O Nobel da Literatura Jon Fosse afirmou no sábado, no Folio, em Óbidos, que o prémio é uma bênção, mas também uma maldição para um escritor tímido e reservado que não pode sair de casa sem ser reconhecido.
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11/10/2026
por
Lusa
Jon Fosse
O Nobel da Literatura Jon Fosse afirmou no sábado, no Folio, em Óbidos, que o prémio é uma bênção, mas também uma maldição para um escritor tímido e reservado que não pode sair de casa sem ser reconhecido.
“O prémio [Nobel da Literatura] é uma bênção, mas também é uma maldição”, afirmou Jon Fosse, lamentando não conseguir sair de casa, em Oslo (capital da Noruega), “sem ser reconhecido” e ter de enfrentar “imensa gente” que o aborda para “tirar selfies”.
Para o escritor, que na noite de sábado partilhou com o público do Folio – Festival Literário Internacional de Óbidos, ser “tímido e reservado”, esta é uma das desvantagens do prémio que recebeu em 2023 pelos romances e peças que a academia sueca considerou darem “voz ao indizível”.
O “indizível” foi também o tema da mesa de autores em que falou da sua escrita, marcada por “ritmos, pausas e silêncios” que ajudam a transpor para os livros “o indizível que não pode ser dito por palavras”.
Numa tenda de autores sobrelotada, o escritor norueguês recuou à infância e adolescência para lembrar ter sido um “mau aluno” que encontrou na música “um refúgio”.
O mesmo refúgio que mais tarde encontrou na escrita e que o levou a tentar passar para o papel uma experiência de quase morte, na sequência de um acidente que sofreu aos sete anos.
“Demorou anos até me ocorrer que tinha sido esse acidente que, de alguma forma, me moldou como ‘artista’, ou me tornou ‘artista’, quando me vi a mim próprio fora do corpo, numa experiência típica de quase morte”, contou, admitindo que “aos sete anos foi uma experiência marcante”, que terá contribuindo para a sua “perspetiva de escrita”.
Pouco dado à autoficção, como leitor e como escritor, defende que “Deus tem de estar presente na primeira página de um bom texto”.
Nos seus livros é notório o impacto da paisagem da região ocidental da Noruega, onde cresceu, próximo de um fiorde.
Foi nesta “Paisagem imponente” que diz ter aprendido palavras básicas como “chuva, pedra ou estrada” e é a esta paisagem que regressa quando escreve obras como a extensa septologia que retrata a vida de dois homens com o mesmo nome, Asle, um deles um pintor viúvo e solitário que reflete sobre a arte, Deus, o luto, a infância e a sua relação com um duplo, o outro Asle, alcoólico e destrutivo.
A obra, em que recorre a “elementos usados noutras peças e noutros romances, mas que são apresentados num novo contexto, sob uma nova perspetiva”, é, até agora, a mais extensa do escritor com mais de 70 livros publicados, mas para quem a vida continua a ser “um mistério enorme”.
“Quanto mais escrevo, mais aprendo, quanto mais leio, mais misterioso tudo se torna”, disse Jon Fosse, que algures neste percurso se converteu ao catolicismo e apreendeu o conceito de “Deus”, ainda que, como escritor do “indizível”, assuma que não o consegue definir.
“É tudo um mistério e temos que aceitar”, afirmou, assumindo-se “totalmente contra todo o tipo de dogmatismo e respostas simplistas a estas questões misteriosas”.
Sem mistérios perante os leitores que encheram a tenda dos autores para ouvir o Nobel da Literatura, Fosse falou dos livros e da vida com a mesma “simplicidade e profundidade” que acredita ser apanágio da sua escrita.
No domingo, volta a falar com os leitores do Fólio numa “entrevista de vida”.
O Folio – Festival Literário de Óbidos decorre até ao dia 18, sob o lema “Para além da pele”, com 450 autores que participam em cerca de 300 iniciativas em torno da literatura.

