O presidente do Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana (IHRU), Benjamim Pereira, questionou os sacrifícios dos jovens para comprar casa, mas estas declarações já estão a gerar polémica e são mesmo classificadas de “profundamente infelizes” pelos estudantes.
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23/10/2026
por
Beatriz Vasconcelos, Lusa
O presidente do Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana (IHRU), Benjamim Pereira, disse, na quinta-feira, não saber “se a sociedade atual está disponível para o nível de sacrifício” da anterior, recordando que os seus próprios avós e o seu pai emigraram “para poderem ter uma casa“. Estas declarações já estão a gerar polémica e são mesmo classificadas de “profundamente infelizes” pelos estudantes.
Afinal, o que disse o presidente do IHRU?
“Já fomos todos jovens, não é? (…) E percebemos essa dificuldade. Eu não sei se a sociedade atual está disponível para o nível de sacrifício que os nossos pais e os nossos avós fizeram para ter uma casa“, disse aos jornalistas Benjamim Pereira, em Vila Nova de Gaia (Porto).
Falando acerca das manifestações pela habitação que têm ocorrido sobretudo no Porto e em Lisboa, e questionado sobre se a geração atual está a ter menos sacrifício do que a geração anterior, o responsável do IHRU disse não querer ir “por esse caminho”.
“Só estou a dizer que os meus avós emigraram para o Brasil e para a Argentina para poderem ter uma casa. O meu pai emigrou durante 20 anos, sacrificou a vida”, prosseguiu, e perante as questões dos jornalistas sobre se os jovens também devem emigrar, afirmou que não estava “a dizer isso”.
Pedindo para “concluir o raciocínio”, Benjamim Pereira disse que os seus familiares emigraram “porque a casa era, efetivamente, uma coisa muito importante para a sua vida, a sua base logística, como é hoje”.
“É preciso que haja um compromisso de todos. Reparem, os jovens podem organizar-se, fazer cooperativas. Eu já recebi pessoas no IHRU que agora, com os seus 60 e 70 anos, que quando eram da idade dos jovens que agora se estão a manifestar organizaram-se, fizeram cooperativas e fizeram as suas próprias casas”, afirmou.
Frisando que fazia “um apelo” e não “uma crítica”, Benjamim Pereira pediu “a todos que se possam unir” pois “é um problema que tem de ser resolvido por todos e os jovens também fazem parte desta equação“.
As reações às declarações (“profundamente infelizes”)
As reações às declarações do presidente do IHRU não demoraram a chegar: Fabian Figueiredo, do Bloco de Esquerda (BE), criticou o que considerou ser o “descaramento” de Benjamim Pereira:
“O presidente do IHRU ganha mais de 7.600€ por mês e tem o descaramento de pedir sacrifícios aos jovens mileuristas. É uma total falta de noção e de vergonha. Demita-se!”, escreveu o deputado único do Bloco de Esquerda na rede social X.
O deputado único do BE, Fabian Figueiredo, requereu ainda a audição urgente do presidente do IHRU no Parlamento, após as suas declarações acerca das manifestações contra a crise neste setor.
Também o Partido Socialista (PS) condenou estas declarações, através do vice-presidente da bancada socialista Luís Testa: “Estranhamos muito que hoje o presidente do IHRU venha dizer à comunicação social que os jovens têm falta de espírito de sacrifício. Isto é intolerável um dirigente público manifestar-se relativamente a pessoas, a jovens, que não têm outra coisa à sua frente que não seja sacrifício“.
Luís Testa disse que apesar de se poder “sensibilizar muito com a história de vida da família” do presidente do IHRU, a preocupação do PS é com “a vida dos portugueses e principalmente dos jovens“.
“O sacrifício que esta camada etária tem pela frente na sua vida não é compatível com afirmações jocosas por parte de um dirigente da administração pública”, lamentou.
Também a Federação Académica de Lisboa (FAL) criticou as declarações do presidente do IHRU, Benjamim Pereira, sobre as manifestações contra a crise neste setor. Num comunicado assinado pelo presidente Pedro Neto Monteiro, a FAL manifestou discordância com os comentários de Pereira, que descreveu como “profundamente infelizes”, e rejeitou “a normalização dos sacrifícios exigidos aos jovens para aceder à habitação“.
Por outro lado, Hugo Soares, líder parlamentar do PSD, disse não ver um “caso” nas declarações de Benjamim Pereira.
“Se aquilo que o presidente do IHRU – que foi o eu entendi das declarações – [quis] dizer foi: ‘Os jovens hoje não querem, nem devem, fazer os sacrifícios que outrora se fizeram e que levaram muitos portugueses a emigrarem à procura de uma solução para a habitação’ – eu estou de acordo“, apontou Hugo Soares em entrevista na SIC Notícias.
Quando o presidente do IHRU diz que os jovens não estão “disponíveis” para fazer esse sacrifício, “eu concordo com ele: não estão e bem”, salientou o social-democrata.
“Eu não vejo aqui caso, honestamente. Percebo que nós estamos todos com um grau de conflitualidade no debate político e público demasiado alto, mas eu não vejo caso nas palavras do senhor presidente do IHRU, porque eu entendi-as desta forma: ‘Os jovens não querem fazer nem devem fazer este sacrifício’. Ele diz que os jovens não devem emigrar, ele diz exatamente isso”, reiterou.
Entre manifestações e as denominadas acampadas, com centenas ou milhares de manifestantes, os atuais protestos contra a crise na habitação tiveram início no Porto a 10 de outubro e expandiram-se a Lisboa, mas já motivaram também concentrações noutras cidades, dias depois da aprovação parlamentar da nova lei do arrendamento, agora em discussão na especialidade.

