Gabriela Cabezón Cámara alerta para “onda arrasadora” da extrema-direita

Gabriela Cabezón Cámara alerta para

A escritora argentina Gabriela Cabezón Cámara considerou a onda de extrema-direita na América Latina “arrasadora” e “horrível”, alertando para a perseguição à cultura, mulheres e migrantes. No Festival Folio, em Óbidos, a autora defendeu que a literatura continua a ser um espaço de resistência e denúncia.

© Leonardo Alvarez Hernandez/Getty Images


11/10/2026
por

Lusa

A onda de extrema-direita na América Latina “é arrasadora”, afirmou hoje a escritora argentina Gabriela Cabezón Cámara, salientando a necessidade de combater uma ideologia que procura nos escritores, migrantes e mulheres alvos para odiar.

 

“Arrasadora” e “horrível” foi como a autora de “As Meninas do Laranjal”, vencedor do prémio National Book Award 2025 na categoria Literatura Traduzida, descreveu a “onda da extrema-direita” que grassa em vários países da América do Sul e que “odeia aqueles que gostam de escrever, que gostam de ler, porque gostam de refletir sobre as coisas”.

Numa conversa no Folio – Festival Literário Internacional de Óbidos, a escritora lamentou a existência de movimentos que “precisam de construir um inimigo, de alguém para odiar” e escolhem, além dos escritores, “as mulheres e os migrantes”.

Sobre o seu país, onde recentemente escritoras como Dolores Reys e a própria Gabriela Cabezón Cámara foram “alvo de violenta perseguição”, a autora considerou que o Governo de Javier Miley também anda “à procura de inimigos, num setor que quer destruir: a cultura”.

“Não gostam de nós escritores, não gostam de nós jornalistas, não gostam de nós mulheres. Não gostam de nós, os dissidentes sexuais, não gostam de ninguém”, afirmou, aludindo a “um retrocesso” em que o que se está “a viver parece ser o fim da cultura”.

Numa entrevista, na Livraria do Mercado, a escritora partilhou com os leitores do Folio o impacto que a literatura pode ter ao alertar para “a destruição do tecido social”, o que na sua obra passa por dar voz “aos vencidos, aos oprimidos”.

“Neste momento estamos todos na posição de derrotados, estão a empurrar-nos a todos para o abismo”, afirmou, referindo-se ao empobrecimento, às novas gerações que não conseguem comprar casa.

Contudo, acrescentou, “estes derrotados não estão derrotados, continuam vivos, continuam a resistir”, tal como na literatura “há mais mulheres ou mais escritores indígenas a conseguir publicar”, numa era que “toda a literatura contemporânea é escrita a partir da perspetiva política de pessoas derrotadas, oprimidas e subjugadas” e, ao mesmo tempo, surgem “movimentos de resistência que vão obtendo conquistas”.

A entrevista de Gabriela Cabezón Cámara encerrou a programa da editora Penguin agendada para o primeiro fim de semana do Folio, com 450 autores a participar em cerca de 300 iniciativas a acontecer na vila do distrito de Leiria até ao dia 18.

Joaquim Chissano visita Folio e sublinha importância da cultura para a paz

O ex-Presidente da República de Moçambique Joaquim Chissano defendeu hoje no Folio – Festival Literário Internacional de Óbidos que a cultura é muito importante para a paz, um valor fundamental para o seu país.

Lusa | 18:01 – 11/10/2026