O espaço de opinião de Sónia Soares Coelho, Psicóloga clínica, Psicoterapeuta e Psicanalista, reconhecida pela Ordem dos Psicólogos Portugueses, ao longo de mais de 30 anos de carreira.
© Rui Bandeira
22/10/2026
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Notícias ao Minuto
Há uma frase que oiço com frequência no consultório, sobretudo a adultos que receberam um diagnóstico tardio: “De repente, tudo fez sentido.” Nas últimas semanas, foi dita por uma campeã olímpica. Chloe Kim, a snowboarder norte-americana com três medalhas olímpicas no halfpipe, contou que descobriu há pouco tempo ter PHDA. “Durante anos, andei com dificuldades, mas quando finalmente me abri com o meu médico, foi como se tudo encaixasse de repente.” Explicou que vive de listas, de alarmes no telemóvel e de rotinas fixas, e que no halfpipe não se pode estar distraído no ar. A notícia chegou há poucos dias à imprensa portuguesa.
Antes de pensar na frase, convém dizer onde foi dita. Kim divulgou o diagnóstico no âmbito de uma parceria remunerada com a farmacêutica que comercializa o medicamento que toma, anunciada em comunicado no fim de Agosto. Nada disto torna o seu sofrimento menos verdadeiro, nem o alívio menos real. Mas lembra que um diagnóstico, quando passa para o espaço público, raramente circula sozinho: leva consigo interesses, tratamentos e uma certa promessa ilusória de que, encontrado o nome, o resto se resolve. Na União Europeia, a publicidade ao público de medicamentos sujeitos a receita médica é proibida. Nos Estados Unidos, é permitida.
O alívio merece ser levado a sério. Muitos adultos neurodivergentes passaram a vida a ouvir que eram distraídos, preguiçosos, desorganizados ou estranhos. Construíram explicações sobre si próprios a partir dessas palavras alheias, e quase sempre explicações avassaladoras. Um diagnóstico bem feito pode desfazer parte dessa acusação. O que antes era lido como falha de carácter passa a ter outra leitura. Para quem passou anos e anos a culpar-se, isto não é desprezível.
Freud usou muitas vezes uma palavra para descrever a forma como o psiquismo lida com o tempo: Nachträglichkeit, que se costuma traduzir por “a posteriori” ou “só-depois”. Vivências e traços de memória antigos são remodelados mais tarde, quando uma experiência nova ou uma nova fase da vida lhes dá outro sentido e outra eficácia. O diagnóstico em adulto lembra este movimento. As notas da escola, os trabalhos entregues à última hora, a sensação de estar sempre um passo atrás: nada disso aconteceu de outra maneira, mas a memória que se tem deles muda de sentido e de peso. É por isso que a frase “tudo encaixou” é tão comum. Quem a diz está a descobrir uma coisa nova sobre uma coisa antiga e, ao mesmo tempo, a reescrever a própria história. Há, contudo, uma diferença: em Freud, esse trabalho é sobretudo inconsciente e incide muitas vezes sobre experiências da infância; no diagnóstico, é uma palavra consciente, vinda de fora, que reorganiza o passado. É uma analogia, e convém lê-la como tal.
É aqui, porém, que o trabalho começa.
Uma reescrita pode libertar ou pode fechar-se depressa demais. Quando todas as peças encaixam, a tentação é deixar de olhar para elas. A PHDA passa a explicar a dificuldade em começar tarefas, mas também a zanga com o pai, a relação que acabou, o medo de falhar. Algumas destas coisas terão, de facto, relação com a forma como a atenção funciona. Outras pedem outra reflexão. Um nome que explica tudo deixa de ajudar a pensar.
Há ainda um segundo movimento, mais subtil. Em “Psicologia das massas e análise do eu”, de 1921, Freud descreveu uma forma de identificação que pode nascer da percepção de uma qualidade comum com outra pessoa, sem que essa pessoa seja objecto das pulsões sexuais. Quanto mais importante for essa qualidade comum, escreveu, mais bem-sucedida pode ser esta identificação parcial, e pode estar assim na origem de um novo laço. É o que se passa hoje nas comunidades que se formam à volta de um diagnóstico, nas redes sociais e fora delas. Têm muito de bom: quebram o isolamento e dão palavras a quem não as tinha. Mas Freud chamou-lhe, precisamente, uma identificação parcial: assenta numa só qualidade. Quando a pessoa passa a reconhecer-se sobretudo por ele, o resto de si arrisca-se a ficar sem lugar.
O desporto de alta competição oferece aqui um exemplo raro. Durante anos, Chloe Kim foi descrita como um prodígio, capaz de manobras que exigem uma precisão absoluta no ar. Afinal, aquilo que parecia um dom natural tinha também atrás de si um esforço permanente de organização. Isto diz muito sobre o que muitas pessoas neurodivergentes fazem todos os dias sem que ninguém veja: compensam, adaptam-se, “aguentam”. Há nesse esforço uma inteligência e uma força enormes. Contudo, existe também um cansaço brutal. Muitas vezes, é quando esse esforço deixa de chegar – numa mudança de emprego, no nascimento de um filho, no fim de uma carreira – que a pessoa procura ajuda e o diagnóstico aparece.
O diagnóstico pode abrir a porta a um espaço onde esse cansaço, finalmente, se pode dizer e elaborar: o espaço psicoterapêutico. Pode ser também o momento em que alguém, aliviado, decide que já sabe tudo o que havia para saber sobre si. A diferença entre uma coisa e outra não está no nome, no diagnóstico, mas no que se faz com ele.
Na clínica, o que mais me interessa depois de um diagnóstico é a pergunta seguinte: e agora, o que quer fazer com isto? Para uns, é a autorização para pedir ajuda sem vergonha. Para outros, é a possibilidade de falar com quem vive o mesmo. Para muitos, é o início de uma conversa sobre o que ficou por dizer durante os anos em que a explicação era outra. Foi a pensar nisto que criámos, na Mentanalysis, grupos terapêuticos online para adultos neurodivergentes: um lugar onde a qualidade comum serve para criar laço, sem que ninguém fique reduzido a ela, e onde se pensa em conjunto o que o diagnóstico explica e o que deixa por explicar. O nome dá chão. O caminho continua por fazer.
Declaração de interesses: a autora é directora clínica da Mentanalysis, que tem os grupos terapêuticos online para adultos neurodivergentes referidos neste texto.

