O Hamas exigiu hoje uma “investigação internacional” em torno do conteúdo do documentário “NAZA”, que inclui testemunhos de oficiais e soldados israelitas sobre técnicas de guerra empregues por Israel na Faixa de Gaza.
© Stefano Rellandini / AFP via Getty Images
15/09/2026
por
Lusa
Essas técnicas, sustenta num comunicado o Movimento de Resistência Islâmica, teriam causado centenas de vítimas colaterais em alguns ataques.
“NAZA”, acrónimo hebraico utilizado pelo exército para se referir a danos colaterais, baseia-se em 24 testemunhos anónimos de membros do exército e dos serviços de informações e questiona a estratégia empregue por Israel na Faixa de Gaza e práticas que conduziram a baixas civis em grande escala.
O grupo islamita palestiniano assinalou que “o mundo viu com grande ira o que foi revelado no documentário ‘NAZA'”, antes de salientar que “a importância dos testemunhos deriva do facto de terem sido realizados por pessoas que trabalham no seio do Exército e do aparelho de segurança sionista e participaram em sistemas de vigilância e ataque”.
“Isto requer uma investigação internacional séria e independente, bem como documentar estes testemunhos nas investigações relacionadas com crimes de guerra e limpeza étnica cometidos contra civis na Faixa de Gaza”, afirmou o Hamas, que sublinhou que a ovação de 25 minutos recebida pelo documentário no Festival de Cinema de Veneza, onde venceu na quinta-feira o Prémio Especial do Juri, “reflete o grande impacto que os testemunhos tiveram”.
Assim, destacou “a importância do papel do jornalismo e do cinema documental na hora de revelar os factos e quebrar as tentativas sionistas de negação e desinformação”, bem como a relevância que este tipo de investigações tem “na hora de apresentar perante a opinião pública global o sofrimento das vítimas”.
Por isso, o Hamas pediu ao Tribunal Penal Internacional (TPI), às Nações Unidas e a organizações de direitos humanos que “documentem os testemunhos e informações contidos no filme para os utilizar nos processos de investigação e responsabilização com vista a confirmar os crimes de extermínio e limpeza étnica cometidos pelo Exército sionista de ocupação”.
“O que ‘NAZA’ revelou”, prossegue o Hamas, “não deve ser apenas material para uma visualização e mostrar simpatia, mas um incentivo adicional à investigação e à responsabilização, à justiça para as vítimas e para garantir que os responsáveis por crimes de guerra, genocídio e violações não escapam à responsabilização”.
O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, criticou os realizadores de ‘NAZA’ pela sua “incitação ao ódio antissemita” que considera “intolerável” por vir de cidadãos israelitas, enquanto o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas israelitas, Eyal Zamir, ordenou ao máximo responsável jurídico militar que estudasse a possibilidade de iniciar ações legais contra os autores do documentário.
“Estamos a combater a incitação ao ódio antissemita a nível global, mas quando vem de dentro, de entre nós, é simplesmente intolerável”, afirmou Netanyahu, referindo que “os dois realizadores israelitas retratam as Forças de Defesa de Israel como se fossem criminosos de guerra e são aplaudidos no Festival de Veneza”.
Na mensagem por vídeo, Netanyahu associou o documentário a declarações do antigo general e atual líder do partido de oposição Democratas, Yair Golan, quando no ano passado disse que Israel “está a matar bebés em Gaza como um ‘hobby'”.
O primeiro-ministro procurou também ligar o filme ao partido Yashar, liderado pelo antigo comandante do exército Gadi Eisenkot, referindo que tem um acordo eleitoral com Yair Golan para as legislativas marcadas para 27 de outubro.
Eisenkot, principal adversário do Likud de Netanyahu e que tem surgido na liderança da generalidade das sondagens, criticou o documentário no domingo, comentando que “NAZA” oferece uma imagem “distorcida e unilateral” do conflito no enclave palestiniano e prejudica os soldados israelitas.
Em 80 minutos, ‘NAZA’ analisa a campanha de ataques sistemáticos de Israel no enclave palestiniano através do testemunho de 24 oficiais e soldados dos Serviços de Informações, que pormenorizam estratégias de espionagem telefónica e sistemas de inteligência artificial para identificar alvos.
Segundo denunciam os seus realizadores, este mecanismo funciona como um sistema em grande escala que provoca deliberadamente a morte de centenas de vítimas civis colaterais num único ataque.

