige. Pode não gostar de uma professora que estabelece limites. Pode não gostar porque sente que é menos valorizada do que os colegas. Pode não gostar porque houve um episódio específico que a marcou. Pode não gostar porque está a ter dificuldades numa disciplina e começou a associar aquela dificuldade à pessoa que a ensina. E, naturalmente, também pode existir uma relação verdadeiramente difícil, injusta ou inadequada que merece ser conhecida e acompanhada pelos adultos.
É precisamente por isso que não devemos escolher imediatamente um lado.
Quando os pais dizem “se ele não gosta dela, alguma coisa deve ter acontecido”, correm o risco de validar uma interpretação antes de conhecerem os factos. Mas quando respondem “a professora sabe o que faz, tu é que tens de te adaptar”, também podem estar a ensinar à criança que aquilo que sente não merece ser escutado.
O caminho está algures no meio.
Escutar sem alimentar.
Investigar sem interrogar.
Proteger sem transformar cada conflito numa guerra.
E há outra coisa importante: não gostar de alguém faz parte da vida.
Não precisamos de gostar de todas as pessoas com quem convivemos. Na escola, uma criança vai encontrar professores com estilos diferentes, colegas com personalidades diferentes e adultos que comunicam de maneiras que nem sempre correspondem àquilo de que ela gosta. Aprender a relacionar-se com pessoas diferentes é também uma competência emocional.
O objetivo não é ensinar uma criança a gostar de toda a gente. É ajudá-la a perceber o que sente, a identificar o que aconteceu, a distinguir entre “não gosto” e “não me sinto seguro”, entre “ela é má” e “não gosto da maneira como fala comigo”, entre uma frustração normal e uma situação que precisa realmente da intervenção de um adulto.
Por isso, da próxima vez que o seu filho disser “não gosto da professora”, talvez possa responder simplesmente: “Está bem. Conta-me o que acontece para te sentires assim.”
E depois, ouvir.
Sem interromper. Sem defender imediatamente a professora. Sem atacar a professora. Sem transformar a conversa numa investigação criminal.
Porque, muitas vezes, aquilo que começa por ser “não gosto da professora” acaba por revelar outra coisa: “tenho medo de errar”, “sinto que sou pior do que os outros”, “ela chamou-me à atenção à frente da turma”, “não consigo acompanhar a matéria”, “acho que ela não gosta de mim” ou até “estou cansado e não quero ir à escola”.
E é aí que começa a verdadeira conversa.
A escola não precisa de ser um lugar onde a criança gosta de todas as pessoas mas precisa de ser um lugar onde se sente respeitada, segura e capaz de aprender.
E os pais não precisam de resolver imediatamente o problema.
Às vezes, precisam apenas de fazer a pergunta certa.
Porque uma criança que diz “não gosto da professora” pode estar, na verdade, a tentar dizer-nos: “há qualquer coisa nesta relação que ainda não sei explicar.”
E isso merece ser ouvido.”
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