A peça “A Imitação dos Pássaros”, de Tiago Torres da Silva, que o autor considera um dos seus “mais sólidos e maduros” textos, estreia-se em 30 de setembro, no Teatro Variedades, em Lisboa.
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16/08/2026
por
Lusa
Teatro de Variedades
Em entrevista à agência Lusa, Torres da Silva, que também encena, disse que tinha conseguido, com “A Imitação dos Pássaros”, algo que “ainda não tinha conseguido noutro texto”: “Que as personagens estejam quase sempre em dois planos, a dizer uma coisa e a viver outra. Então, o público fica sempre numa dúvida, se a verdade é o que [a personagem] está a dizer ou se é o que está a viver, e isso é um bocadinho o que estamos a viver na vida”.
“Sinto que este texto fala muito dos tempos atuais com a velocidade a que isto tudo está a andar e como as pessoas se sentem perdidas, sem saber bem o que fazer, de terem de estar sempre a mostrar sucesso, a construir coisas para as redes sociais”, acrescentou.
Para o poeta e dramaturgo, na atual sociedade, “parece que o ócio, o tédio deixou de existir”: “E o tédio é pai de muitas coisas boas. Também de muitas coisas más, mas é pai de muitas coisas boas, muitas coisas criativas”.
Referindo-se à dualidade das personagens, que dizem uma coisa e vivem outra, Torres da Silva reconheceu que a situação dramatúrgica “tem raízes em [Anton] Tchekhov”, autor de “Tio Vânia” e “A Gaivota”.
“A Imitação dos Pássaros” “tem muitas raízes em Tchekhov, que é o primeiro [dramaturgo] que nos diz que as personagens podem estar a mentir”, disse o autor.
“Há momentos em que claramente as personagens estão a mentir para salvar outras, e o público sabe que elas estão a mentir, mas também sabe que elas não podem deixar de mentir”.
Uma das personagens, o jovem Filipe, diz a dada altura que tem uma paixão por uma das personagens d’”A Gaivota”.
“Uma ligação a Tchekhov completamente assumida. E parte de uma frase do grande monólogo da Nina [uma das personagens d”A Gaivota’], que diz que percebeu que o que importa não é ter sucesso, nem glória, nem aplausos, nada disso. O que importa é aguentar. É aguentar. É aguentar. Há algumas traduções que dizem que o que importa é seguir em frente, suportar, mas a ideia é que não é o sucesso” que conta, disse à Lusa Torres da Silva. E prosseguiu: “O que nos leva é a resiliência, a capacidade de nos reinventarmos, de passarmos por cima dos fracassos e dos sucessos sem que isso nos altere grandemente”.
A peça aborda também “a solidão dos mais velhos”, um dos temas caros ao autor. “Cada vez vivemos mais, a medicina prolonga mais a vida, mas a sociedade não encontra forma de tornar válidos esses últimos anos das pessoas”.
Ao mesmo tempo, “há uma subida enorme de suicídio em jovens, porque não sabem bem o que fazer”. “Estão muito perdidos. Há muitos ‘sites’ na ‘dark web’ a proporem desafios que podem terminar em morte. Como é que as gerações, que são a minha geração, tiveram de se habituar?”, questionou o autor de 56 anos.
“Foi tanta mudança, tanta mudança. Acho que a minha geração será estudada como das que tiveram de se adaptar mais”, afirmou.
Uma das personagens mais velhas é desempenhada pela atriz Lídia Franco, que conhece há muito e bem. “É uma personagem muito, muito humana e, talvez, apesar da solidão em que vive, a mais jovem dos três”.
Tiago Torres da Silva admite que a peça está em contraciclo com o atual panorama teatral. “Está um bocado a cair em desuso, o teatro com personagens, com enredo, em que se conta uma história”.
“Mas gosto de contar histórias e gosto que me contem histórias, portanto é esse o teatro que continuarei a fazer”.
“Interesso-me por tudo, é talvez o meu pior defeito. Tenho muitos amigos, muito mais jovens. Dou-me muito com uma geração que será a dos meus sobrinhos, pessoas com 20 e tal, 30 anos. E gosto muito de ouvir o que eles têm a dizer. E é engraçado, porque quando tinha 20 anos, os meus amigos eram muito mais velhos. Agora parece que os papéis se estão a inverter”, contou.
“Acho que o mundo está a atravessar um momento muito estranho. Mas quando um mundo se desequilibra muito para um lado, tem de se desequilibrar muito para o outro, para depois voltar. Como um pêndulo, para depois voltar ao centro. E este espetáculo fala disso, fala de voltar ao centro”, disse.
A questão de género que abordou, entre outras, na peça “Glory Hole” (2025), “está subjacente à história que toca no género, no que hoje em dia se fala sobre o que se pode e não se pode” fazer, “quem pode fazer o quê”, afirmou.
“O jovem rapaz que [na peça] é ator e quer fazer a Nina no teatro, não pode porque é um homem. Então, estas questões que se estão a pôr de género [também são abordadas]. Tivemos um Tom Hanks a pedir desculpa por ter feito o [filme] ‘Philadelphia’ [de Jonathan Demme, 1993], por não ser homossexual. Um dos maiores disparates que já ouvi. Então os atores homossexuais não vão poder fazer o Hamlet, nunca mais?”.
“Já pus um ator a fazer de árvore numa peça, e acho que o ator é aquele que pode ser tudo”, prosseguiu. “Portanto, essas questões estão lá [na peça], mas é um magma que é subjacente [ao texto]. Não é o tema principal”.
Torres da Silva considera “A Imitação dos Pássaros” um texto “muito confessional”. “Portanto, precisava de atores com quem já tivesse trabalhado bastante para que conhecesse bem os processos deles e até onde podem ir”.
“Já dirigi os três atores que vão fazer o espetáculo”, Lídia Franco, Baltasar Marçal e Tiago Fernandes. “Sei os caminhos que cada um pode percorrer para chegar àquelas personagens”.
“Tiago Fernandes já o dirigi no ‘Barulho das Luzes’, em ‘Em Cima das Árvores’. Com Baltasar Marçal tenho trabalhado muito ultimamente, e esta peça partiu de um repto dele, que me disse que gostaria de falar em russo”.
Para o autor, “encenar e escrever vão juntos”. “Não sei separar uma coisa da outra, e gosto imenso de ver outras sensações dos meus textos”.
A peça tem cerca de 80 minutos e “ultrapassa o mero conflito geracional”. “No fundo é a história de três gerações – avó, filho e neto -, e dos segredos que todas as famílias têm, que não se vão dizendo, vão surgindo aos poucos, […]. E vemos a mentira a tornar-se verdade, um assunto muito importante hoje em dia”.
O autor considera que “o teatro vai ganhar muita força porque é o que está a acontecer ali à frente”, em oposição às “fake news” (falsas notícias).
“Quero cada vez mais retirar os microfones, retirar tudo que seja tecnologia para ficar a verdade do ator a falar com o público”.
Os cenários e figurinos são de Hugo F. Matos, o vídeo é do Aurélio Vasques e a dramaturgia de Maria Helena Melim, pessoas do seu “núcleo familiar artístico”.
“Tinha mesmo de ter pessoas que fossem a essa profundidade que procuro com este texto”, rematou Tiago Torres da Silva.
“A Imitação dos Pássaros” fica em cena até 25 de outubro.

