Especialistas em saúde alertaram à Lusa que o ceticismo da população local e o histórico de violência no leste da República Democrática do Congo dificultam a resposta ao Ébola, onde a epidemia progride “na sombra” das estatísticas oficiais.
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25/10/2026
por
Lusa
Especialistas em saúde alertaram à Lusa que o ceticismo da população local e o histórico de violência no leste da República Democrática do Congo dificultam a resposta ao Ébola, onde a epidemia progride “na sombra” das estatísticas oficiais.
De acordo com o Diretor Regional da Organização Mundial da Saúde (OMS) para África, Mohamed Yakub Janabi, em entrevista à Lusa, a República Democrática do Congo (RDCongo) contabilizava, em 20 de outubro, 9.704 casos confirmados e 4.687 mortes, o que traduz uma taxa de mortalidade de 48,3%.
No entanto, a perceção no terreno é de que os números reais são substancialmente superiores.
Tomás Bandeira, responsável de medicina tropical da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), advertiu, em entrevista por telefone à Lusa, que os dados disponíveis devem estar aquém dos reais e, dessa forma, a doença dissemina-se “à sombra” e o problema “está longe de estar resolvido”.
“Estamos a assistir a muitos casos que não chegam sequer a tempo de tratamento, lugares em que nós próprios não conseguimos chegar, ou porque as comunidades não nos aceitam, ou porque as condições de segurança não nos permitem chegar”, afirmou o responsável dos MSF, a partir de Mongbwalu, cidade rica em ouro onde a epidemia começou e foi declarada.
O médico português explicou que a população local, sem histórico de presença de organizações humanitárias e habituada a contactar sobretudo com estrangeiros ligados à exploração mineira ou a recorrer a métodos tradicionais de tratamento, olhou para as equipas internacionais com desconfiança.
Para responder à falta de confiança, que levou inclusive a ataques contra centros de tratamento – como o registado em Nyankunde em julho -, a OMS e os seus parceiros reforçaram a atuação com líderes comunitários, religiosos, praticantes de medicina tradicional, sobreviventes e agentes de saúde locais, explicou Mohamed Yakub Janabi.
“Em Nyankunde, foram promovidos 32 diálogos com mais de 1.500 líderes e figuras influentes. A iniciativa fez subir os alertas comunitários diários de um máximo de 11 para entre 60 e 70 em setembro, sem registo de novos ataques no local desde julho”, indicou o diretor regional.
Também em Mongbwalu, quase seis meses após a chegada dos MSF, o trabalho com autoridades locais e líderes comunitários permitiu também que o centro de tratamento deixasse de ser visto com estranheza, com a população a regressar ao hospital.
O Ébola é altamente contagioso e transmite-se através do contacto direto com fluidos corporais de uma pessoa infetada, incluindo sangue e vómito, ou através do contacto com materiais e superfícies contaminadas, como roupa de cama e vestuário.
A epidemia, provocada pelo vírus Bundibugyo – sobre o qual ainda se mantêm incertezas clínicas por escassez de dados comparativos -, é classificado por Tomás Bandeira como “uma crise dentro de uma crise”.
O médico recordou que a epidemia neste país, vizinho de Angola, desenvolve-se num cenário de conflito armado, com a presença de múltiplos grupos paramilitares, onde há um elevado nível de deslocações de populações e surtos simultâneos de cólera e malária.
Enquanto o Ébola exige acesso fiável a doentes e rastreio de contactos, a cólera requer água potável, saneamento e vacinação direcionada, alertou o dirigente da OMS.
Além disso, o foco absoluto no Ébola está a desviar atenções e recursos de campanhas de vacinação e do combate a outras doenças altamente letais, como a malária, refletiu o médico português.
Para travar a cadeia de transmissão, o diretor regional da OMS defendeu como necessidades imediatas um acesso humanitário seguro, financiamento previsível, apoio e pagamento fiável aos trabalhadores da linha da frente e bens e materiais adequados.

