Esta sexta-feira, 30 de outubro, faz um mês que a campanha de vacinação contra a gripe arrancou. O Notícias ao Minuto esteve no terreno a tentar fazer um balanço dos primeiros 30 dias. Entre os grupos de risco, que este ano foram alargados, a vacinação está assegurada e tem decorrido normalmente. No contigente privado, não há vacinas.
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30/10/2026
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Um mês depois do arranque da campanha de vacinação sazonal contra a gripe, a 30 de setembro, quem tenta adquirir a vacina no contigente privado, seja por recomendação médica ou através de campanhas de vacinação promovidas por empresas, fica de mãos a abanar.
Uma ronda efetuada pelo Notícias ao Minuto junto de duas dezenas de farmácias na Área Metropolitana do Porto, na Grande Lisboa, no Algarve e Alentejo permitiu constatar que a rutura de stock no contingente privado é generalizada. E as previsões não são animadoras.
Uma farmácia localizada na freguesia de Carnide, em Lisboa, revelou ao Notícias ao Minuto que recebeu 9 vacinas para o contigente privado este ano e não espera receber mais até ao fim do inverno.
“O problema não é só aqui, é a nível europeu. Falaram numa reposição em novembro, mas não acredito. Só há stock para grupos de risco”, explicou a farmacêutica que ali trabalha.
Na Amadora, o caso parece ter sido ainda pior. “Só tivemos duas vacinas para o contigente privado e, infelizmente, não há previsão para voltarmos a receber”, admitiu um dos funcionários.
O mesmo se passa em Oeiras. “Terminaram e não sei se voltamos a ter. Não há previsão. Não há em canto nenhum. Fomos os últimos a esgotar [no município], mas já não temos”, relatou o trabalhador de uma das farmácias do concelho do distrito de Lisboa.
No Grande Porto e no Alentejo ainda há farmácias que, apesar de não terem provisão, mantêm a esperança de que o stock seja reposto e colocam os utentes em listas de espera.
Já numa farmácia do Sotavento Algarvio a crença desvaneceu-se. “Não temos. Muitas pessoas têm cá vindo para adquirir mas nós não temos. Vieram poucas e não vêm mais. É um problema europeu mas em Portugal ainda é maior porque as nossas vacinas são muito baratas”, descreveu uma funcionária ao Notícias ao Minuto.
Perante esta escassez, que pode levar mais pessoas às urgências na época gripal, o Notícias ao Minuto procurou esclarecimentos junto do Ministério da Saúde, da Direção-Geral da Saúde (DGS) e da Associação Nacional das Farmácias (ANF). Em tempo útil, apenas a ANF respondeu.
Falta de stock não atinge grupos de risco
Segundo esta associação, “até à data, não existe qualquer indicação de falta de vacinas para as pessoas elegíveis para vacinação gratuita no âmbito da Campanha de Vacinação Sazonal do SNS, incluindo os grupos de risco abrangidos pela campanha”.
“A prioridade é garantir a vacinação das pessoas com maior risco de doença grave, complicações e hospitalização, de acordo com os critérios definidos pela Direção-Geral da Saúde (DGS). Neste momento, a informação disponível indica que estão asseguradas as vacinas necessárias para a vacinação gratuita da população elegível”, sublinhou ainda.
Já no que diz respeito ao contigente privado de vacinas contra a gripe é que pode haver problemas: “A situação identificada no início da campanha diz respeito ao contingente privado de vacinas contra a gripe, cujo volume é inferior ao dos anos anteriores. Poderão, por isso, existir dificuldades pontuais no acesso à vacina através do mercado privado, cuja disponibilidade pode variar ao longo da campanha e entre farmácias”.
Apesar de a ANF falar num problema “pontual”, nenhuma das farmácias que o Notícias ao Minuto abordou tinha vacinas, nem previsão para receber mais.
“Necessidade de atualização” condicionou “capacidade de produção”
O cenário que se vive em Portugal no mercado privado não é isolado e acompanha dificuldades sentidas noutros países europeus.
