Três candidatos à presidência tripartida da Bósnia declaram vitória

Três candidatos à presidência tripartida da Bósnia declaram vitória

Três candidatos às presidenciais da Bósnia-Herzegovina, cujo cargo é tripartido entre etnias, declararam vitória nas eleições hoje realizadas, apesar de ainda só estarem contados cerca de 90% dos votos.

© AFP via Getty Images


04/10/2026
por

Lusa

O nacionalista sérvio bósnio Milorad Dodik, político firmemente pró-Rússia, declarou vitória do seu partido, atribuindo o ganho eleitoral à “magnífica vitória” do Presidente norte-americano, Donald Trump, em 2024, e ao apoio do Presidente russo, Vladimir Putin.

 

Apesar de não constar no boletim de voto, Dodik dominou a campanha com retórica separatista, o que gerou receios de uma renovada instabilidade no país.

Antigo Presidente da Republika Srpska, a entidade de maioria sérvia do país, Dodik foi proibido de exercer cargos públicos depois de ter sido condenado, no ano passado, por desobedecer às decisões do enviado internacional que supervisionava o acordo de paz de 1995, que pôs fim à guerra de três anos.

Com quase 90% dos votos apurados, Zeljka Cvijanovic, aliada de Dodik e da Aliança dos Social-Democratas Independentes (ASI), de direita, tinha mais de 55% dos votos, garantindo um dos três lugares na presidência tripartida do país e liderando a corrida contra o seu adversário mais próximo por cerca de 30 pontos percentuais.

Paralelamente, a candidata Darijana Filipovic, do União Democrática Croata da Bósnia-Herzegovina, declarou vitória com uma vantagem expressiva na corrida ao lugar croata na presidência, enquanto o atual Presidente bósnio, Denis Becirovic, do Partido Social Democrata, se congratulou pela liderança da corrida contra o seu adversário mais próximo, Bakir Izetbegovic, por menos de três pontos percentuais.

Cerca de 3,4 milhões de eleitores estavam aptos a escolher os três membros da presidência multiétnica do país, os deputados do parlamento nacional e os chefes das instituições das duas entidades do país: a Federação da Bósnia-Herzegovina, de maioria muçulmana, e a República Sérvia, dominada por sérvios étnicos.

No entanto, segundo a Comissão Eleitoral Central da Bósnia, foram contabilizados 1.432.269 votos no total, o que representa uma participação de 42%, cerca de menos 8 pontos percentuais do que a das últimas eleições do país, em 2022.

A Bósnia possui uma complexa rede de instituições governamentais criadas por um acordo de paz mediado pelos EUA em 1995, numa tentativa de gerir as divisões étnicas entre bósnios muçulmanos, sérvios ortodoxos e croatas católicos, que deram origem à guerra.

No entanto, Dodik tem testado estes limites constantemente, desafiando abertamente o Governo nacional da Bósnia na capital, Sarajevo, e tomando medidas para que a República Sérvia se separe do país.

No último comício eleitoral do seu partido, na sexta-feira à noite, em Banja Luka, capital administrativa da República Sérvia, Dodik disse aos seus apoiantes que a Bósnia “está morta”.

“É um país impossível. Não faz qualquer sentido”, afirmou no comício, que contou também com a presença do embaixador russo, Igor Khalabukov.

Estas divisões políticas e étnicas — em que os bósnios, sérvios e croatas do país votam em grande parte de acordo com as suas etnias — têm bloqueado o progresso da Bósnia rumo à adesão à UE, apesar dos esforços do bloco para incentivar os líderes divididos do país a trabalharem em conjunto para reformas.

Um dos países mais pobres da Europa, a Bósnia-Herzegovina ainda luta para recuperar da guerra que começou em 1992, depois de o país ter declarado a independência da ex-Jugoslávia liderada pelos sérvios e de os sérvios étnicos terem pegado em armas para criar o seu próprio Estado e se unirem à Sérvia.

O conflito matou mais de 100.000 pessoas e desalojou milhões.

As feridas da guerra foram recentemente reabertas por uma homenagem pública na Sérvia e entre os sérvios da Bósnia ao comandante do exército em tempo de guerra Ratko Mladic, que morreu no final de agosto enquanto cumpria pena de prisão perpétua por genocídio e outros crimes de guerra.

Os sérvios da Bósnia consideram Mladic um herói, apesar da sua condenação por um tribunal da ONU pelo massacre de mais de 8.000 homens e rapazes muçulmanos em Srebrenica, em 1995, e de outras atrocidades.

A eleição de hoje foi a primeira em que a Bósnia utilizou a identificação eletrónica dos eleitores e ‘scanners’ de boletins de voto para evitar irregularidades ou manipulação organizada dos eleitores, o que lançou dúvidas sobre a lisura das eleições anteriores.

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