“Filhos do Meio – Hip Hop à Margem”, documentário sobre o rap na Margem Sul, chega à RTP2 e RTP Play amanhã, dia 27 de outubro. Antes disso, o Notícias ao Minuto falou com o realizador, Luís Almeida.
© “Filhos do Meio – Hip Hop à Margem”
26/10/2026
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Depois do sucesso de “Novas Narrativas de Caça”, o documentário “Filhos do Meio – Hip Hop à Margem”, também realizado por Luís Almeida, chega à RTP2 e RTP Play amanhã, dia 27 de outubro.
O filme de 60 minutos sobre o rap na margem sul do Tejo, que percorre os principais marcos do movimento com recurso a um arquivo enriquecedor e às memórias daqueles que começaram por inspirar-se nas cassetes que alguém fazia chegar a Portugal e que passavam de mão em mão, estreou-se em 2025 no IndieLisboa IF e é exibido no canal público na próxima terça-feira pelas 22h50.
Antes disso, o Notícias ao Minuto falou com o realizador, que destacou o papel do hip hop como “um veículo de propagação e de informação muito eficaz”.
Olhando para realidade atual, com todos estes protestos e vontade geral de uma mudança e luta contra o fascismo, o hip hop terá novamente um papel fundamental de retratar, educar uma nova geração, e não sóLuís Almeida destaca também que “há histórias por contar que ficaram de fora do documentário”, mas, ainda assim, permite “contar muitas e mostrar figuras que realmente foram importantes para o movimento, como os NEXO, que influenciaram uma geração mesmo não tendo tido a oportunidade de deixar o seu trabalho registado da melhor forma”.
© “Filhos do Meio – Hip Hop à Margem”
“Filhos do Meio – Hip Hop à Margem” centra-se em territórios que tiveram um papel importante no desenvolvimento do hip hop em Portugal. O que faltava contar sobre o epicentro do hip hop português e o que mais o surpreendeu ao realizar o documentário? Havia mesmo uma parte da história que ficou por contar?
Estava bastante estabelecido que a origem da cultura era no Miratejo, mas acho que fica claro com o documentário que na verdade começou na Cova da Piedade, entre os jovens da escola secundária. Naturalmente, o movimento desloca-se para o Miratejo, onde se desenvolveu. Claro que tudo isto pode ser contestado já que a cultura ia nascendo em vários pontos do país ao mesmo tempo, do Porto ao Algarve.
O que mais me surpreendeu foi a história do Nelson Neves, considerado por muitos como quem realmente trouxe a cultura para Almada, que para além de agregar a juventude à volta da música, também a defendia contra o movimento skinhead que surgia no território. É uma figura fascinante que nunca tinha tido a oportunidade de contar a sua história.
© “Filhos do Meio – Hip Hop à Margem”
E sim, havia mesmo uma parte da história que estava por contar. Aliás, ainda há histórias por contar que ficaram de fora do documentário. Ainda assim, tivemos a oportunidade de contar muitas e mostrar figuras que realmente foram importantes para o movimento, como os NEXO, que influenciaram uma geração mesmo não tendo tido a oportunidade de deixar o seu trabalho registado da melhor forma, mas neste documentário creio que ganham o destaque que lhes era devido.
Neste contexto, de centrar histórias que sempre estiveram fora dos espaços de maior visibilidade, que importância tem a chegada do documentário à televisão pública?
Era um dos nossos objetivos, gostamos de fazer filmes para serem vistos e a televisão pública, gratuita e de acesso universal, é uma das melhores formas de chegar ao público. Para além disso, considero que é uma forma de dar algum prestígio a estas histórias que, apesar de pouco conhecidas, moldaram a cultura portuguesa. Precisam de ser conhecidas e valorizadas, portanto merecem espaço na televisão pública.
Como é que o público tem recebido o documentário nos festivais por onde passou?
Tem sido uma surpresa muito agradável, foi sempre bem recebido, com muito entusiasmo e curiosidade. Tanto por pessoal da cultura hip hop como por pessoas fora da cultura, que olham para o filme com um interesse mais antropológico em comparação com o olhar mais nostálgico de quem viveu e vive a cultura.
Para quem acompanhou o sucesso de “Novas Novas Narrativas de Caça”, como convenceria a verem também “Filhos do Meio – Hip Hop à Margem”? Há uma missão comum a estes dois projetos?
São projetos distintos, mas de facto partilham a mesma missão: contar histórias que normalmente não teriam espaço para serem contadas. Histórias contadas na primeira pessoa, por quem as viveu e com respeito pelos seus protagonistas.
O filme venceu a Garça de Ouro no Festival Entre Olhares, o prémio de Melhor Documentário no Lisbiff 2025, e o prémio de Melhor Filme no HipHop Cinefest em Roma, Itália. Que importância têm estes prémios?
Ganhar prémios é sempre bom, é sinal de que fizemos um bom trabalho aos olhos dos nossos pares, legitima a produtora e o nosso trabalho, abre possibilidades para fazer mais e melhores projetos. Porém, o reconhecimento do público tem sido um prémio igualmente ou mais importante, e esperamos que agora, que tem a possibilidade de chegar a mais gente, esse reconhecimento continue.
O hip hop também se popularizou como forma de expressão de comunidades que, como discutido anteriormente, não tinham visibilidade nos meios de comunicação tradicionais. Olhando para a realidade portuguesa atual, na sua opinião, acha que o rap/hip hop continua a desempenhar esse papel intervencionista ou a chegada ao mainstream diluiu essa identidade?
Acho que continua a ter esse papel e terá sempre. É um estilo musical onde a palavra tem uma importância muito grande e portanto é um veículo de propagação e de informação muito eficaz. Claro que o mainstream vai pegar sempre naquilo que lhe é mais conveniente, mas o hip hop mais interventivo continua a existir, até diria que o hip hop no underground está cada vez mais forte e de boa saúde. Há projetos a sair, concertos a acontecer e quem tiver realmente interesse em descobrir esta cultura vai descobrir.
E olhando para realidade atual, com todos estes protestos e vontade geral de uma mudança e luta contra o fascismo, o hip hop terá novamente um papel fundamental de retratar, educar uma nova geração, e não só, que precisa de que alguém os ajude a entender o mundo e o que se passa à sua volta. Foi assim comigo e certamente será assim com uma nova geração.