A causa poderá estar relacionada com o processo de fabrico. “Esta é uma situação que afeta vários países europeus e estará relacionada com a necessidade de atualização simultânea das três estirpes que integram a composição da vacina contra a gripe, tendo condicionado a capacidade de produção e o número de doses disponibilizadas no mercado privado no início da campanha”, explicou a ANF ao Notícias ao Minuto.
Além das farmacêuticas não terem conseguido produzir atempadamente as alterações necessárias tendo em conta uma nova estirpe do vírus da gripe, há um outro problema.
De acordo com a imprensa britânica, a Sanofi, uma das principais produtoras de vacinas da gripe teve de destruir um lote de dois milhões de vacinas. Estas vacinas destinavam-se ao Reino Unido, que deve estar a tentar compensar a falha com outras vacinas que, inicialmente, estavam destinadas a outros países.
Para lá disso, este ano, segundo a Associação Nacional de Farmácias, “mais pessoas estão abrangidas pela vacinação gratuita, o que poderá reduzir a procura no mercado privado”.
Estes aspetos, aliados a outros, contribuíram assim para a escassez de vacinas da gripe não só nos utentes individuais, que têm prescrição médica para comprar a mesma, como no meio laboral. Várias empresas viram suspensas (ou adiadas) as suas campanhas anuais de vacinação de colaboradores por falta de stock.
Reforço de doses ainda sem data confirmada
Para os farmacêuticos, esta é uma situação que “deve continuar a ser acompanhada”. Porém, para quem aguarda por uma dose no contigente privado, o cenário futuro permanece incerto.
Ao Notícias ao Minuto, a ANF refere existir “a possibilidade de o contingente privado ser reforçado”, mas admite não dispor de informação “que permita confirmar o volume ou a data desse eventual reforço”, recordando que a campanha de vacinação prolonga-se até março.
Questionada sobre eventuais medidas para prevenir esta situação futuramente, a associação explicou que “não intervém no processo de definição ou aquisição das quantidades destinadas ao mercado privado”, uma vez que se trata “de um desafio internacional, que não depende exclusivamente de Portugal”.
Ainda assim, defende que no futuro será crucial “reforçar a monitorização da procura e da disponibilidade, bem como aprofundar a cooperação entre todos os intervenientes, para antecipar necessidades e assegurar uma resposta tão ajustada quanto possível”.
Vacinação contra a gripe chegou a mais de 1 milhão de pessoas
Na terça-feira, 27 de outubro, a DGS revelou que mais de 1,3 milhões de pessoas foram vacinadas contra a gripe desde o dia 30 de setembro, das quais quase 700 mil nas farmácias que aderiram à campanha sazonal que vai decorrer até ao final de março.
Até 25 de outubro, tinham sido administradas 1 339 486 doses de vacinas contra a gripe, das quais 689 106 em farmácias aderentes e 650 380 em unidades do Serviço Nacional de Saúde (SNS).
Entre as pessoas com 60 ou mais anos, mais de 1,1 milhões de pessoas já tinham sido vacinadas contra a gripe, correspondendo a uma cobertura de 35,24%. No grupo com 85 ou mais anos, este indicador atingiu 44,24%, com 177 882 pessoas vacinadas. Quanto à COVID-19, mais de 600 mil pessoas fizeram a vacinação sazonal, com a cobertura mais elevada entre os maiores de 85 anos (27,3%) e a mais baixa na faixa dos 60 aos 69 anos (9,12%).
No âmbito desta campanha, o SNS adquiriu mais de 2,7 milhões de doses de vacinas contra a gripe do que o ano passado.
Recorde-se que, este ano, a DGS alargou os critérios para a vacinação gratuita, incluindo mais utentes. A população elegível para a vacinação contra a gripe são agora todas as crianças entre os seis meses e os quatro anos de idade e os utentes com 60 ou mais anos.
Quanto à imunização contra a Covid-19, são elegíveis os utentes com 70 ou mais anos. Tanto no caso da vacina da gripe como no da Covid-19, todas as pessoas com patologias que aumentam o risco de doença grave, independentemente da idade, estão abrangidas.

