Dois anos de fisioterapia, cirurgias e uma voz profundamente alterada não impediram a cantora Arlinda Norris de reconstruir a vida após um atropelamento em Nova Iorque, experiência que transformou em autobiografia para inspirar outros.
© Arlinda Norris/ Instagram
04/10/2026
por
Lusa
Arlinda Norris
Em entrevista à Lusa, por escrito, a cantora, autora e ex-bailarina do cantor Emanuel, nascida em Portugal e com fortes vínculos a Cabo Verde, refletiu sobre o impacto do atropelamento que sofreu em março de 2024, em Nova Iorque, e que alterou completamente a sua vida, levando-a a escrever a autobiografia “She Kept Going” [Ela seguiu em frente, na tradução para português].
O acidente aconteceu quando Arlinda atravessava uma rua, em Manhattan, e provocou-lhe lesões na coluna, pescoço, cabeça, anca e joelho, incluindo fraturas nas costas, concussões e hérnias discais cervicais, tendo sido submetida a várias cirurgias.
“Recordo-me do impacto, da confusão e, sobretudo, da sensação de que tudo aconteceu muito depressa. Num instante, eu era uma mulher independente e ativa. No instante seguinte, estava gravemente ferida e incapacitada sem saber como seria o meu futuro”, recordou a artista.
O prognóstico era reservado e os médicos nunca garantiram uma recuperação total, disse à Lusa.
Durante cerca de dois anos, Arlinda passou por tratamentos e fisioterapia.
“Foi um processo longo, doloroso e muito exigente”, descreveu, explicando que teve de “reaprender a confiar” no próprio corpo e a valorizar os progressos, por mais pequenos que lhe parecessem.
Entre as consequências mais difíceis esteve a perda de capacidades vocais. A cantora, que admitia ter “perspetivas boas no horizonte” em Portugal e nos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), começou a notar rouquidão e perdeu força, controlo e alcance, chegando a ficar sem voz em alguns momentos.
“Foi extremamente difícil ouvir esse prognóstico”, afirmou, referindo-se à possibilidade de nunca mais cantar como antes.
Para a artista, a perda da voz significou também uma crise de identidade.
“Não se perde apenas uma capacidade física. Sente-se que se está a perder uma parte da própria identidade”, lamentou Arlinda, nascida em Lisboa e filha de pais cabo-verdianos.
Contudo, a cantora, agora com 50 anos, acabou por encontrar outras formas de expressão.
“Compreendi que a minha voz não existia apenas quando eu cantava. Eu continuava a ter uma voz, uma história e uma mensagem”, disse.
Ainda não voltou a cantar profissionalmente e admite que a voz “não é a mesma”, mas garante ter aprendido a não medir o seu valor apenas pelo que conseguia fazer antes do acidente.
A experiência deu origem à autobiografia “She Kept Going”, inicialmente escrita durante a recuperação como forma de organizar pensamentos e lidar com a dor. O livro percorre a infância, música, moda, emigração, maternidade, perdas, dificuldades financeiras, o acidente e a reconstrução da identidade.
“Ao rever a minha vida, percebi que existia um fio condutor em todas essas fases: eu continuava sempre”, observou.
O processo judicial relacionado com o atropelamento terminou, entretanto, num acordo cujos termos Arlinda não pode revelar.
“Nenhum acordo consegue devolver o tempo perdido, eliminar as dores ou restituir completamente aquilo que mudou na minha vida. Mas terminar o processo permitiu-me deixar de viver constantemente ligada ao acidente e começar a concentrar mais energia no meu futuro”, frisou.
Dois anos e meio depois do acidente, diz já não se definir pelo que lhe aconteceu: “Não sou apenas a mulher que foi atropelada. Sou a mulher que sobreviveu, se reconstruiu e decidiu dar um novo significado ao que lhe aconteceu”.
É essa mensagem que pretende levar agora a outras mulheres através do livro, de palestras e de ‘workshops’ sobre resiliência, identidade e recomeços.
“Recomeçar não é fracassar. Por vezes, é o ato mais corajoso da nossa vida”, afirmou, deixando aos leitores uma última mensagem: “A sua história ainda não terminou. Talvez o maior começo ainda esteja à sua frente”.

