Opositora russa alerta para crescente colaboração entre ditaduras

Opositora russa alerta para crescente colaboração entre ditaduras

A opositora russa exilada Yulia Navalnaya alertou que as ditaduras do século XXI estão a tornar-se mais inteligentes e colaboram entre si, defendendo uma abordagem científica para combatê-las.

© CARLOS JASSO / AFP via Getty Images


27/10/2026
por

Lusa

A opositora russa exilada Yulia Navalnaya alertou hoje que as ditaduras do século XXI estão a tornar-se “mais inteligentes e mais astutas”, cooperando entre si, e defendeu que combatê-las exige “uma abordagem verdadeiramente científica”.

 

“Infelizmente, no século XXI, os ditadores tornaram-se mais inteligentes e mais astutos. Aprendem uns com os outros, trabalham em conjunto e ajudam-se mutuamente”, declarou, durante o lançamento do relatório “Índice de Colaboração Autoritária: Relatório de Tendências de outubro de 2026”, em Londres.

Segundo a viúva do ativista opositor russo Alexei Navalny, os regimes autoritários aproveitam e sabem “explorar os sistemas financeiros e jurídicos dos países ocidentais” e contornar restrições e sanções.

“Interpretam sempre a própria ideia do Estado de Direito de uma forma peculiar, usando as leis para suprimir os seus opositores”, acrescentou, alertando que são “muito perigosos” e que “nunca, em circunstância alguma, devem ser subestimados”.

Para Yulia Navalnaya, “uma luta eficaz contra os ditadores é impossível sem análise séria, sem uma abordagem verdadeiramente científica”.

Foi com esse objetivo que a Fundação dos Direitos Humanos (Human Rights Foundation, HRF), à qual preside e responsável pelo projeto “Rastreador de Tiranias” (Tiranny Tracker), fez uma parceria com a organização Ação pela Democracia (Action for Democracy, A4D), que desenvolveu o “Índice de Colaboração Autoritária” (Authoritarian Collaboration Index, ACI).

O Rastreador de Tiranias avalia a liberdade política em 179 países e territórios, mediante indicadores relativos à competição eleitoral, liberdade política e responsabilização institucional, distinguindo democracias, regimes autoritários híbridos e regimes plenamente autoritários.

Entre os países lusófonos, Portugal, Brasil e Timor-Leste são classificados como democracias, enquanto Angola, Moçambique e Guiné-Bissau integram a categoria dos regimes plenamente autoritários, segundo as respetivas fichas da plataforma.

Cabo Verde e São Tomé e Príncipe não estão classificados.

A classificação dos regimes realizada pela HRF vai agora servir de referência ao “Índice de Colaboração Autoritária”, que acompanha relações transnacionais entre governos autoritários, governos com tendências autoritárias e partidos que a A4D considera de orientação autoritária em países democráticos.

O relatório divulgado hoje refere a formação de alianças por partidos “iliberais” europeus, incluindo contactos bilaterais e multilaterais entre partidos de extrema-direita, como o Partido Reformista britânico (Reform UK), de Nigel Farage, e a francesa União Nacional, de Marine Le Pen, além do aprofundamento das ligações entre a Alternativa para a Alemanha (AfD) e o Kremlin.

Entre os 139 atores monitorizados em outubro figuram Angola, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial e Moçambique, bem como o Chega e o Partido Comunista Português (PCP).

O relatório, que analisa o período entre 01 de março e 01 de outubro de 2026, identifica a China e a Rússia como os principais motores das redes de cooperação autoritária.

A Rússia é apresentada como protagonista no fornecimento de armas, formação e tropas para aumentar a influência junto de regimes africanos, como Moçambique, que, segundo o documento, recebeu armas e formação de militares por Moscovo para combater insurgentes islâmicos no norte do país.

O Partido Comunista do Vietname, segundo o ACI, faz algo semelhante, promovendo programas de formação dos partidos no poder em Angola e Moçambique, o MPLA e a FRELIMO.

Para Navalnya, a parceria entre HRF e a A4D é importante porque “os ditadores que cooperam só podem ser derrotados se aqueles que lutam pela liberdade também cooperarem”.

Na intervenção, a ativista manifestou esperança numa mudança política na Rússia, afirmando que a classificação do país como plenamente autoritário não será permanente, invocando as mudanças políticas deste ano na Hungria e Sérvia.

“Esta manhã, consultei o Rastreador de Tiranias e dizia que a Sérvia é um regime autoritário híbrido. A luz amarela está acesa e parece que em breve passará a verde, após a derrota histórica do partido de Alexander Vujic anteontem [domingo]”, congratulou-se.

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