‘Ozempic teeth’: O preço invisível da perda de peso perfeita

Um artigo de opinião assinado por Pedro Cosme, médico dentista na MALO CLINIC Lisboa. 

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Artigo de opinião escrito por Pedro Cosme, médico dentista na MALO CLINIC Lisboa. 

 

“Durante anos, a medicina perseguiu um objetivo quase obsessivo: perder peso rapidamente. Agora, com a explosão de medicamentos como o Ozempic e outros fármacos GLP-1, parece que encontrámos finalmente a fórmula mágica. Menos apetite, menos peso, resultados rápidos. O problema? O preço pode ser muito mais alto do que imaginamos… e não estamos a falar apenas de um número na balança. Mas é possível perder peso sem impactar outros aspetos da nossa saúde.

Enquanto as redes sociais celebram transformações físicas impressionantes, médicos e médicos dentistas começam a alertar para um fenómeno silencioso, mas cada vez mais visível: o impacto destes medicamentos na saúde oral e na estética facial. E os sinais começam a ser difíceis de ignorar: boca seca, cáries, desgaste dentário, sensibilidade extrema, irritação gengival, mau hálito e até alterações estruturais no rosto. Termos como ‘Ozempic face’, ‘Ozempic mouth’ ou ‘Ozempic teeth’ deixaram de ser apenas expressões virais e começaram a entrar nas conversas clínicas.

Um dos principais problemas criados por estes medicamentos prendem-se com aumento da acidez no meio oral, provocado não só pela diminuição do ritmo de digestão, que pode levar a aumento do refluxo gástrico, mas também pela redução do fluxo salivar e pelas náuseas que são efeito secundário deste tipo de fármacos. Isso pode levar a lesões de desmineralização da estrutura dentária, que aumentam a sensibilidade e o risco de cáries, fragilizando os dentes. Também as gengivas sofrem, ao desidratar ficam mais sensíveis e aumenta a propensão para acumulação de tártaro. 

Muitas vezes, associado com a toma do Ozempic e similares, são também prescritos ansiolíticos e antidepressivos, para diminuir os acessos de fome e má-disposição. Um dos principais efeitos destes medicamentos é também a secura extrema da boca. A associação dos dois medicamentos potencia ainda mais esse efeito. A manutenção da hidratação da boca é um dos nossos mecanismos de defesa mais importantes: protege os dentes, controla bactérias e neutraliza ácidos. Quando desaparece, os problemas começam a surgir.

Por razões que ainda não se conseguem explicar, há também em quem faz este tratamento um aumento do risco de desenvolverem fenómenos de apertamento dentário e ranger de dentes, também conhecido como bruxismo. Se associarmos este efeito com o aumento da fragilidade da estrutura dentária e da sensibilidade, isso pode ter efeitos catastróficos na saúde oral.

O emagrecimento rápido leva a uma acentuada perda de gordura facial e, se a alimentação e o exercício não forem adequados, verifica-se a diminuição da massa e tonicidade muscular, e o consequente acentuar de rugas e sulcos faciais, flacidez dos lábios, bochechas encovadas e um aspeto precocemente envelhecido: a tal ‘Ozempic-face’.

O rosto perde suporte, levando a uma alteração no sorriso, o que faz com que muitos pacientes comecem a notar uma aparência mais cansada e envelhecida. Isto é precisamente o oposto da imagem saudável que procuram alcançar através de uma fórmula quase milagrosa.

Há ainda outra questão que raramente é referida e que pode ser uma das maiores culpadas nestes efeitos indesejados: a velocidade da transformação. O corpo humano adapta-se mal a mudanças extremas e rápidas, especialmente quando envolvem perda significativa de peso em pouco tempo. A cavidade oral, os músculos faciais e os tecidos de suporte não são diferentes e também sofrem esse impacto. Muitos pacientes acabam por procurar tratamentos corretivos não porque emagreceram, mas porque deixaram de reconhecer a própria imagem ao espelho. Esses tratamentos estéticos podem eventualmente ser necessários, mas o organismo acaba por habituar-se, caso a nutrição, sobretudo de proteínas e gorduras, for adequada, e a prática de exercício é fortemente recomendada para contrariar o efeito da diminuição de massa muscular. Perder peso com ajuda destes fármacos é ótimo, mas não significa passar fome nem deixar de ingerir uma quantidade adequada de nutrientes. Caso contrário, não só acabamos mais frágeis, mas também aumentamos o risco de recuperar o peso quando paramos a medicação.

O mais preocupante é que esta conversa ainda está muito longe de chegar ao público. Fala-se dos benefícios metabólicos, dos resultados rápidos e das celebridades que perderam peso em poucos meses, mas quase ninguém fala do impacto na saúde oral, na qualidade dos tecidos ou na forma como estes medicamentos podem acelerar problemas dentários já existentes.

Num momento em que a estética ocupa um lugar cada vez mais central na sociedade, torna-se contraditório ignorar precisamente uma das áreas mais visíveis da nossa imagem: o sorriso. Continuamos obcecados com números na balança, mas esquecemo-nos de que saúde, juventude e bem-estar também se refletem na qualidade da pele, na harmonia facial e na saúde oral. E nenhum desses fatores deveria ser sacrificado em nome de resultados rápidos.

Perder peso não devia significar perder saúde, envelhecer o rosto ou comprometer o sorriso. Talvez esteja na altura de a conversa deixar de ser apenas sobre emagrecer rápido e passar a focar-se no verdadeiro custo invisível dessa rapidez”. 

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Inês Morais Monteiro | 13:41 – 01/07/2026

 

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